Sob o olhar do Cristo Redentor e às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, um espaço que antes parecia reservado à elite carioca se tornou, ao longo das últimas duas décadas, um ponto de encontro marcado por inclusão, solidariedade e crença no poder transformador do esporte. Entre raquetadas, brincadeiras e risadas infantis, o projeto Tênis na Lagoa acolhe crianças e adolescentes, de 6 a 17 anos, em situação de vulnerabilidade, e oferece muito mais do que aulas de tênis: oferece perspectiva.
Leu essa? Mulheres na areia: as barreiras invisíveis para jogadoras de beach soccer
A ideia surgiu em 2004, a partir do trabalho atento e inquieto de Alexandre Borges, professor de tênis e apaixonado pela modalidade. Ao observar jovens passando pela quadra – sendo alguns deles boleiros dos clubes ao redor –, decidiu ajudá-los para que, de alguma forma, conhecessem melhor o esporte. Assim, passou a proporcionar um acesso mais amplo à atividade que, para muitos, soava distante.


Com o passar dos anos, o projeto inicial com foco esportivo se expandiu, e o Tênis na Lagoa passou a assumir um papel de formação e transformação cidadã. Atualmente, cerca de 230 crianças e adolescentes estão inscritos. E mais de 6 mil já tiveram a vida impactada pelo projeto, ao longo das mais de duas décadas de atividade.
Receba um resumo com nossas notícias e colunas. É de graça!
Veja o que já enviamosAlém das aulas de tênis, as atividades realizadas incluem rodas de conversa, aulas de ioga, acompanhamento psicológico, palestras de atletas profissionais e passeios culturais – como visitas ao AquaRio, teatro e cinema. Um dos momentos mais simbólicos do ano é a ida anual ao Rio Open, torneio ATP 500 que ocorre em fevereiro, no Jockey. Para Borges, o evento é como se fosse uma “Disney” para as crianças do projeto, uma chance única de conhecer ídolos de perto e ver que podem sonhar alto.
Acima de tudo, o projeto representa, para grande parte dos jovens atendidos, o primeiro contato com vivências e oportunidades que, infelizmente, são negadas pelo Estado e raramente estão presentes em suas comunidades. Desde orientação sobre o primeiro emprego, passando por incentivo à educação, convivência com realidades distintas e chegando ao acesso à cultura, constrói-se uma rede de apoio que se estende para além das quadras. Assim, ampliam-se os horizontes dos alunos, que, ao questionarem se podem alcançar determinado lugar ou objetivo, recebem sempre a mesma resposta de Alexandre: “Você pode. Mas tem que estudar, respeitar os pais, praticar o esporte e ter disciplina”.


Derrubando muros do esporte
Apesar de carregar, historicamente, o estigma de ser um esporte elitizado – praticado dentro de clubes privados e associado a altos custos –, o tênis oferece muitos benefícios, que, inclusive, extrapolam a quadra e acompanham os seus praticantes por toda a vida. Entretanto, ainda assim, há entre muitos responsáveis uma certa desconfiança natural diante da inserção nesse universo.
A essência de um projeto como o Tênis na Lagoa é justamente dar acesso a uma atividade que dificilmente estaria ao alcance dessas famílias. A quadra em frente ao Monte Líbano, embora pública, sempre carregou um ar de território distante e exclusivo. Hoje, no entanto, ela se transformou em um palco de encontros entre diferentes mundos.
Crianças da Rocinha, do Vidigal, da Pavuna e de tantas outras regiões do Rio dividem o mesmo espaço, aprendem juntas, criam laços que dificilmente surgiriam fora dali e formam uma verdadeira “família”. Ao mesmo tempo, jovens de colégios particulares da Zona Sul — como a Escola Britânica — também frequentam as aulas e batem bola com os pequenos, assim, gerando um ambiente raro de convivência e troca entre realidades que, no cotidiano da cidade, quase nunca se cruzam.
O impacto gerado em inúmeras vidas durante esses mais de 20 anos é difícil de mensurar, mas alguns momentos dão uma noção dessa força transformadora. Quando Alexandre publicou nas redes sociais um pedido para que alunos e ex-alunos descrevessem o que o projeto representava em uma única palavra, as respostas formaram um mosaico de afeto, com palavras como “carinho”, “disciplina”, “felicidade”, entre outras. “Eu vou chorando quando leio isso”, admitiu.


Oportunidades que mudam vidas
E entre tantas histórias, algumas se tornaram símbolos de inspiração. Uma das mais marcantes é a de Antônio Vitor, que chegou ao projeto aos sete anos e viu sua trajetória mudar por completo. Filho de porteiro e empregada doméstica, trocou o futebol pelo tênis ainda pequeno e encontrou na quadra da Lagoa uma porta aberta para sonhar.
Vitinho, como é conhecido, rapidamente se destacou e esteve entre os melhores do Brasil nas categorias 16 e 18 anos. Embora não tenha alcançado o objetivo inicial de se tornar jogador profissional, acabou conquistando algo igualmente transformador. Recebeu uma bolsa de estudos nos Estados Unidos e hoje, além de cursar Análise de Dados, é capitão do Montreat College, um time universitário na Carolina do Norte. Com isso, se tornou uma prova concreta do que o esporte pode proporcionar quando encontra oportunidade e acolhimento.
Outra trajetória lembrada por Borges é a de duas irmãs gêmeas, moradoras de Vista Alegre, que atravessavam a cidade uma vez por semana para treinar — um esforço que, segundo elas mesmas, valia a pena porque as aulas lhes proporcionavam experiências a que dificilmente teriam acesso. Atualmente, ambas se formaram em Odontologia e seguiram suas carreiras, tornando-se um dos exemplos de como diferentes caminhos podem se abrir apenas com a raquete nas mãos.
“Para mim, é muito bacana ver essa garotada que antes não tinha esse pensamento de fazer faculdade e que hoje tem muita vontade de crescimento. Eu falo: vamos embora. O que precisar de mim, do projeto, estou aqui para ajudar no teu crescimento. Que pra mim, você é o meu filho. Então, o que eu puder ajudar, sempre vou ajudar…”, afirmou o professor.


Enquanto algumas histórias já ganharam novos capítulos longe das quadras, outras estão sendo escritas nesse momento. Geovana de Paula, de 13 anos, é moradora da Rocinha e se tornou aluna há três anos. A mãe, Mirian Soares, queria que a filha praticasse algum esporte e, ao conhecer o Tênis na Lagoa, decidiu inscrevê-la. O que começou como uma tentativa tímida, rapidamente rendeu frutos. Fã da bielorrussa Aryna Sabalenka, ela logo se apaixonou pela modalidade e se tornou atleta federada, passando a viajar por diferentes estados para competir.
Nesse meio tempo, viveu experiências únicas: além da possibilidade de conhecer novos locais, foi boleira no Rio Open e, mais recentemente, no WTA 125 do Rio de Janeiro – o Ladies Open –, no qual pôde conhecer e tirar fotos com referências do circuito feminino. Além disso, o apoio a levou à Etchecoin Tennis, onde João Fonseca, o brasileiro mais bem rankeado na ATP e prodígio do tênis mundial, também treinou.
A mudança foi tão profunda que até os planos de futuro se transformaram. “Ela queria ser professora. Hoje diz que quer ser tenista”, contou Mirian, orgulhosa. O vínculo com o projeto foi tão forte que a própria mãe passou a ajudar na organização, reforçando como a iniciativa não impacta apenas os alunos, mas toda a estrutura familiar que os cerca.


A luta pela sobrevivência: os desafios financeiros
Como grande parte dos projetos sociais esportivos do país, o Tênis na Lagoa enfrenta dificuldades para se manter financeiramente. Nesse ano, conseguiu, pela primeira vez, ser aprovado na Lei de Incentivo ao Esporte — mecanismo federal criado em 2006 que permite que empresas e pessoas físicas destinem parte do imposto de renda devido para financiar iniciativas esportivas.
No ano passado, dos cerca de 6,6 mil projetos apresentados, mais de 2,5 mil foram aprovados na Lei, somando uma captação recorde de mais de R$1 bilhão, segundo números do Ministério do Esporte. Ainda assim, de todas as iniciativas, apenas uma parte consegue, de fato, atrair patrocinadores.
O Tênis na Lagoa vive isso na prática. Apesar de ter sido contemplado com o patrocínio do Banco Santander em 2025, o contrato acaba em dezembro e não foi renovado: “Esse foi o primeiro ano que a gente conseguiu um patrocínio através da Lei de Incentivo. É difícil, mas foi o primeiro. E tem os seus benefícios de poder ter mais gente trabalhando, ajudando essa garotada a crescer como pessoa. Só que ano que vem a gente não tem mais patrocínio, então eu estou procurando. O que eu tenho são amigos que gostam da causa, que me ajudam a manter essa loucura junto. Me chamam de louco, mas eu falo: continuem me chamando de louco, se eu conseguir atingir o que eu estou atingindo de criança, está valendo”, relatou Alexandre.
Independentemente do apoio estatal, a manutenção envolve uma rede de solidariedade. Além de ter Thomaz Koch – um dos maiores nomes da história do tênis brasileiro – como padrinho há mais de 15 anos, a iniciativa conta com diversos apoiadores ilustres: Gustavo Kuerten, Bia Haddad, a atriz Malu Mader, o humorista Helio De La Peña, entre outros.
Mas a força dessa rede não se resume a figuras conhecidas. Frequentemente o projeto recebe doações, seja de materiais – como tênis, bolas e raquetes – ou financeiras, visando custear viagens de alunos federados para competições e viabilizar a realização de eventos especiais, como o Natal Solidário. Dessa forma, com o auxílio de uma comunidade que acredita no impacto do esporte, o projeto se mantém.


@projetotenisnalagoa / Instagram)
Esperança a cada raquetada
Mesmo com os desafios, Alexandre continua sonhando alto. Um dos planos mais importantes para os próximos anos é construir, atrás da quadra, uma Tenda do Conhecimento — um núcleo dedicado ao estudo e às novas profissões. A ideia é simples, mas ambiciosa e eficiente: apresentar aos jovens as inúmeras possibilidades de empregos que existem e direcioná-los quanto ao que eles podem aprender, estudar e perseguir futuramente.
“Vamos começar a trazer profissões para eles conhecerem. Para eles entenderem como é o processo, como tem que se dedicar para evoluírem. Porque hoje eu falo que nem todo mundo vai ser tenista. Daqui vai aparecer um advogado, um juiz, um engenheiro, um contador… é só descobrir. Eles se descobrirem como pessoas, o que eles querem, qual caminho querem seguir.”
A proposta é ampliar horizontes, criar metas e preparar jovens para trilhar caminhos, que, na maioria das vezes, vão muito além das quadras.
O tênis é, de certa forma, uma metáfora da vida: com mais derrotas do que vitórias, mais tombos do que glórias. Mas também é sobre resiliência, estratégia, superação – valores que são transmitidos para cada aluno que pisa na quadra. Sobretudo, se trata de uma ferramenta essencial de transformação social.
Para Alexandre Borges, essa ligação é visceral. Em um dos momentos mais difíceis da sua vida, após a morte da mãe, foi ele quem o manteve de pé. Desde então, manter o projeto tornou-se promessa e propósito, uma forma de retribuição.
Quanto maior for o acesso às mais variadas modalidades, maior será a esperança sobre um futuro melhor. Ao olhar para trás, nessas mais de duas décadas, é evidente que a grande conquista da iniciativa está no crescimento constante, não apenas dela em si, mas das pessoas que passaram por ela.
Como Alexandre costuma dizer, “cada raquetada é um sonho para uma criança”. E, se depender de projetos como o Tênis na Lagoa, esses sonhos seguirão vivos e batendo forte: uma prova diária de que o esporte, quando aliado ao afeto e a uma estrutura educacional, é capaz de transformar vidas.
(*) Trabalho produzido para a disciplina Reportagem I, do curso de Jornalismo da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), sob a orientação dos professores Luan Pazzini Bittencourt e Marcelo Kischinhevsky.
Apoie o #Colabora!
Faça parte da campanha “10 anos, 101 apoiadores” e ajude a fortalecer nosso jornalismo independente e de qualidade. Com apenas R$ 20 por mês (menos de R$ 0,70 por dia), você já contribui para manter histórias e reportagens que fazem a diferença, como esta.











Comentários