Afeto e memória nas brincadeiras de Boi de Belém

Boi Marronzinho nas ruas do bairro Terra Firme: Belém abriga centenas de bois juninos, que, para além da festa, reforçam cultura local e vida em comunidade (Foto: Bianca Portela)
Boi Marronzinho nas ruas do bairro Terra Firme: Belém abriga centenas de bois juninos, que, para além da festa, reforçam cultura local e vida em comunidade (Foto: Bianca Portela)
Boi Marronzinho nas ruas do bairro Terra Firme: Belém abriga centenas de bois juninos, que, para além da festa, reforçam cultura local e vida em comunidade (Foto: Bianca Portela)

Capital paraense abriga centenas de bois juninos, que, para além da festa, reforçam cultura local e vida em comunidade

Por João Victor Evangelista | Inclusão e Diversidade, ODS 11

Publicado em 25/09/2026 - 09h34

Tempo de leitura: 12 min

O Boi desce a avenida.

Em junho, as ruas de Belém ganham um calor adicional a sua já habitual quentura. Aos domingos, a Praça da República, localizada no Bairro do Campina, é o ponto de partida para o início de uns dos principais eventos culturais que fazem parte da quadra junina da capital paraense: o Arrastão da Pavulagem. Ao longo de quatro domingos, o cortejo leva para as ruas mais de 30 mil pessoas em cada encontro. A concentração se inicia às 9h, em frente ao Theatro da Paz. Os integrantes do Batalhão da Estrela se organizam ao som das músicas típicas como o carimbó e as toadas do Boi Bumbá, tradição das festas da Amazônia. Esse momento é importante para o maior envolvimento daqueles que vão acompanhar o cortejo ensinando mais sobre a música e a coreografia.

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Às 10h, começa o arrastão do Pavulagem. Na frente do cortejo, se encontra o seu brinquedo: o Boi da Pavulagem. Dono de azul característico, seu couro é revestido de bordados, fitas, lantejoulas e pedrarias que desenham flores e estrelas. Sua beleza faz jus ao nome: “pavulagem”, gíria regional para descrever alguém vaidoso, orgulhoso e bonito. Seguindo os passos do Boi, está o Batalhão formado por músicos que tocam uma variedade de instrumentos – de recos-recos e maracas até ganzas e tambores-onças – e ainda pernas-pau, dançarinos e outros brincantes.

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Após descer pela extensão da Presidente Vargas, o cortejo se deságua na Praça Waldemar Henrique, onde inicia o show da banda do Arraial do Pavulagem. O Boi dança em cima do palco para uma multidão que tem na brincadeira de Boi-Bumbá, uma tradição anual. A jovem Elis Pantoja lembra bem da primeira vez que acompanhou um arrastão do Boi Azul. Na companhia da mãe e da avó, ela cita a experiência como transformadora, que a fez se sentir parte da cidade.

“A minha família não é de Belém. Eu cresci aqui sempre. Então, eu sentia falta em alguns momentos de ter uma cultura belenense que eu via que as minhas amigas tinham e eu não. Eu fui aprendendo aos poucos a me soltar no Boi. Do momento do arrastão e do cortejo, a gente vai aprendendo as músicas e se cria essa cultura compartilhada que para mim sempre foi algo muito desejado e eu nem sempre tive, eu tive que aprender com o tempo a me acostumar e a me sentir pertencente.”

Arrastão do Boi da Pavulagem no centro de Belém: cortejos no período junino, atividades no ano inteiro(Foto: Bianca Portela)
Arrastão do Boi da Pavulagem no centro de Belém: cortejos no período junino, atividades no ano inteiro (Foto: Bianca Portela)

Assim como Elis, milhares de pessoas se encontram como parte de algo maior através das brincadeiras do boi. No cortejo, é possível observar gente de todas as raças, gêneros, faixas, classes sociais e origens. Os brincantes, por mais distintos que sejam, compartilham além do tradicional chapéu de palha adornado com fitas coloridas, o desejo de festejar o Boi mais vaidoso da Amazônia.

Também oriunda do interior do Pará, Thiffany Martins adentrou no Batalhão da Estrela já no segundo ano como brincante, o que considera uma tarefa de grande responsabilidade. Ela se emociona em um momento marcante com o Boi da Pavulagem vivenciando neste ano. “Nesse último arrastão, eu consegui me inscrever para fazer parte do setor de dança. Entrei com dois minutos de atraso, que geralmente é o suficiente para acabar as inscrições, mas mesmo assim consegui me inscrever. E eu fui para os ensaios, fui para o momento de receber os novos brincantes. Foi naquele momento que eu percebi que não ia conseguir participar, porque estava muito ocupada com meu TCC, e fiquei muito triste”, conta a universitária.

Estudante de cinema, Thiffany também vendia caipirinhas do Arraial para auxiliar na produção do seu curta de conclusão de curso e lembra do momento marcante. “Chorei muito — aproveitei que o ato era simbólico ali de receber os novos brincantes —, porque percebi que realmente não ia conseguir participar daquele ano. Depois a gente abriu uma roda de carimbó, como sempre abre nos ensaios do Pavulagem, e a primeira roda que o Boi entrou foi a que eu estava. Ele dançou na minha frente e eu fiquei pensando no poder da comunidade, de como a cultura popular realmente tinha me abraçado”.

Boi Malhadinho desfila no Guamá: espaço de cidadania e direito na periferias de Belém (Foto: Facebook Malhadinho / Reprodução)
Boi Malhadinho desfila no Guamá: espaço de cidadania e direito na periferias de Belém (Foto: Facebook Malhadinho / Reprodução)

Brincadeiras dos bois pelos bairros

Além do Boi do Pavulagem, Belém também é lar de centenas de outros bois juninos, distribuídos pelos 72 bairros e 8 distritos administrativos que compõem o município. O Guamá, bairro mais populoso da cidade, onde está localizada a Universidade Federal do Pará, é o lar do Boi Malhadinho, realeza do Guamá. Criado no ano de 1934, o Malhadinho é um convidado frequente do Arraial do Pavulagem, que o imortalizou na música “Bilhete do Nazo”, com os versos “Que o Guamá tá em festa / Tem valor, jardim em flor / Tem malhadinho no pasto”.

William Andrey se considera um legítimo cidadão guamense e conta ter inicioado sua relação com o Boi ainda na infância. “Geralmente, nos meses de maio e junho, período das festividades juninas, aconteciam eventos nas escolas e nas ruas do bairro. Sempre havia o tradicional sábado de festa junina na escola, e a gente brincava muito. O boi era a principal atração. O que mais me encantava eram as brincadeiras, o batuque contagiante. O que mais me cativa até hoje é justamente o batuque e a liberdade da dança, porque não existe um jeito certo de dançar cada pessoa se expressa do seu jeito”, relembra William, com nostalgia.

O Boi Malhadinho – assim como seu conterrâneo de bairro, o Boi Tabatinga e tantos outros – não se resume apenas como uma simples brincadeira anual, mas também como um espaço de cidadania e direitos. Nas periferias de Belém, onde a violência e a desigualdade social são problemas gritantes, os Bois cumprem as funções sociais de garantir a criação de espaços de segurança, lazer e educação.

Na Terra Firme, bairro vizinho do Guamá, vive o Boi Marronzinho. Jeannfer Cristo teve seu primeiro contato durante a pandemia, quando juntamente com outros coletivos, o Marronzinho distribuiu cestas básicas para a comunidade e sua família foi uma das contempladas. Sua relação com o brinquedo foi aumentando ao longo dos anos, com Jeannfer, gradativamente,participando mais das ações culturais do Boi.

Professora de dança, ela, hoje, dá aulas para as crianças, participa do grupo do maracá formado majoritariamente por mulheres e canta nos cortejos. Para Jeannfer, a relação com o Marronzinho fez compreender o significado de fazer parte do bairro. “Eu passei a enxergar à Terra Firme sobre outra ótica, desde quando eu comecei a fazer parte do boi”, diz Jeannfer, com orgulho. “Eu vivo na Terra Firme, na periferia de Belém. Mas agora é uma questão de defesa. Qualquer ataque ao nosso território, a gente se organiza e defende. A gente defende porque a gente sabe que ali se constrói vida. Ali tem vida, ali tem cultura, ali tem cultura popular”, complementa.

Folguedo junino do Boi Marronzinho: instrumento de defesa da periferia (Foto: Bianca Portela)
Folguedo junino do Boi Marronzinho: instrumento de defesa da periferia (Foto: Bianca Portela)

O Boi Marronzinho nasceu no ano de 1993, após anos de ausência de bois na Terra Firme. Seu fundador e atual presidente, Joelcio Ataíde, conta que o Boi surgiu sem interesse de cumprir qualquer papel social, mas, ao perceber certas demandas da comunidade onde estava inserida, passou a ter um olhar mais atento. “Com isso, nós começamos a buscar alguma resposta para nossa comunidade, muito além dos folguedos, né? Começamos a enveredar por um caminho em que nós jamais imaginávamos que iríamos enveredar, mas que também jamais imaginávamos que poderíamos negligenciá-los e dar as costas para eles”, explica. “E o Boi Marronzinho se tornou um instrumento de luta e de defesa da comunidade da periferia”.

Hoje, o Boi Marronzinho conta com uma agenda que vai muito além da quadra junina. Há programações o ano todo, voltadas em especial para as crianças, às quais Joelcio se refere como o futuro da brincadeira de Boi e para toda a comunidade. O papel social do Boi Marronzinho pode ser observado nas canções que são entoadas durante o cortejo que percorrem as ruas estreitas do bairro da Terra Firme. Nelas, é possível encontrar críticas ao racismo, a xenofobia e a violência contra mulher, entre outras formas de opressão.

Através do brincar de boi, Joelcio acreditar ser possível educar uma geração mais consciente e sensível com questões sociais. “Eu diria o seguinte: nós não podemos deixar se apagar a cultura e o folguedo do boi, porque, dentro de um enredo, de uma trama, ele traz toda a nossa história de vida, de verdade, de cotidiano, que é a eterna luta da pessoa com mais posses, que quer subjugar, que quer humilhar, que quer pôr em segundo plano as pessoas de menos posses. O folguedo consegue dialogar com essas questões e mostrar que isso aí não é para ser isso, que isso existe, mas não era para existir”, afirma o fundador do Marronzinho.

*Esta reportagem é resultado do trabalho final de João Victor Evangelista, desenvolvido como etapa de conclusão do curso #Colabora com Inclusão e Diversidade 2026, realizado com fomento da Associação Saúva.

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João Victor Evangelista

Amazônida e estudante de jornalismo na UFPA, João Victor Evangelista acredita no poder de transformação social da profissão. Tem experiência em rádio, audiovisual e jornalismo científico-ambiental, sempre com o interesse principal de contar boas histórias

João Victor Evangelista

Amazônida e estudante de jornalismo na UFPA, João Victor Evangelista acredita no poder de transformação social da profissão. Tem experiência em rádio, audiovisual e jornalismo científico-ambiental, sempre com o interesse principal de contar boas histórias

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