ODS 1
40+, de ‘mais’ uma vida pela frente
Ao contrário do que o senso comum tenta dizer, envelhecimento pode significar mais escolhas para mulheres, sobretudo em uma eleição em que somos maioria nas urnas
Este ano, no mesmo dia em que Caetano Veloso celebra seu aniversário, eu fiz 41 anos com todo tipo de festejo. Quando nasci, em 1985, a expectativa de vida de uma mulher brasileira era de 68,2 anos. Hoje, em 2026, é de 79,9. Minha mãe me teve aos 30 e já passou daquela expectativa que existia quando eu cheguei ao mundo. E, no que depender da saúde dela e das conquistas femininas, vai passar bastante mais – e como filha e mulher, eu digo: ainda bem!
A conta bagunça um pouco uma ideia de idade que a gente carrega sem perceber. Aos 41 anos, considerando a expectativa de vida atual, posso estar mais ou menos na metade da minha vida. Isso levando em conta que a expectativa de vida é a média de mulheres brasileiras, que inclui algumas com a vida infinitamente mais difícil e vulnerabilizada do que a minha.
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Vira e mexe, conversando com minhas amigas, percebo que uma das coisas mais legais de ter passado dos 40 é justamente descobrir que ninguém chegou aqui com o manual que tentavam fazer a gente seguir. Continuamos com dúvidas sobre trabalho, amor, dinheiro, sexo, desejo, família, onde morar, com quem dividir a vida, se queremos dividir a vida, se ainda dá tempo de começar uma coisa completamente diferente. Graças a Deus (e, ao mesmo tempo, ZERO graças a ele, porque também podemos ser ateias). Cruz credo chegar aos 40 com todas as perguntas respondidas.
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Veja o que já enviamosA diferença está no fato de que agora algumas perguntas vêm acompanhadas de uma liberdade “nova”, ou inédita para outras gerações: já sabemos que podemos frustrar certas expectativas sociais se elas não forem também as nossas. Casamento, filhos, carreira X ou Y, tudo isso pode ser maravilhoso quando está no campo do desejo, e não da obrigação.


Novamente, sei também de que lugar digo tudo isso. Passar dos 40 sendo branca, de classe média, heterossexual, sem filhos, com estudo, trabalho e autonomia financeira me oferece possibilidades que outras mulheres não encontram com a mesma facilidade. Escolha é privilégio. E reconhecer privilégio só faz sentido quando ele produz responsabilidade política. Eu não quero apenas comemorar as portas pelas quais consegui passar; quero viver num mundo em que seja cada vez menos excepcional uma mulher poder escolher a própria vida. A medida de uma conquista coletiva não pode ser o quanto algumas de nós avançaram, mas quantas outras conseguimos levar junto.
Até porque envelhecer, com erros e acertos, não nos retira da vida pública. Neste ano eleitoral, somos 83,9 milhões de mulheres aptas a votar no Brasil, 52,84% do eleitorado, e seguimos dramaticamente sub-representadas nos espaços em que as decisões são tomadas. Lamentavelmente, somos maioria decidindo quem governa um país em que continuamos minoria governando. Por isso é tão fundamental que a gente eleja mulheres que estejam alinhadas com nossos direitos, trabalhando para que as escolhas sejam um direito de todas as mulheres.
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