ODS 1
Ensino médio técnico: um motor de mobilidade social no Brasil




Treinamento de jovens do SENAI em Jacarepaguá; formação técnica oferece habilidades para entrar no mercado de trabalho (Foto: Renata Mello/SENAI)
Dados mostram o impacto de formação técnica em melhorias de condições de renda e vida. Modelo demanda também políticas de assistência estudantil
Leandro Bento é atualmente técnico em elétrica da Petrobras. Sua caminhada para conquistar esse cargo e alcançar a estabilidade financeira, no entanto, começou nos anos 90, quando estava prestes a ingressar no ensino médio. Sua formação foi integrada ao ensino técnico. Assim como milhares de jovens da época, estudou em uma instituição da rede federal de educação tecnológica, criada para atender às demandas de qualificação profissional do setor produtivo brasileiro.
Natural de Campos dos Goytacazes, no interior do Rio de Janeiro, Leandro cresceu em uma família com mais três irmãos. A perda precoce do pai fez com que precisasse ingressar no mercado de trabalho ainda na adolescência. Aos 14 anos, teve a carteira de trabalho assinada pela primeira vez.


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Veja o que já enviamosO interesse pelo setor industrial surgiu nesse período. Enquanto conciliava o ensino fundamental com o trabalho em meio período, teve contato com ex-alunos que retornavam ao SENAI para compartilhar suas trajetórias profissionais. As histórias de sucesso despertaram nele a expectativa de um futuro diferente. “Na verdade, eu nem sabia o que era o SENAI, nem o que realmente iria fazer ali, mas fui porque era um caminho, uma porta que se abriu. Lá eu me deparei com a realidade da vida, tive contato com trabalhadores já formados que obtiveram sucesso e aquilo me motivou a estudar cada vez mais“, lembra.
Dos 14 aos 19 anos, sua rotina foi dedicada aos estudos. “Fiquei no SENAI por três anos e considero que esse período foi muito importante para que eu conseguisse me preparar, ingressar na escola técnica e, futuramente, viver com mais conforto”. A trajetória de Leandro, no entanto, não é um caso isolado. Ela representa um ponto de partida para compreender o papel social que a formação técnica desempenhou — e continua desempenhando — na vida de milhares de jovens brasileiros.


Caminhos do ensino técnico
Na década de 1990, o atual Instituto Federal Fluminense (IFF) era a Escola Técnica Federal de Campos (ETFC). Naquele contexto, a instituição representava uma das poucas possibilidades de formação técnica de qualidade para jovens de baixa renda da região.
O município ainda não contava com cursos superiores públicos ou particulares na área de engenharia, e mudar-se para a capital era inviável para muitas famílias. “Em 1995, quando concluí o curso técnico em elétrica, não tive a oportunidade de fazer a graduação na área, porque precisaria ir para a capital do estado, e isso seria muito custoso financeiramente”, recorda Leandro.
Hoje, o cenário é diferente. O Instituto Federal Fluminense oferece diversos cursos de engenharia e incentiva estudantes a prosseguirem na formação após o ensino médio técnico. Esse foi o caminho seguido por Diogo Silvano, 23 anos. O estudante de Engenharia Elétrica cursou o ensino médio integrado em Eletrotécnica na instituição e, após concluir essa etapa, permaneceu no IFF para cursar a graduação. “A formação técnica me ajudou a ter uma base muito boa para as disciplinas específicas do curso. Em relação à carga horária, também deu uma preparada, porque ambas são puxadas”, afirma.
Gabriel da Conceição, 22 anos, seguiu uma trajetória semelhante. Também cursou o ensino médio técnico em Eletrotécnica e, posteriormente, ingressou na graduação em Engenharia Elétrica. Apesar de reconhecer que a formação lhe proporcionou uma base sólida para o curso superior, o estudante sentiu falta de uma preparação mais prática.
“O curso técnico no IFF é muito teórico. Se você quer prestar concurso, eu indico. Mas, para quem pretende trabalhar no mercado privado, acho mais interessante buscar o SENAI”. Apesar das críticas, Gabriel afirma que boa parte da experiência prática foi adquirida durante os estágios e em trabalhos como freelancer. “Todos os conhecimentos técnicos que adquiri na prática eu aprendi nos estágios e nos trabalhos que fiz fora do IFF”. Atualmente, ele trabalha como técnico em uma empresa multinacional, onde iniciou a carreira como estagiário.
Políticas e dados
A importância da formação técnica também é reconhecida por políticas públicas. A Política Nacional de Educação Profissional e Tecnológica (PNEPT), criada em consonância com o Plano Nacional de Educação (PNE), busca fortalecer a educação profissional e tecnológica, atender às demandas do mundo do trabalho e estimular a inovação e a pesquisa em diferentes áreas do conhecimento.
Os resultados desse investimento aparecem nos indicadores. Dados de uma pesquisa realizada pelo SENAI com 211 mil alunos entre 2023 e 2024 mostram que 85,6% dos concluintes de cursos técnicos estão empregados. Segundo levantamento do IBOPE, a inserção no mercado costuma ocorrer em até um ano após a conclusão da formação. Apesar desse cenário positivo, a procura pelo ensino técnico no Brasil ainda é baixa.
Enquanto cerca de um em cada quatro brasileiros demonstra interesse por essa modalidade, em países mais desenvolvidos aproximadamente 35% dos jovens optam pela educação profissional, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No Brasil, considerando o ensino médio integrado e os cursos técnicos subsequentes, esse índice é de apenas 6%.
Além da empregabilidade, a remuneração também ajuda a explicar o impacto da formação técnica. Segundo apuração do Estadão, baseada em mais de 16 estudos, concluir um curso técnico público pode representar um aumento de até 32% na remuneração ao longo da carreira.
Leandro percebeu essa diferença logo nos primeiros anos de atuação profissional. “A grande diferença para quem fez o ensino médio técnico está na empregabilidade e no salário. Tenho muitos colegas que terminaram apenas o ensino médio regular e acabaram entrando no mercado de trabalho local, como vendedores, por exemplo. Isso impactou a qualidade de vida deles e os salários até hoje. Muitos voltaram ao ensino técnico anos depois para tentar melhores oportunidades”, observa.


Ingresso no mercado de trabalho
Para o professor José Augusto dos Santos, 51 anos, docente da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e do ensino regular da prefeitura de Duque de Caxias, a formação técnica integrada ao ensino médio representa um diferencial para quem ingressa no mercado de trabalho. “Com a formação técnica, você está preparado não só para entrar no mercado,
mas para ingressar já com qualificação e trabalhando na sua área profissional”, afirma.
Atualmente, o professor que leciona a disciplina de Metodologia de Pesquisa para alunos da graduação, observa diferenças entre estudantes que cursaram apenas o ensino médio regular e aqueles que passaram pela formação técnica. “A diferença é muito grande. O aluno da educação básica vê apenas as disciplinas tradicionais do ensino médio. Já o aluno que tem uma formação técnica amplia seu nível de conhecimento, e isso é perceptível”, aponta José Augusto.
O docente da UFRRJ ressalta que a formação precisa ir além da teoria. “É fundamental estudar a teoria em sala de aula e desenvolver esse conhecimento em atividades práticas”.
Giovanna Benevenuto, 17 anos, é um exemplo de como essa integração pode abrir oportunidades ainda durante o ensino médio. Estudante do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ), Campus Duque de Caxias, ela atua como estagiária no Instituto de Macromoléculas Professora Eloisa Mano (IMA), da UFRJ. “Faço parte de projetos de iniciação científica e a conquista dessa vaga está diretamente relacionada ao fato de cursar o ensino médio técnico. Para trabalhar nessa área ainda no ensino médio, é preciso ter conhecimentos aprofundados em química, principalmente sobre polímeros, algo que o ensino médio regular não oferece”, conta a estudante.
Para estudantes de baixa renda, entretanto, permanecer na escola também depende da assistência estudantil. Nesse aspecto, Giovanna aponta alguns desafios. Segundo ela, o IFRJ oferece passe escolar e o Auxílio Permanência (PAP), destinado a estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica. No entanto, os atrasos nos repasses fazem com que muitos alunos precisem custear despesas do próprio bolso. Ela também destaca que algumas unidades não possuem restaurante estudantil, obrigando os estudantes a arcar com os gastos com alimentação durante o período escolar.
No IFF Campos, o professor Thiago Eugênio, docente de Língua Portuguesa, afirma que a assistência estudantil é frequentemente apontada pelos próprios alunos como um dos diferenciais da instituição. “Eles costumam dizer que o IFF é quase uma mãe. Há café da manhã, almoço, lanche e jantar todos os dias, além de computadores, impressão, bolsas de diferentes modalidades e oportunidades de estágio”.
A trajetória do ensino técnico no Brasil ainda apresenta desafios. Se, na geração de Leandro, a principal barreira era o acesso à formação, para muitos estudantes de hoje o desafio está em permanecer na instituição e acompanhar as transformações constantes do mercado de trabalho.
Os relatos de Gabriel e Giovanna mostram que ainda existem questões relacionadas à integração entre teoria e prática e às políticas de permanência estudantil. Ao mesmo tempo, as histórias reunidas nesta reportagem revelam que, em diferentes gerações, o ensino técnico continua sendo um importante instrumento de mobilidade social, ampliando oportunidades de estudo, inserção profissional e melhoria das condições de vida.
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