ODS 1
No Russel, a orla revigorada de uma praia que não existe mais
Depois de receber bares variados, a Rua do Russel vai ganhar mais movimento com a ocupação residencial do antigo Hotel Glória
Em 1922, quando o Hotel Glória foi inaugurado no dia 15 de agosto (dia de Nossa Senhora da Glória), era o maior do país com seus 150 apartamento em 13 andares – o primeiro cinco estrelas da América Latina tinha, entre as suas atrações, a localização bem em frente ao mar, na Praia do Russel, àquela época já reduzida a uma mínima faixa de areia desde a primeira década do século 20, para a construção da Avenida Beira-Mar. Neste setembro de 2026, quando o Glória reabre como edifício residencial após quase duas décadas fechado, a orla da Praia do Russel está muito mais movimentada do que quando o hotel fechou as portas em 2008 – apesar da prainha de menos de um quilômetro de comprimento ter desaparecido completamente desde a década de 1960.
Leu essa? Na Glória, uma taberna que parece ter perdido a memória
A Praia do Russel, antes chamada de Pedro I, foi batizada assim na década de 1860 quando morava ali o engenheiro João Frederico Russel, filho de ingleses, proprietário da empresa vencedora da concessão para a construção do sistema de esgotamento sanitário do Rio. O dono da mansão na orla da praia conseguiu que a própria rua recebesse seu nome: até hoje a via de quase um quilômetro entre a Praça Nossa da Glória e a Travessa do Outeiro chama-se Rua do Russel.


Na antiga orla, entretanto, para ver o mar e um pouco de areia, é preciso subir no alto do antigo hotel ou do prédio da antiga sede de 12 andares das empresas Bloch: após a Avenida Beira-Mar, inaugurado em 1906, vieram seguidos aterros para a ampliação da avenida e, depois, para a construção das pistas da Avenida Infante Dom Henrique e do Parque Eduardo Gomes, toda uma área entre Botafogo e o Aeroporto Santos Dumont conhecida pelos cariocas apenas como Aterro do Flamengo. Nesse caminho, desapareceram pelo menos seis praias – inclusive a Praia do Russel.
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Veja o que já enviamosA construção do hotel, inaugurado em 1922, colocou a região no mapa nobre da cidade – a Glória ficava perto das sedes do Legislativo e do Judiciário, no Centro, e do Palácio do Catete, sede do Governo da República. Embaixadas estrangeiras também se instalaram na área, a própria Rua do Russel recebeu novos prédios ainda à beira-mar. O Hotel Glória, mesmo após a inauguração do Copacabana Palace, em agosto de 1923, continuou a receber presidentes e autoridades estrangeiros, artistas e celebridades.


A obra do aterro na década de 1960, quando também foi inaugurado o Edifício Manchete, com projeto de Oscar Niemeyer encomendado por Adolfo Bloch, adiou uma decadência da região, que acabaria vindo com a transferência da capital – e boa parte do governo – para Brasília e o deslocamento da área nobre do Rio de Janeiro para a Zona Sul e suas praias. Com o século 21, chegaram a falência da Manchete (TV e revistas) e o esvaziamento do prédio – em 2008, o Hotel Glória fechou as portas após a venda pela família Tapajós para o empresário Eike Batista, responsável por múltiplos empreendimentos e por uma falência envolvida em múltiplos escândalos.
O velho hotel demorou a ter novo destino até o anúncio, em 2022, de que iria virar um prédio residencial. Mas, nesta terceira década do século 21, antes mesmo dos novos moradores chegarem, a orla da desaparecida praia veio ganhando novos ares, com bares ocupando calçadas da Rua do Russel e as praças vizinhas, também criadas pelo aterro, e trazendo um novo movimento, acelerado ainda pela ocupação por escritórios e salas de co-working no Edifício Manchete.
Nesta parte final da orla do Russel já chegando no Flamengo, vizinhos ao prédio com projeto de Niemeyer, os bares Isca e Manchete dividem as atenções da clientela. O Isca é mais moderninho com seus pintxos, boa ideia espanhola para acompanhar a cerveja, e seus drinks; o Manchete segue uma linha mais básica e popular com seus pratos executivos. Na mesma linha, na orla da praia do Russel, o meu preferido é mesmo o Mistureba: bons e variados pratos cariocas, cerveja invariavelmente gelada, mesas na calçada na primeira parte da rua, meio dividida em duas pela elevação onde fica o imponente Hotel Glória.
Por aqui, também está, desde 2019, o Sushi Glória, evidentemente especializado em culinária japonesa. Em 2025, foi aberto o Deja Vú, bar de vinhos, que dividem o cardápio com pratos e sanduíches com uma pegada francesa – a clientela jovem ocupa a calçada e as mesas já alcançam a praça em frente nos dias de maior movimento.
Mas nada mais praieiro na orla do Russel do que o Labuta Mar, que espalha mesas na calçada e ocupa a praça também com cadeiras de praia. E ainda tem ostras, polvo, sardinha, croquete de siri, pastel de camarão e peixes em sabores e formatos variados – para tudo ficar mais praieiro. Para saudar a carioquice do Russel, o Labuta recebe, desde o ano passado, o Mar do Choro, conjunto de chorinho para embalar a praça nas terças-feiras.


A Rua do Russel ainda abriga prédios de interesse arquitetônico: o Edifício Lage – inaugurado em 1925 pelo milionário Henrique Lage, também proprietário da mansão e do parque Lage – tem estilo eclético, com fachada marcada por colunatas; o Edifício Milton, de 1929, de fachada tombada como o Lage, tem estilo art-decó; o Itacolomy, no mesmo estilo, foi inaugurado em 1937 com 21 apartamentos; o Ipu, também art-déco, foi construído em 1939 para sediar o Hotel Pax. E tem outro patrimônio tombado: o Monumento ao Centenário da Abertura dos Portos, inaugurado em 1908, bem em frente ao antigo hotel.
Esse movimento na orla da praia que não existe mais tende a aumentar com a chegada dos moradores dos mais de 250 apartamentos do Glória Residencial, 88 no histórico prédio do hotel, 68 no antigo anexo e mais 110 numa área nova, integrada ao conjunto arquitetônico original – projeto de Joseph Gire, o mesmo do Copacabana Palace. Na orla do Russel, só fica difícil dar um mergulho: para chegar à Prainha da Glória, outro recente xodó do bairro, é preciso andar quase 500 metros e atravessar as pistas do aterro do Flamengo.


















































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