(Juan Melo*) – Estamos nos aproximando do período mais crítico do El Niño, que pode ser um dos mais intensos já registrados nos últimos 70 anos. Diariamente o noticiário anuncia os desastres que estão por vir. Mas, quando o alerta da Defesa Civil tocar, quem vai conseguir voltar para casa com segurança?
Assim como vimos durante a pandemia de Covid-19, quando o transporte coletivo precisou ser reconhecido como serviço essencial para quem não tinha outra opção de deslocamento, esse entendimento também precisa prevalecer diante desse e de outros eventos climáticos extremos.
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Já testemunhamos as consequências dos desastres climáticos sobre os sistemas de transportes. São ônibus submersos ou danificados, linhas interrompidas ou desviadas, estações fechadas, pontos de ônibus alagados, trens e metrôs paralisados, árvores caídas, entre tantos outros transtornos. Em muitos casos, sistemas de mobilidade inteiros que deixam de funcionar.
Para quem depende de dois ou três ônibus diariamente, uma interrupção no sistema resulta em passar horas a mais no trânsito, não conseguir buscar uma criança na escola, faltar ao trabalho, ficar sem acesso a outros serviços essenciais, ou não conseguir chegar a um abrigo. O mesmo vale para quem precisa caminhar até uma estação ou ponto de ônibus. Uma calçada sem infraestrutura, um trecho alagado, a ausência de sombra ou uma estação sem proteção adequada não representam apenas desconforto. Em certas condições, podem se tornar uma barreira concreta ao direito de ir e vir.
Já para quem tem carro, pode trabalhar remotamente ou tem recursos para pagar um transporte por aplicativo, essa mesma interrupção pode significar apenas uma mudança de estratégia no deslocamento diário.
O grande problema é que esses impactos não atingem cidades e populações de forma neutra e igual. Estamos falando de territórios já marcados por desigualdades históricas de infraestrutura e acesso a serviços, nos quais pessoas pretas e pobres são as mais prejudicadas, e os eventos extremos atingirão essas regiões com mais força. Ou seja, a crise climática não deixa as cidades vulneráveis, mas sim aprofunda as desigualdades já existentes. Entender isso, mostra que os impactos da crise climática não dependem apenas da intensidade da chuva ou do calor, mas também das condições sociais, econômicas, urbanas e ambientais dos territórios e da capacidade das cidades e instituições de se adaptar.
O Índice de Vulnerabilidade às Mudanças Climáticas na Mobilidade Urbana, desenvolvido pelo ITDP Brasil, ajuda a mapear essas desigualdades. O estudo analisa a sensibilidade e a capacidade adaptativa da mobilidade urbana em 320 cidades com mais de 100 mil habitantes. Os resultados escancaram uma preocupante realidade: mais de 17 milhões de pessoas, em 80 municípios, são dependentes de sistemas de transporte altamente vulneráveis. De modo geral, mais da metade das cidades do Norte e do Nordeste estão entre as mais vulneráveis do país. Olhando para os dados de maneira mais afunilada, os estados do Rio de Janeiro, Pernambuco, Pará, Minas Gerais, Bahia e Maranhão concentram, sozinhos, 65% desses municípios.
O mesmo padrão acontece nas regiões metropolitanas do país. Os municípios das áreas centrais tendem a apresentar maior capacidade de adaptação, enquanto as periferias, áreas isoladas e mais distantes do centro com maior concentração de população negra e pobre, enfrentam maiores níveis de sensibilidade e risco climático.
Isso acontece pela combinação da baixa densidade urbana, junto ao alto índice de populações vulnerabilizadas e condições precárias de deslocamento desses territórios. O que significa dizer que, diante de eventos extremos, essas populações estão mais expostas aos impactos e possuem menos recursos e alternativas para se adaptar ou continuar se deslocando.
Para enfrentar essas vulnerabilidades é preciso avançar em medidas de adaptação climática e resiliência dos sistemas de transporte. E o planejamento precisa ser articulado nas diferentes escalas, do Governo Federal, passando pelas regiões metropolitanas, estados e cidades.
Os planos de mobilidade precisam identificar os riscos em cada território e adaptar o planejamento urbano e a rede de transporte para assegurar maior resiliência. Para isso, é fundamental garantir recursos e ampliar o financiamento para projetos que olhem para a cidade de forma integrada, com medidas específicas que tornem a infraestrutura de transporte preparada para os diferentes desastres climáticos por vir. Junto a isso, a comunicação com a população deve ser eficaz e responsiva, com diretrizes específicas sobre como agir e se proteger em caso de emergência, quais serviços serão priorizados, e quais rotas foram reorganizadas para garantir continuidade dos serviços.
Essas medidas não são para que o sistema continue operando a qualquer custo, colocando passageiros e trabalhadores em risco, mas para garantir que ele possa responder aos eventos climáticos com segurança, com poucas interrupções, oferecendo alternativas seguras e recuperando o serviço o mais rápido possível para aqueles que não tem um plano b para dar conta da vida cotidiana.
O El Niño não é e nem será um caso isolado. Os eventos climáticos estão cada vez mais intenso e recorrentes. Precisamos agir imediatamente. Quando o próximo alerta da Defesa Civil tocar, a pergunta não deveria ser se vamos conseguir voltar para casa, mas como.
O transporte público não é apenas parte da rotina das cidades. Em uma crise, ele também é parte da resposta. Preparar os sistemas de mobilidade para resistir, adaptar-se e se recuperar é garantir o direito de ir e vir de milhões de pessoas diante de eventos extremos.
*Juan Melo é jornalista e profissional de comunicação estratégica, com mais de sete anos de experiência no terceiro setor com atuação em comunicação de impacto, advocacy, políticas públicas e mobilidade urbana sustentável. Atua no ITDP Brasil como Coordenador de Comunicação.
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