De teleférico até o Morro da Providência, onde nasceu a ‘favela’

Transporte facilita a vida de moradores do morro no Centro do Rio, que tornou favela sinônimo de comunidades com moradias precárias

Por Oscar Valporto | ODS 11

Publicado em 21/07/2026 - 09h13 (Atualizado há 3 horas)

Tempo de leitura: 10 min

Desde que este #RioéRua viajou, em janeiro, pela trajetória de Heitor dos Prazeres, enredo da Vila Isabel para o Carnaval 2026, que o Morro da Providência entrou na agenda de visitas da coluna. Sambista, Heitor dos Prazeres também era pintor e, estabelecido com seu ateliê nas cercanias da Praça Onze, tornou cenário de seus quadros o vizinho Morro da Providência, onde nasceu o termo Favela há mais de um século. O morro entrou na agenda também pela reabertura, perto do Carnaval 2025, do Teleférico da Providência, um simpático meio de transporte para levar o cidadão da área da Central do Brasil ou da Gamboa até o alto da favela.

As gôndolas do Teleférico da Providência com o Centro do Rio: viagem ao morro onde o termo favela nasceu (Foto: Oscar Valporto)
As gôndolas do Teleférico da Providência com o Centro do Rio: viagem ao morro onde o termo favela nasceu (Foto: Oscar Valporto)

Retorno para lembrar que, por conta da história do Morro da Providência, o Brasil inteiro passou a chamar de favela o que durante décadas o IBGE costumava tratar como “aglomerados urbanos subnormais”, mas até o órgão oficial responsável pelo Censo voltou a chamar de favela essas comunidades urbanas estabelecidas em condições quase sempre precárias. E retomo: o teleférico foi inaugurado em 2014 quando este carioca morava na Bahia, mas o serviço foi interrompido em 2017. pouco depois da minha volta; não deu tempo de conhecer.

Mas me senti praticamente obrigado a fazer essa visita quando o Museu de Arte do Rio (MAR) inaugurou a exposição “Tião: um fotógrafo da Providência”, dedicada ao trabalho de Sebastião Pires de Oliveira, morador da zona portuária do Rio de Janeiro, que, durante mais de duas décadas, retratou, geralmente por encomenda, moradores do Morro da Providência em celebrações, em cenas do cotidiano, com a paisagem da cidade. Tião fazia seu ponto de trabalho na antiga Praça América Brum onde foi instalada a estação do teleférico, que abriga parte uma parte da exposição.

Fotos da exposição Tião, um fotógrafo da Providência, no Museu de Arte do Rio: retratos de moradores emoldurados pela cidade (Fotos: Sebastião Pires de Oliveira - Reprodução: Oscar Valporto)
Fotos da exposição Tião, um fotógrafo da Providência, no Museu de Arte do Rio: retratos de moradores emoldurados pela cidade (Fotos: Sebastião Pires de Oliveira – Reprodução: Oscar Valporto)

Os labirintos da memória me impediram de localizar a última vez que havia subido o morro vizinho à Central do Brasil, bem no coração do Rio – talvez 40 anos atrás, ainda repórter, quando o Oratório da Providência foi tombado pela Prefeitura do Rio. O pequeno templo com uma grande cruz no teto, conhecido como Capela das Almas, é possivelmente o marco mais antigo do morro ainda de pé: foi inaugurado no dia 1 de janeiro de 1901, o primeiro dia do século 20, exatamente para celebrar a virada do século. Teve missa e bênção solene do cardeal Joaquim Arcoverde, arcebispo do Rio, no alto do morro.

Na inauguração do oratório, o Morro da Providência já estava ocupado, há décadas, por algumas dezenas de famílias, mas apenas recentemente havia começado a ser chamado de Morro da Favela, após sua população ter sido engrossado por uma legião de soldados combatentes da campanha militar para destruir a comunidade camponesa de Canudos, liderada por Antônio Conselheiro, no interior da Bahia. O governo havia prometido caas aos soldados envolvidos nas quatro campanhas para acabar com Canudos; combatentes acamparam em torno do antigo quartel-general do Exército – onde fica o atual Palácio Duque de Caxias, que sediou o ministério até a mudança para Brasília – à espera, em vão, que a promessa fosse cumprida.

Receba as colunas de Oscar Valporto no seu e-mail

Veja o que já enviamos
As gôndolas do Teleférico da Providência na ligação com a Gamboa e a Cidade do Samba: vista da Baía de Guanabara (Foto: Oscar Valporto)
As gôndolas do Teleférico da Providência na ligação com a Gamboa e a Cidade do Samba: vista da Baía de Guanabara (Foto: Oscar Valporto)

Foram obrigados a levantar acampamento e, com a pequena indenização paga pelo governo, a maioria subiu o vizinho Morro da Providência, onde construíram barracos para morar. E passaram a chamar o lugar de Morro da Favela, nome de um morro perto do Arraial de Canudos, assim batizado por ser coberto um arbusto rasteiro da espécie ‘Cnidoscolus quercifolius’, conhecido no sertão baiano como favela.

O nome “Morro da Favela” pegou: o Grupo de Pixinguinha, comandado pelo maestro, gravou um maxixe com esse nome, em 1917; a pintora Tarsila do Amaral produziu o quadro “Morro da Favela”, em 1926; o cineasta Humberto Mauro filmou o musical “Favela dos meus amores”, usando o já famoso morro como cenário. Desde a década de 1920, as comunidades precárias nos morros do Rio, que começava a crescer, passaram a ser chamadas de favela – designação que ganhou dimensão nacional e até internacional. E o Morro da Providência, com a generalização da “favela”, voltou a ser chamado de Morro da Providência mesmo ainda em meados do século passado.

Neste século 21, a subida pelo teleférico – da Estação Central do Brasil até a Estação Américo Brum – leva menos de três minutos. Mas dá para ter a vista do Centro do Rio, com o relógio da Central em primeiro plano; esticando o olhar, dá para ver até o Cristo Redentor. A Praça Américo Brum acabou com a construção da estação do teleférico, mas não com o mirante com vista para a cidade. Não por acaso era ali na praça que o fotógrafo Tião fazia ponto: muitas fotos têm seus personagens, moradores da Providência, emoldurados pelo Centro, de um lado, e pela Baía de Guanabara, do outro.

Casas na encosta do Morro da Providência: mais de um século atrás, era Morro da Favela, que virou sinônimo de comunidade com habitações precárias (Foto: Oscar Valporto)
Casas na encosta do Morro da Providência: mais de um século atrás, era Morro da Favela, que virou sinônimo de comunidade com habitações precárias (Foto: Oscar Valporto)

As fotos de Sebastião Pires de Oliveira, um mecânico que aprendeu fotografia por correspondência, registram – além das famílias emolduradas pela cidade – batizados, casamentos, festas religiosas, rodas de samba e outros eventos sociais do Morro da Providência (a exposição vai até novembro no MAR, mas o segmento na estação do teleférico fica só até 16 de agosto). Provavelmente quando Tião fez as fotos em exibição, entre 1960 e 1980, na Providência, como em outras favelas, valem os versos do mestre Paulo Cesar Pinheiro – “a vida por lá já foi mais bela já foi bem melhor de se morar”.

Ainda assim, vale tranquilamente o passeio de teleférico até o alto do morro: era período de Copa do Mundo, antes da eliminação do Brasil, quando circulei pelas imediações da estação, vi o pessoal ainda arrumando decoração, comi sardinha frita acompanhada de cerveja gelada no Bar da Jura, com vista para a Baía de Guanabara, as ilhas, a ponte, os barcos, a roda-gigante, os armazéns do porto.

Moradores decoram rua do Morro da Providência: deslocamentos facilitados pelo teleférico (Foto: Oscar Valporto)
Moradores decoram rua do Morro da Providência: deslocamentos facilitados pelo teleférico (Foto: Oscar Valporto)

Mais três minutos descendo pelo teleférico e chega-se na Gamboa: a operadora informa que o teleférico pode transportar mil pessoas por hora em cada direção (trajeto total de 721 metros); as 16 gôndolas comportam até oito passageiros cada uma. Entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026, mais de 2,5 milhões de passageiros passaram pelo teleférico, uma média em torno de oito mil por dia – os horários de pico são os mesmos do resto da cidade, quando os cinco mil moradores da Providência estão saindo de casa para o trabalho e depois voltando.

No meio desta tarde de junho, as gôndolas sobem e descem com pouca gente. Subi pela Central, desci pela Gamboa: desembarco na estação vizinha à Cidade do Samba, que abriga os barracões onde as escolas já começam a se preparar para os desfiles de 2027. E, assim, essa crônica que começou no Carnaval acaba quase no mesmo lugar.

Apoie o #Colabora!

Faça parte da campanha “10 anos, 101 apoiadores” e ajude a fortalecer nosso jornalismo independente e de qualidade. Com apenas R$ 20 por mês (menos de R$ 0,70 por dia), você já contribui para manter histórias e reportagens que fazem a diferença, como esta.

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

Comentários

Compartilhe: