ODS 1
‘O vento que traz o veneno’




Após anos de exposição a deriva, parte do vinhedo de Cláudio Teixeira entrou em declínio e precisou ser replantada (Foto: Jessica Mocellin)
Deriva do agrotóxico 2,4-D ameaça vinhedos no interior do Rio Grande do Sul. Produtores cobram responsabilização e justiça
Após décadas de dedicação à agricultura, o técnico agrícola Cláudio Teixeira decidiu investir as economias de uma vida inteira em um projeto ambicioso: transformar sete hectares em um vinhedo voltado à produção de vinhos finos.
Para dar vida ao sonho, em 2010, ele importou mudas de videiras da Itália, instalou sistemas de irrigação e estruturou a propriedade com palanques de concreto, em Itaara, cidade na Região Central do Rio Grande do Sul. Somente na compra das plantas, o investimento ultrapassou os R$ 300 mil.
Leu essa? Emergência química: pulverização de agrotóxicos bate recorde e ameaça comunidades rurais no Maranhão
A primeira safra, em 2014, confirmou que a aposta havia dado certo. As uvas alcançaram níveis elevados de concentração de açúcares, capazes de produzir vinhos de alta qualidade. As videiras, no entanto, ainda estavam longe do auge. Entre sete e dez anos após o plantio, a cultura costuma atingir sua maturidade produtiva e entregar frutos de melhor qualidade. Tudo indicava que os anos seguintes seriam os mais promissores do vinhedo.
Mas, em 2015, as plantas começaram a definhar. Sem entender o que estava acontecendo, Cláudio procurou ajuda de um agrônomo, que identificou que as videiras haviam sido atingidas pela deriva do agrotóxico 2,4-D. O fenômeno ocorre quando o produto aplicado em uma lavoura é carregado pelo vento ou se volatiliza após a pulverização, alcançando áreas vizinhas e culturas sensíveis, como videiras, macieiras, oliveiras entre outras, que não deveriam receber o agrotóxico.
Receba um resumo com nossas notícias e colunas. É de graça!
Veja o que já enviamosNaquele ano, um vizinho havia utilizado o herbicida para controlar plantas daninhas antes do plantio de milho, os efeitos logo apareceram. Os cachos, que estavam no início da formação, passaram a murchar antes de completar o desenvolvimento. “Quando começou a formar o grão, ele já murchava. Escapavam uns dez grãozinhos por cacho e o resto caía. Naquele ano eu não colhi um grão”, lembra. A lembrança da perda ainda o emociona. “Me amoleceu as pernas.”
Antes dos danos aparecerem nas videiras, o 2,4-D já havia invadido a rotina da família. Cláudio lembra que, sempre após as aplicações feitas na lavoura vizinha, um cheiro forte tomava conta da propriedade.
Durante o dia, o odor era suportável, mas, à noite, quando a temperatura caía e o produto se condensava próximo ao solo, permanecer dentro de casa se tornava quase impossível. “Era pior que cheiro de vazamento de gás. Aquele ali tu não aguentava”, recorda. O produtor conta que precisou passar noites fora de casa até que uma chuva mais intensa dissipasse o cheiro. “Enquanto não deu uma chuva boa, não largou o cheiro”, diz.


Impacto do agrotóxico
O 2,4-D é um dos agrotóxicos mais antigos ainda em uso na agricultura. Desenvolvido em 1941, o herbicida é utilizado principalmente para controlar plantas daninhas de folhas largas em lavouras como soja, milho, trigo, arroz, cana-de-açúcar, pastagens e cereais. Seu mecanismo de ação imita os hormônios naturais responsáveis pelo crescimento das plantas, provocando um desenvolvimento descontrolado que leva à morte das espécies sensíveis.
O agrotóxico ganhou notoriedade por integrar uma das formulações do chamado Agente Laranja, utilizado pelos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã. A mistura combinava o 2,4-D e outro herbicida, o 2,4,5-T, para desfolhar áreas de floresta e expor rotas utilizadas por guerrilheiros entre Vietnã, Laos e Camboja. Apesar dessa associação histórica, o produto comercializado atualmente é diferente daquela formulação, que também continha compostos altamente tóxicos, como a dioxina TCDD.
Desenvolvido a mais de oito décadas, o uso do agrotóxico tem se intensificado no Rio Grande do Sul. Em levantamento realizado pela Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação do RS (Seapi), entre 2018 e 2021, foram registrados 315 casos de deriva de herbicidas à base de 2,4-D. Somente em 2021, foram 72 propriedades atingidas, distribuídas por 26 municípios. O relatório também aponta que, dos 26 municípios com registros em 2021, 11 ainda não possuíam regras específicas para disciplinar o uso de herbicidas hormonais durante aquela safra.
A gente só está lutando pelo nosso direito de poder produzir sem ter a deriva do vizinho. Nenhuma pesquisa conseguiu mostrar uma forma de convivência. Onde a deriva chega, ela termina com a fruticultura
Na propriedade de Cláudio, o impacto deixou de ser apenas uma estimativa. O produtor calcula que perdeu mais de R$ 1 milhão entre investimentos, produção e plantas que precisaram ser substituídas. O vinhedo que imaginava deixar para as próximas gerações nunca chegou à maturidade plena.
Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) concluiu que a deriva do herbicida 2,4-D deixou de ser um problema restrito às propriedades rurais e passou a afetar o desenvolvimento econômico de regiões produtoras de frutas do estado.
De acordo com o pesquisador, Gustavo Pinto da Silva, professor do Programa de Pós Graduação em Extensão Rural, ”diferente das culturas anuais, como soja e milho, a implantação de um pomar ou de um vinhedo exige investimentos elevados e anos de espera até o início da produção”.
Quando essas plantas são atingidas sucessivamente pela deriva do herbicida, os prejuízos se acumulam ao longo do tempo, comprometendo a produtividade e, em muitos casos, levando à morte das plantas. “A deriva interrompe investimentos por causa do cenário de insegurança. Ninguém quer plantar para depois não colher”, afirma.
O pesquisador chama atenção para um efeito menos visível, o enfraquecimento da diversidade agrícola. Quando diferentes cadeias produtivas convivem, os municípios conseguem distribuir melhor os riscos climáticos e econômicos. Com cada deriva, a fruticultura vai sendo inviabilizada e o efeito ultrapassa o limite da propriedade, diminuindo a circulação de renda, a demanda por trabalho, enfraquecendo pequenas agroindústrias e também o turismo rural”, afirma.


O fim de uma tradição
Para a engenheira agrônoma Aline de Oliveira Fogaça, de 45 anos, a vitivinicultura sempre fez parte da história da família. Filha e neta de agricultores, ela cresceu entre os parreirais da propriedade em Itaara, onde a produção de uvas e vinhos artesanais atravessa gerações.
Nos últimos anos, a família passou a investir também no turismo rural, recebendo visitantes para degustação e experiências ligadas à produção de vinhos, apostando na valorização da agricultura familiar e no potencial turístico da região.
O trabalho de décadas rendeu reconhecimento nacional. Em 2023, a Vinícola Velho Amâncio, da qual Aline é enóloga, teve o vinho Terras Baixas Malbec Safra 2021 eleito o Melhor Malbec do Brasil no concurso Grande Prova de Vinhos do Brasil, uma das principais premiações do setor. No mesmo concurso, outros dois rótulos da vinícola receberam medalha de ouro, consolidando a qualidade da produção desenvolvida em Itaara.
O projeto, no entanto, começou a ser ameaçado pelos sucessivos episódios de deriva do agrotóxico 2,4-D. As primeiras alterações nas videiras surgiram por volta de 2019, quando folhas e brotações passaram a apresentar deformações características da intoxicação pelo herbicida.
No início, a família acreditava que se tratava de um problema isolado. Com o passar das safras, porém, os danos passaram a se repetir. “A gente sempre achou que aqui dentro ia estar protegido”, lembra Aline. “A lavoura de soja mais próxima fica a cerca de 17 quilômetros. O problema não é um produtor. É a quantidade de produtores que tem em volta. Cada um aplica um pouquinho. O dia que o vento desce aqui, ele varre tudo.”
Na última safra, a situação se tornou insustentável. Segundo a produtora, foram registrados pelo menos quatro episódios de deriva durante o desenvolvimento das videiras. “Eu comecei a ficar especialista em detectar deriva. Vinha uma onda, enrolava toda a brotação. Depois a planta voltava a crescer. Aí vinha outra onda e enrolava tudo de novo”, conta. Diante da repetição dos prejuízos, a família decidiu interromper o cultivo comercial de uvas para a produção de vinhos. “Chegamos à conclusão de que é totalmente inviável economicamente”.
Hoje, o vinhedo responsável pelo Malbec eleito o melhor do Brasil caminha para o fim. As videiras estão sendo retiradas gradualmente após anos de declínio causado pela deriva do agrotóxico 2,4-D. Após sucessivos episódios de deriva, as plantas foram perdidas e a família decidiu abandonar o cultivo de uvas na propriedade. Para manter a produção dos vinhos, a Vinícola Velho Amâncio passou a adquirir e produzir suas uvas em Bagé na região da Campanha, encerrando uma tradição construída ao longo de décadas na propriedade da Região Central do estado.


O longo caminho até a Justiça
Conviver por anos com o enfraquecimento do vinhedo fez Aline concluir que a solução não viria de forma individual. Em 2025, ela uniu produtores de uva, oliveiras, nogueiras e outras frutíferas para criar a Aliança pela Fruticultura Gaúcha, movimento que cobra medidas para conter a deriva do 2,4-D e de outros herbicidas hormonais. “A gente só está lutando pelo nosso direito de poder produzir sem ter a deriva do vizinho. Nenhuma pesquisa conseguiu mostrar uma forma de convivência. Onde a deriva chega, ela termina com a fruticultura.”, afirma.
A mobilização dos produtores também escancara outro desafio, responsabilizar quem causa os prejuízos. Identificar a presença do herbicida nas lavouras e transformar esses danos em indenizações na Justiça ainda é uma tarefa complexa.
Segundo a advogada Francieli Izolani, especialista em Direito Ambiental, o principal entrave é comprovar o chamado nexo causal, a relação direta entre a aplicação do 2,4-D e os prejuízos sofridos pelo produtor. Como a deriva pode percorrer quilômetros carregada pelo vento, identificar com precisão a origem da contaminação é um dos maiores obstáculos enfrentados pelas vítimas.
A especialista explica que, mesmo quando análises confirmam a presença do herbicida nas plantas, a responsabilização do causador nem sempre é possível. Por isso, orienta que os produtores registrem imediatamente os danos, solicitem laudos técnicos e comuniquem o caso aos órgãos de fiscalização.
Franciele, acredita que o enfrentamento do problema passa menos pela criação de novas leis e sim pelo fortalecimento da fiscalização. Adoção de boas práticas agrícolas, ampliação da assistência técnica e acompanhamento das aplicações de herbicidas são medidas que, segundo ela, podem reduzir novos episódios de deriva.
Em junho de 2026, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul confirmou a proibição do uso do 2,4-D na região da Campanha e determinou a criação de uma faixa de exclusão de 50 metros entre áreas de aplicação de pomares e vinhedos em todo o estado. A decisão atende, em parte, a uma ação movida por associações de produtores que alegam prejuízos causados pela deriva do agrotóxico.
Para Aline essa ação representa um marco por reconhecer oficialmente um problema denunciado pelos produtores há anos. “Para a Aliança, a decisão é muito importante porque reconhece e valida um problema que os produtores de culturas sensíveis vêm denunciando há anos. Ela confirma que os danos causados pela deriva do 2,4-D são reais e que as medidas atuais não têm sido suficientes”, afirma.
Apesar de considerar a decisão um avanço, Aline avalia que ela ainda é limitada por abranger apenas a região da Campanha. Segundo a engenheira agrônoma, produtores da Região Central, de Jaguari e de outras áreas do Rio Grande do Sul também convivem com episódios recorrentes de deriva. “Entendemos que essa decisão pode servir de referência para que medidas efetivas de proteção sejam discutidas e adotadas em outras regiões do Estado”, defende.
Em agosto, a Instrução Normativa 8/2026 determinou zonas de exclusão do uso do agrotóxico 2,4-D em três municípios gaúchos. Em Dom Pedrito e Santana do Livramento, os perímetros foram definidos com base nos polígonos de videiras cadastrados no Sistema de Defesa Agropecuária (SDA). Em Jaguari, a delimitação considera área de cultivos de videiras na localidade de Chapadão. A medida considera a persistência de ocorrências de deriva de venenos à base de 2,4-D.
*Esta reportagem é resultado do trabalho final de João Victor de Souza, desenvolvido como etapa de conclusão do curso #Colabora com Inclusão e Diversidade 2026, realizado com fomento da Associação Saúva.
Apoie o #Colabora!
Faça parte da campanha “10 anos, 101 apoiadores” e ajude a fortalecer nosso jornalismo independente e de qualidade. Com apenas R$ 20 por mês (menos de R$ 0,70 por dia), você já contribui para manter histórias e reportagens que fazem a diferença, como esta.








































Comentários