Rio Grande do Sul mostra como reduzir metano sem perder produtividade no cultivo de arroz

Maria Helena Martinho, Mara Grohs, Edivane Portela e Gabriel Quintana no painel: redução das emissões de metano sem perder produtividade no cultivo de arroz (Foto: Uma Gota no Oceano / Divulgação)
Maria Helena Martinho, Mara Grohs, Edivane Portela e Gabriel Quintana no painel: redução das emissões de metano sem perder produtividade no cultivo de arroz (Foto: Uma Gota no Oceano / Divulgação)
Maria Helena Martinho, Mara Grohs, Edivane Portela e Gabriel Quintana no painel: redução das emissões de metano sem perder produtividade no cultivo de arroz (Foto: Uma Gota no Oceano / Divulgação)

Dados discutidos na Semana do Clima de Porto Alegre mostram que mitigação do gás responsável por cerca de um terço do aquecimento global já é realidade no campo gaúcho

Por #Colabora | ODS 13ODS 2

Publicado em 22/07/2026 - 18h36 (Atualizado há 4 minutos)

Tempo de leitura: 9 min

Painel realizado na 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre, reunindo pesquisa, agricultura familiar e dados científicos, mostrou que é possível produzir mais arroz emitindo menos metano, gás que responde por um terço do aquecimento global. “Da década de 80 pra cá, a gente tinha 84 quilos de metano por tonelada de arroz produzida. Em 2024, já reduzimos para 37 quilos”, destacou a pesquisadora Mara Grohs, do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), resumindo em um único dado o sucesso do Rio Grande do Sul, responsável por 70% da produção nacional de arroz, em cortar as emissões de metano sem abrir mão da liderança no cultivo do grão.

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O painel “Menos Metano, Mais Futuro: segurança alimentar e inovação no cultivo de arroz” – realizado durante a 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre, promovido pela ONG Uma Gota no Oceano em parceria com o Global Methane Hub – os aprendizados deixados pelas enchentes de 2024, que atingiram sobretudo pequenos produtores em áreas de várzea no centro do estado. Levantamento em 312 propriedades atingidas apontou que o maior prejuízo não foi a falta de arroz no mercado, mas a perda da qualidade do solo. “Cerca de 45% dos produtores de arroz estão em áreas de vulnerabilidade climática”, lembrou Mara Grohs.

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A pesquisadora do Irga, engenheira agrônoma com mestrado e doutorado em Agronomia, trabalhou nessa pesquisa que levantou danos provocados pelas enchentes, identificando uma perda de qualidade, principalmente em matéria orgânica. O que é matéria orgânica? É a riqueza do solo, a parte microbiológica. O rio levou isso, e demora muitos anos para se recompor”, acrescentou. “A maior lição que fica é a resiliência das pessoas: produtores vizinhos se juntaram, doaram maquinário e fecharam crateras maiores do que esta sala, ajudando uns aos outros”, relatou Mara Grohs.

O engenheiro agrônomo Edivane Portela, que coordena o programa estadual de produção de arroz de base ecológica em parceria com o MST, descreveu uma realidade semelhante em assentamentos na região metropolitana de Porto Alegre, onde uma cozinha solidária chegou a fornecer mais de 50 mil refeições durante o desastre ambiental, ressaltando que, para ele, o maior aprendizado não foi técnico, mas coletivo. “Não adianta a gente ter uma atuação só no dia a dia se não tivermos uma atuação a nível de sociedade, num sentido mais amplo. Se a gente não conseguir isso, não vai conseguir sobreviver a esse processo”, disse Portela.

Para o agrônomo, um dos maiores desafios é que o planejamento agrícola ainda se apoia em dados de um passado que não reflete mais a realidade do clima. “As informações que a gente usa para definir uma atividade estão baseadas num comportamento climático histórico. E o que a gente tem visto é que os fenômenos têm acontecido de um modo diferente daquilo que a gente tem o hábito de interpretar”, afirmou.

Menos área, mais produção e menos metano

Um dos dados mais expressivos apresentados pela Mara Grohs mostra que o Rio Grande do Sul reduziu quase pela metade a área plantada de arroz nas últimas duas décadas, de 1,2 milhão para cerca de 860 mil hectares e, ainda assim, aumentou o volume total produzido. Isso só foi possível, de acordo com a pesquisadora, graças ao melhoramento genético: hoje a mais semeada no estado, emite 50% menos metano do que outras sementes, simplesmente por ter um ciclo de cultivo mais curto e, consequentemente, menos tempo de área alagada.

“O produtor adota essas práticas porque elas são mais produtivas e rentáveis. E é bom que elas também sejam mais sustentáveis do ponto de vista ambiental”, resumiu Mara Grohs, ao explicar que, quando o produtor drena a lavoura para a colheita, a emissão de metano cessa imediatamente, e o preparo antecipado do solo no inverno, adotado por 70% dos produtores gaúchos, já reduz em 25% as emissões da safra seguinte.

Ainda no painel, mediado pela jornalista Maria Helena Martinho, o engenheiro ambiental Gabriel Quintana, coordenador da Iniciativa de Ciência do Clima do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), apresentou dados do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) para contextualizar o peso do arroz irrigado nas emissões nacionais de metano: menos de 2% do total emitido no Brasil, uma fração pequena diante do potencial de mitigação que o setor já demonstra.

Segundo o coordenador do Imaflora, se as boas práticas já consolidadas no Rio Grande do Sul, como o preparo antecipado do solo, fossem adotadas nas áreas do país que ainda usam o preparo convencional, o Brasil poderia deixar de emitir, até 2035, cerca de 300 mil toneladas de metano, sem perda de produtividade. “Não há ônus, não há perdas nessa atividade. É uma situação em que todos saem ganhando: o produtor, o consumidor, todos estão ganhando”, disse Gabriel Quintana, ao defender que essas práticas deixem de ser exceção e passem a ser a regra em todo o país.

O painel também discutiu os limites do Plano ABC+ (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono), política nacional que embasa a estratégia de mitigação do Plano Clima do governo federal. Quintana lembrou que o plano hoje prevê a ampliação, até 2035, de pelo menos 500 hectares de arroz de base ecológica com certificação, uma meta que, segundo ele, o próprio setor já mostra ser possível superar.

Um dos destaques do painel sobre metano foi a experiência do assentamento Filhos de Sepé, em Viamão, dentro de uma área de proteção ambiental do Banhado Grande. Com 1.600 hectares cultivados anualmente, a área é considerada a maior extensão contínua de produção de arroz orgânico do continente.

As famílias, organizadas em cooperativas, recebem pela produção certificada um valor cerca de 30% acima do preço de mercado do arroz convencional. “O MST reúne agricultores que estão à margem da sociedade, que muitas vezes têm dificuldade até de leitura e escrita, e traz para esse ser humano a ideia de que ele precisa buscar o seu espaço, ter a sua dignidade. Isso tem relação direta com a mudança de cultura de produção”, explicou Edivane Portela.

Ao final do painel, os três especialistas – Grohs, Portela e Quintana – foram unânimes ao afirmar que já é possível produzir alimentos com sustentabilidade, reduzir emissões e promover a segurança alimentar, sem que isso seja uma escolha entre produtividade e meio ambiente. “Não é só possível, é o que estamos fazendo. Hoje o Brasil tem superávit na produção de arroz, graças justamente a essa ciência que estamos mostrando aqui”, destacou a pesquisadora Mara Grohs.

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Texto produzido pelos jornalistas da redação do #Colabora, um portal de notícias independente que aposta numa visão de sustentabilidade muito além do meio ambiente.

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