Contra a ilusão da água infinita: o papel da educação por causa

Alunos de escola municipal de São João de Meriti em ação do programa Esse Rio é Meu, nas margens do Rio Sarapuí: educação ambiental contra a ideia da água infinita (Foto: Gilberto Rocha / Prefeitura de São João de Meriti)
Alunos de escola municipal de São João de Meriti em ação do programa Esse Rio é Meu, nas margens do Rio Sarapuí: educação ambiental contra a ideia da água infinita (Foto: Gilberto Rocha / Prefeitura de São João de Meriti)
Alunos de escola municipal de São João de Meriti em ação do programa Esse Rio é Meu, nas margens do Rio Sarapuí: educação ambiental contra a ideia da água infinita (Foto: Gilberto Rocha / Prefeitura de São João de Meriti)

Programa com escolas municipais busca tirar a água da invisibilidade e mostrá-la como patrimônio hídrico, histórico e cultural

Por Silvana Gontijo | ArtigoODS 4ODS 6

Publicado em 29/07/2026 - 09h59

Tempo de leitura: 6 min

Na busca por desenvolver soluções inovadoras para a educação pública brasileira, aprendi que antes de tudo é preciso escutar. Foi prestando atenção que ouvi a Malu, uma menina de 9 anos do 4º ano de uma escola municipal, fazer a pergunta mais incômoda e transformadora de todas: “Para que eu tenho que aprender isso se eu nunca vou usar?”.

Essa dúvida ecoou no exato momento em que esbarramos em um alerta devastador do climatologista Carlos Nobre sobre o “fim da abundância” hídrica no Brasil. A ONU já decretou que entramos numa “era de falência global da água”, o que na verdade é um atestado de falência da nossa governança e da nossa relação cultural com o bem mais vital do planeta. Mas, afinal, como trazer significado para a experiência pedagógica da Malu diante de uma crise dessa magnitude?

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Hoje posso afirmar que a chave foi associar o currículo a uma causa de transformação social, protagonizada por estudantes e professores. Construímos o que chamamos de educação com e por meio de causas. Ouvimos quatro mil professores em uma pesquisa interna. Questionados sobre qual causa mais inspirava seus alunos, nos mostraram que 72% dos estudantes queriam lutar pelas águas. Faz sentido? Faz. O Brasil abriga até 16% da água doce do mundo, e essa estatística mascarada esconde uma seca silenciosa, uma desigualdade brutal de acesso e um desperdício que nos faz perder 38% de toda a água potável.

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Decidimos começar um projeto piloto pelo Rio Carioca. Levamos as crianças da primeira escola da bacia do Carioca, rio que algumas delas afirmavam que não existia, e o pequeno Luan, do 2º ano, me enquadrou: “Eu não disse? Isso aqui não é rio, é o lixão onde a gente joga o nosso lixo e ele vai embora”. Ao que eu retruquei: “Acho que não, Luan. Ele está lixo, mas segue sendo rio. Que tal a gente perguntar para os mais velhos como ele era rio quando eles tinham a sua idade?”. E isso mudou tudo.

A certeza do Luan é o reflexo puro de uma construção perigosa histórica de que a água é uma mercadoria infinita. A segurança hídrica nunca será alcançada se continuarmos a tratá-la apenas como um problema de engenharia ou de tubulações. A mudança precisa ser cultural e social, e sabemos, obrigatoriamente, começando pelas crianças e jovens.

Foi assim que o programa Esse Rio É Meu ganhou o tamanho que tem. Hoje, atua ativamente em mais de 1.500 escolas da capital do Rio de Janeiro, e acaba de chegar a outros municípios: Japeri, São Gonçalo, Queimados e São João de Meriti. A tecnologia social usa os desafios locais para desatar os nós de aprendizagem dos professores, conectando o currículo à vida real. Tiramos a água da invisibilidade e a transformamos no que ela realmente é: nosso patrimônio hídrico, histórico e cultural.

Quando as crianças conversam com os mais velhos do bairro, escutam sobre como era bom nadar e pescar no seu rio e, via de regra, decidem limpá-lo, nós não estamos apenas fazendo educação ambiental, pura e simplesmente; estamos resgatando o pertencimento. Ao dar protagonismo a esses estudantes, formamos a base de cidadãos que vão exercer uma governança hídrica verdadeiramente democrática e cuidadosa.

Enquanto fazemos essa revolução nas bases, arenas globais mantêm um distanciamento. Projetos que mudam a cultura pela educação não deveriam ser pautas paralelas; deveriam ser o coração de eventos climáticos país afora.

O Brasil tem tempo para evitar a catástrofe da escassez, mas o relógio corre. Durante muito tempo, achei que eu apenas observava os rios, até perceber que foram eles que atravessaram a minha vida. Para garantir a água como direito humano, precisamos pôr fim a ideia de abundância infinita. O primeiro e mais urgente passo é educar quem vai herdar essa terra, para que cada criança e cada cidadão bata no peito e afirme: “Esse Rio é Meu”.

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Silvana Gontijo

Silvana Gontijo é escritora, jornalista, diretora de arte, roteirista, radialista e pesquisadora de midiaeducação. Silvana preside a Oscip planetapontocom, dirige a revistapontocom, além de ter criado e implementado o programa Esse Rio é Meu.

Silvana Gontijo

Silvana Gontijo é escritora, jornalista, diretora de arte, roteirista, radialista e pesquisadora de midiaeducação. Silvana preside a Oscip planetapontocom, dirige a revistapontocom, além de ter criado e implementado o programa Esse Rio é Meu.

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