ODS 1
As mulheres que nutrem a Serra da Misericórdia




Mulheres participam de mutirão agroecológico na Serra da Misericórdia: moradoras do Complexo da Penha transformam água, solo e resíduos em alimento, floresta e permanência (Foto: Thaís Valêncio)
Moradoras do Complexo da Penha transformam água, solo e resíduos em alimento, floresta e permanência na Zona Norte do Rio
Na Terra Prometida, no Complexo da Penha, Leildes Xavier orienta um grupo de mulheres num mutirão de plantio. Mostra como cortar o barranco em pequenos degraus para que o cultivo acompanhe o desenho do morro, onde a terra é seca e a encosta é íngreme. Quando a chuva vier, explica Leildes, a água não vai descer carregando terra, mudas e nutrientes. Vai infiltrar no solo e alimentar a plantação.
Leu essa? Mulheres lideram projetos de agroecologia na região do Rio Tapajós
O mutirão faz parte das atividades do Centro de Integração na Serra da Misericórdia (CEM), organização que atua desde 2011 nas encostas do principal remanescente de Mata Atlântica da Leopoldina. A instituição desenvolve projetos de agroecologia, soberania alimentar e educação popular, sempre fomentando a participação de moradores do território.
Receba um resumo com nossas notícias e colunas. É de graça!
Veja o que já enviamosAo mesmo tempo, o protagonismo feminino ocupa lugar central nos projetos comunitários do CEM. Elas coordenam a cozinha solidária, participam dos cursos de agroecologia, conduzem atividades ligadas à alimentação saudável e estão à frente dos cuidados com a agrofloresta.
A gente fala do direito à terra, da soberania alimentar. O verde aparece como um direito nessa perspectiva
Para Ana Santos, gestora da organização, esse trabalho também é uma disputa sobre quem produz conhecimento dentro da favela. “A gente precisa falar da força do poder popular, mas principalmente das mulheres pretas, indígenas, quilombolas, ribeirinhas e faveladas”, diz. “São mulheres que historicamente foram colocadas na parte de baixo da pirâmide, mas que conseguem movimentar essa estrutura de outro jeito.”
Com raízes indígenas Guajajara e nascida no Maranhão, Leildes aprendeu a cultivar a terra com a família. “O nosso saber lá do interior, pra plantar na roça, é o milho, é a macaxeira, o maxixe, o quiabo, a melancia, o melão…”, conta ela, numa lista em que cabia toda uma feira. O conhecimento adquirido desde a infância ficava restrito ao pequeno quintal de sua casa, até conhecer Ana durante atividades desenvolvidas pelo CEM e se incorporar à instituição. “Eu tinha a minha sabedoria, mas não tinha como botar pra fora”, conta.
Hoje, ela orienta mutirões, participa das oficinas de agroecologia e cuida diariamente da agrofloresta do CEM. A horta do espaço leva o nome de Leildes “Se ela não ocupa esse lugar de educadora, de guardiã de sementes, de responsável pela agrofloresta, o saber dela continua invisível dentro da favela”, reflete Ana.


Uma floresta em disputa
Vista da Avenida Vicente de Carvalho, a Serra da Misericórdia surge como um pedaço de floresta agarrado às encostas urbanizadas da Zona Norte. A poucos metros do trânsito e do concreto, a Mata Atlântica ainda resiste.
Conhecida antigamente como Serra Chorona, por causa da abundância de nascentes, a Serra da Misericórdia é o quarto maciço urbano da cidade, atrás apenas da Tijuca, Pedra Branca e Mendanha. Espalha-se por 27 bairros e concentra a principal área verde da região. Para ambientalistas, representa uma das últimas grandes reservas de Mata Atlântica em uma parte da cidade marcada pelo concreto, pela intensa circulação de veículos e pela expansão urbana.
A floresta permanece, mas traz no corpo as marcas de quase um século de exploração. A pesquisa do geógrafo Éric Vidal indica que cerca de um terço da Serra da Misericórdia, aproximadamente 80 hectares, é ou já foi alvo de atividade mineradora. O maciço de gnaisse, usado na construção civil e na pavimentação, é explorado desde os anos 1940. As explosões periódicas afetam áreas vizinhas e já chegaram a causar rachaduras em residências próximas.
“A gente é o quarto maior maciço de Mata Atlântica da cidade. Degradado por mais de oito décadas de exploração por pedreiras”, afirma Ana. “Ainda hoje, quando elas fazem as explosões, a gente escuta o barulho daqui e vê a fumaça de pedra tomando conta.”
A gente que mora aqui fica feliz de saber que tem gente de outros lugares vindo participar disso
A degradação provocada pelas pedreiras tornou-se uma das principais bandeiras das organizações socioambientais que atuam na região. CEM e Verdejar Socioambiental denunciam que a mineração contribui para a perda de cobertura vegetal, o impacto sobre nascentes e o aumento da poluição do ar e do ruído. Em 2000, após mobilização de moradores e lideranças locais, foi criada a Área de Proteção Ambiental e Recuperação Urbana (APARU) da Serra da Misericórdia, reconhecendo a importância ecológica do maciço e ampliando a luta pela proteção do território.
A ameaça à Serra da Misericórdia, no entanto, não está apenas nas marcas deixadas pela mineração. A região também convive com operações policiais, disputas armadas e pressões permanentes sobre o território. Segundo Ana, as características naturais da Serra, com diferentes acessos e áreas de transição entre ambientes urbanos e naturais, também criam desafios de segurança. “A gente tem um alto teor de violência aqui dentro porque tem vários eco-limites, tem várias entradas, que são boas para a gente, mas também para processos de invasão, como foi o caso da Operação Contenção”.
A Operação Contenção, citada pela gestora, foi o ataque da Polícia a grupos criminosos instalados nos complexos de favelas da Penha e do Alemão que resultou em mais de 120 mortos, na mais letal operação policial da violenta história do Rio. Mais de 60 corpos foram retirados pelos próprios moradores das matas da Serra da Misericórdia, muitos com marcas de execução.
É nesse cenário que os quintais agroecológicos, a agrofloresta e os mutirões de plantio ganham outro significado. Além de produzir alimentos, tornam-se uma forma de ocupar o território, recuperar áreas degradadas e defender a permanência da floresta.
A água, que já correu com fartura por essas encostas, hoje se tornou uma preocupação diária para os moradores. A favela convive com períodos recorrentes de falta d’água. Depois de construir uma cisterna para ampliar o plantio, o CEM passou a buscar uma solução mais ambiciosa: fazer a chuva permanecer na Serra e ajudar a trazer de volta a água que um dia deu nome à antiga Serra Chorona.


Plantando Águas
No CEM, a recuperação da água não é tratada como um projeto ambiental separado da produção de alimentos. A agrofloresta, a cozinha solidária, a compostagem, o cuidado com o solo e as novas experiências em desenvolvimento fazem parte de uma mesma lógica de permanência no território. Para Ana Santos, a questão ambiental aparece como consequência de necessidades mais fundamentais. “A gente fala do direito à terra, da soberania alimentar. O verde aparece como um direito nessa perspectiva”, afirma.
Dessa lógica, somada a intercâmbios com experiências de recuperação de nascentes no Espírito Santo, surgiu o Plantando Águas na Serra da Misericórdia. O grupo conheceu técnicas de infiltração da chuva, reflorestamento e retenção da água no solo capazes de revitalizar áreas degradadas e fortalecer nascentes.
Segundo Ana, a proposta inicial era mobilizar moradores em mutirões, como acontece em grande parte das atividades do CEM. O primeiro passo foi construir caixas de infiltração e plantar espécies como bananeira, juçara e imbaúba, árvores que ajudam a reter umidade, proteger o solo e ainda oferecem alimento, cobertura vegetal e usos medicinais. “A gente quer esse rio de volta”, resume ela.
Dizem que eu sou maluca porque cozinho com gás feito de cocô. Mas o que a gente joga fora também pode gerar energia
Depois, por sugestão de um parceiro da AS-PTA, organização que atua com agricultura familiar e agroecologia, a experiência também se transformou em curso. Construída em parceria com a AS-PTA, o MUDA, projeto de extensão da UFRJ e o Mutirão Agroflorestal, a iniciativa reúne moradores da Serra, estudantes universitários e parceiros externos em encontros teórico-práticos sobre ciclo da água, recuperação de nascentes, manejo de águas pluviais, reflorestamento, agrofloresta e saneamento.
Entre as participantes está Luzinete da Silva, paraibana, 60, que chegou à Terra Prometida há cinco anos. “Eu gosto muito de mexer em terra, gosto de plantar e gosto de colher”, conta. Convidada por Ana em um grupo de WhatsApp do CEM, Luzinete decidiu participar do mutirão. “Ela falou que aqui a gente planta e colhe. Aí eu falei: então eu quero plantar também.”
Luzinete lembra que, no primeiro encontro, a chuva caiu forte e o grupo passou boa parte do tempo discutindo técnicas de captação e retenção de água. “O Tomás mostrou uns vídeos ensinando como plantava e como colhia água.” No encontro seguinte, veio o trabalho de campo. “Conseguimos cavar uns buracos. Eu estava com tanta vontade que cavei até dois. Só não cavamos mais porque tem muita pedra lá pra cima.”
Para Luzinete, o encontro entre moradores, estudantes e pessoas de outros lugares também produz um sentimento de valorização da comunidade. “A gente que mora aqui fica feliz de saber que tem gente de outros lugares vindo participar disso”, diz. “É maravilhoso saber que a gente aqui também é importante pras pessoas lá fora.”
O CEM espera que, nos próximos anos, o Plantando Águas aumente a capacidade de retenção hídrica da Serra e fortaleça a produção agroecológica da comunidade. A aposta é que fazer a chuva permanecer mais tempo na encosta ajude a ampliar o plantio, melhorar o solo e regenerar áreas degradadas. “Água também é alimento, a gente esquece disso”, resume Ana.


A engenharia da comunidade
Enquanto a chuva é guardada na encosta, o lixo orgânico começa a ganhar outro destino na Terra Prometida. Atrás da agrofloresta, um grande tanque de alvenaria cavado na encosta dá forma a uma nova ideia de destino dos resíduos da comunidade. Nos próximos meses, o CEM pretende colocar em funcionamento um biodigestor construído coletivamente ao longo do último ano.
A ideia surgiu durante um curso de saneamento básico promovido em parceria pela AS-PTA, MUDA, Verdejar Agroecológico e Fiocruz. A proposta combinava formação teórica e a implementação de uma tecnologia social em cada território participante. Na Serra da Misericórdia, o grupo decidiu construir o próprio biodigestor. “Se a gente está falando de soberania alimentar, está falando também de autonomia”, explica Ana Santos. A lembrança da pandemia pesou na escolha: “Tinha gente que recebia doação de comida, mas não tinha gás.”
Em visitas ao semiárido nordestino, integrantes do CEM conheceram experiências comunitárias capazes de transformar esterco e resíduos orgânicos em gás de cozinha e biofertilizante. O projeto, porém, não foi pensado como uma tecnologia isolada. Na área onde a agrofloresta avança sobre um terreno marcado pelos resíduos da pedreira, Ana vê o biodigestor como parte de um mesmo ciclo de recuperação do solo e produção de alimentos. “Produzir composto é produzir comida”, afirma. “E também é reduzir o impacto de CO₂ no meio ambiente.”
O grupo decidiu adaptar a tecnologia à realidade da favela. A inspiração veio do chamado biodigestor sertanejo, modelo amplamente utilizado em comunidades rurais do Nordeste. “Ele segue a lógica do biodigestor indiano, mas é baseado no biodigestor sertanejo, que já é uma tecnologia muito difundida no Nordeste mas aqui no Rio não tinha”, explica Luan Farias, estudante de engenharia química e integrante do MUDA. Segundo ele, este deve ser o primeiro biodigestor desse modelo construído em uma favela carioca.
O sistema escolhido combina uma base fixa de alvenaria com uma cúpula móvel de fibra e resina, o que facilita a manutenção. “Se rachar ou aparecer um vazamento, essa estrutura de fibra pode ser consertada. Nos modelos totalmente de alvenaria, esse reparo costuma ser mais difícil”, explica Tomé Lima, assessor em agroecologia da AS-PTA.
Na Serra da Misericórdia, porém, o projeto ganharia uma marca própria: seria construído em mutirão, pelas mãos de moradoras do território. A tecnologia recebeu apoio técnico do MUDA e da AS-PTA. “A parte prática da obra foi da Dona Maria, da Ana e desse coletivo de mulheres”, explica Tomé.
Quem coordenou a obra foi Dona Maria do Carmo, pernambucana de 62 anos, mestra de obras e moradora da comunidade. Nunca havia construído algo do tipo. Estudou a apostila fornecida pela AS-PTA, assistiu a vídeos, reuniu outras mulheres do território e conduziu o trabalho em mutirões realizados ao longo de vários meses. “Fiquei responsável por cavar o buraco, fazer a estrutura do tanque, as caixas de carga e de descarga”, conta. “Quem terminou de construir fui eu, minha filha e uma vizinha.”


O tanque, com cerca de três metros de profundidade, foi erguido em dias alternados de trabalho. A construção acabou se transformando em uma experiência coletiva de aprendizagem. “O CEM aqui é a base para tudo”, diz Dona Maria. “Sempre tem um curso, sempre se aprende alguma coisa diferente, sempre se conhece gente com outras coisas para ensinar.”
Para Luan, o biodigestor é também uma ferramenta de educação popular. “Além da tecnologia em si, eu vejo isso aqui como uma sala de aula. É uma forma de ajudar e de aprender junto.”
Isso aqui é muito raro botar flor. Quando ela uma espada-de-são-jorge bota flor, o significado é que ela guerreou a favor do dono. Não é contra, é a favor. Protegendo o território e o dono da casa
A troca de conhecimentos também acontece entre favelas. Dona Josefa da Conceição, moradora da Favela do Sapo, no Complexo do Alemão, acompanha a experiência do CEM a partir de uma trajetória própria de tecnologia popular. Integrante do Verdejar Socioambiental e da Comissão de Meio Ambiente do Fórum Popular do Complexo do Alemão, ela já desenvolveu um biodigestor artesanal em seu território e participa do projeto na Serra da Misericórdia para trocar experiências. “Dizem que eu sou maluca porque cozinho com gás feito de cocô”, conta, rindo. “Mas o que a gente joga fora também pode gerar energia.”
A experiência nasceu da insistência. Josefa carregava baldes de esterco pelas ladeiras do Alemão até conseguir produzir gás de cozinha no próprio território. Depois passou a testar diferentes versões do sistema. “Sou um pouco cientista também”, brinca. “Tem coisa que a gente só aprende testando.”
Tomé prefere traduzir a experiência em termos mais amplos. “Esse processo mostra como as comunidades da periferia podem ser modelo de desenvolvimento sustentável, de autonomia e de geração de conhecimento. Até nas gambiarras.”
Quando entrar em funcionamento, o biodigestor será alimentado por esterco animal e resíduos orgânicos recolhidos no entorno do CEM. “A gente espera gerar um gás que abasteça a nossa cozinha, mas também gerar biofertilizante”, explica Ana.
Nos próximos meses, o CEM pretende inaugurar também um sistema comunitário de compostagem para receber cascas, sobras de alimentos e outros resíduos orgânicos da vizinhança. Parte desse material alimentará o biodigestor; outra parte voltará ao solo da agrofloresta. E completa, recorrendo ao pensamento do intelectual quilombola Nego Bispo: “A terra dá, a terra pede.”


A flor da espada
Ao final do mutirão, durante o almoço preparado e distribuído aos participantes, Ana olha para a estrutura ainda em fase de montagem e diz, entusiasmada: “A gente quer batizar de Biodigestor Pernambucano, em homenagem à Dona Maria do Carmo.” A ideia é valorizar o conhecimento e o trabalho das mulheres da comunidade, frequentemente invisibilizadas nas discussões sobre inovação, tecnologia e sustentabilidade.
Dona Maria do Carmo, por sua vez, retribui o reconhecimento, usando uma imagem de seu ofício: “A Ana, pra mim, é a coluna da estrutura” Para a mestra de obras, a liderança de Ana aparece inseparável do trabalho coletivo que sustenta o CEM. “Ela aqui é fundamental. O CEM é a base. Pra tudo sempre tem um projeto.”
Ana ainda se emociona ao falar de mulheres como Josefa, Maria do Carmo, Luzinete e Leildes, que deixam de ser apenas guardiãs silenciosas de conhecimentos para se tornarem referência dentro da comunidade. Na cozinha da sede, Leildes aponta para uma espada-de-são-jorge e explica: “Isso aqui é muito raro botar flor. Quando ela uma espada-de-são-jorge bota flor, o significado é que ela guerreou a favor do dono. Não é contra, é a favor. Protegendo o território e o dono da casa.”
Ela diz que ainda não viu nenhuma das espadas do CEM florescer, mas espera que aconteça em breve. Para ela, se os encontros continuarem acontecendo, já haverá motivo para comemorar. “Que continue acontecendo os encontros tá bom”, diz. E, como quem permite à esperança crescer um pouco mais, completa: “Que fique ainda melhor do que já tá.”
*Esta reportagem é resultado do trabalho final de Alan Miranda, desenvolvido como etapa de conclusão do curso #Colabora com Inclusão e Diversidade 2026, realizado com fomento da Associação Saúva.
Apoie o #Colabora!
Faça parte da campanha “10 anos, 101 apoiadores” e ajude a fortalecer nosso jornalismo independente e de qualidade. Com apenas R$ 20 por mês (menos de R$ 0,70 por dia), você já contribui para manter histórias e reportagens que fazem a diferença, como esta.







































Comentários