Perigo real e imediato: ONU alerta para inevitável ultrapassagem do limite de aquecimento global

Leito de rio seco na Amazônia: com o aquecimento global acima de 1,5º C, perigo de tragédias climáticos e de pontos de não retorno vai alcançar novos patamares (Foto: Marizilda Cruppe / Greenpeace - 19/10/2023)
Leito de rio seco na Amazônia: com o aquecimento global acima de 1,5º C, perigo de tragédias climáticos e de pontos de não retorno vai alcançar novos patamares (Foto: Marizilda Cruppe / Greenpeace - 19/10/2023)
Leito de rio seco na Amazônia: com o aquecimento global acima de 1,5º C, perigo de tragédias climáticos e de pontos de não retorno vai alcançar novos patamares (Foto: Marizilda Cruppe / Greenpeace – 19/10/2023)

Novo relatório prevê planeta com temperatura 1,8º C acima do período pré-industrial com os riscos de tragédias climáticas em novo patamar

Por Oscar Valporto | ODS 13

Publicado em 02/09/2026 - 01h54

Tempo de leitura: 17 min

Uma semana depois da tragédia climática no Nepal, com mais de mil mortos e ainda três mil desaparecidos, vítimas de uma violenta enchente repentina de água, lama e gelo, após o deslizamento de uma geleira do Himalaia, relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) aponta como inevitável e temporariamente irreversível a ultrapassagem do limite de aquecimento global de 1,5º C acima da temperatura média do período pré-industrial “levando os riscos e impactos climáticos a níveis cada vez mais perigosos”. Como destaca o documento de 140 páginas, não se trata mais de evitar a ultrapassagem, mas de mitigação e adaptação para os impactos.

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O relatório ‘Limiting Overshoot’ (Limitando a Ultrapassagem) aponta uma trajetória de “ultrapassagem, pico e declínio” como a melhor opção restante para minimizar a magnitude e a duração dessa ultrapassagem do limite do aquecimento global e tentar retornar a níveis abaixo de 1,5°C o mais rápido possível – ‘overshoot’ é o termo que vem sendo usado globalmente para a ultrapassagem, por décadas, do limite de 1,5°C de aquecimento global definido pelo Acordo de Paris. “O calor abrasador, os incêndios florestais devastadores e as inundações mortais deste verão são um alerta para o que está por vir. Precisamos tornar a ultrapassagem do limite de 1,5 grau a menor e a mais breve possível. Isso exige uma ambição que vá além dos limites habituais”, afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres, em mensagem para a apresentação do documento nesta quarta (02/09).

Em todo o mundo, ondas de calor extremas já demonstram que os impactos climáticos chegarão mais rápido, serão mais severos e durarão mais tempo, custando mais vidas e causando perturbações mais profundas

Inger Andersen
Diretora-executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente

Relatório aponta, no melhor cenário, aumento máximo de temperatura de 1,8°C; algumas projeções sugerem mais de 2°C. “Não há cenários positivos acima de 1,5°C. Fenômenos climáticos extremos, o derretimento de geleiras, a perda de ecossistemas e a elevação do nível do mar se intensificarão. Alguns Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento e cidades costeiras situadas em áreas baixas poderão ficar parcial ou totalmente submersos. Os riscos de pontos de não retorno (‘tipping points’) aumentarão”, destaca a economista e ambientalista dinamarquesa Inger Andersen, diretora-executiva do Pnuma, na apresentação do relatório.

Os cientistas reunidos pelo programa apontam que o aumento da temperatura global deve ultrapassar 1,5°C acima dos níveis pré-industriais já nos próximos anos. “A saúde humana, a segurança alimentar e hídrica, bem como as cidades e a infraestrutura, sofrerão pressões crescentes. Esses impactos não serão distribuídos de forma igualitária, e algumas perdas serão irreversíveis, mesmo que as temperaturas globais venham a cair futuramente”, acrescenta Inger Andersen, enfatizando que o objetivo do relatório é exatamente traçar o caminho para a temperatura do planeta retornar a níveis abaixo de 1,5°C até o final do século e adaptar a população aos impactos das mudanças climáticas.

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A trajetória desenhada pelo relatório do Pnuma minimizaria a elevação da temperatura de pico por meio de reduções imediatas e sustentadas das emissões de gases de efeito estufa — incluindo o metano — rumo à neutralidade de carbono, e reduziria as temperaturas mediante emissões líquidas negativas a longo prazo, tendo como componente essencial a Remoção de Dióxido de Carbono (CDR) — processo de retirar carbono do ar e armazená-lo por meio de florestamento ou outros métodos.

O documento enfatiza a necessidade de ações de adaptação que reduzem a vulnerabilidade aos impactos atuais das mudanças climáticas sobre sociedades, comunidades e economias, apesar de admitir que provavelmente existam limites para a adaptação e ocorram impactos irreversíveis, especialmente se os picos de temperatura não forem minimizados. “Em todo o mundo, ondas de calor extremas já demonstram que os impactos climáticos chegarão mais rápido, serão mais severos e durarão mais tempo, custando mais vidas e causando perturbações mais profundas”, alertou a diretora-executiva do Pnuma, na apresentação do relatório.

A trajetória indicada pelo relatório reduziria riscos e impactos, tornaria a adaptação menos difícil e dispendiosa e aumentaria as chances de redução das temperaturas. “É hora de intensificarmos a ação climática. Podemos — e devemos — seguir o caminho certo: reduzindo as emissões de gases de efeito estufa, fortalecendo a resiliência e a adaptação e garantindo que qualquer ultrapassagem do limite de 1,5°C seja a menor e a mais breve possível”, adicionou Andersen.

Resgate no Nepal arrasado pela enchente relâmpago: tragédias climáticas tendem a se multiplicar com a inevitável ultrapassagem do limite de aquecimento global (Foto: Reprodução)
Resgate no Nepal arrasado pela enchente relâmpago: tragédias climáticas tendem a se multiplicar com a inevitável ultrapassagem do limite de aquecimento global (Foto: Reprodução)

Aquecimento global, impactos devastadores

Como o cenário otimista indica um aumento de 1,8º C, o relatório alerta que a probabilidade de ultrapassar pontos de não retorno irreversíveis aumenta com a magnitude e a duração de temperaturas mais elevadas. Entre esses pontos, estão a a degradação da Floresta Amazônica, a desestabilização de grandes mantos de gelo e a perturbação da Circulação Meridional de Capotamento do Atlântico – sistema de correntes que transporta águas superficiais quentes para o norte e águas profundas frias para o sul, desempenhando papel fundamental na regulação do clima).

Alguns impactos podem surgir de forma abrupta, enquanto outros se acumularão ao longo do tempo. “Os riscos e impactos incluem uma elevação mais rápida do nível do mar, maior probabilidade de colapso de ecossistemas como recifes de coral, mais ondas de calor extremo e incêndios florestais, além de mudanças profundas na criosfera”, alerta o relatório. “As geleiras, por exemplo, poderiam perder mais de um quarto de sua massa até 2100, o que poderia elevar o nível do mar entre 9 e 13 centímetros e alterar permanentemente a disponibilidade de água em muitos locais”.

O documento do Pnuma aleta ainda que, embora existam incertezas quanto aos prazos e à intensidade dos impactos com a ultrapassagem dos limites do aquecimento global, eles poderão ser devastadores para populações em todo o mundo “A segurança alimentar e o abastecimento de água serão afetados; por exemplo, projeções indicam quedas de até 14% na produção global de alimentos até 2050, na ausência de medidas eficazes de adaptação. Ondas de calor mais frequentes e intensas, mais doenças relacionadas à nutrição e maiores riscos de transbordamento de patógenos aumentarão a incidência de enfermidades e mortes”, afirma o relatório.

Reduzir as emissões e adaptar-se aos seus impactos são duas partes de uma mesma resposta; ambas precisam começar agora, de forma conjunta e alinhada, desde a fase inicial

Joana Portugal Pereira
Cientista brasileira, doutora em Engenharia Ambiental

Os autores – especialistas nas áreas de ciência do clima, adaptação, mitigação, governança e desenvolvimento sustentável – também destacam que cidades e infraestruturas enfrentarão maiores riscos decorrentes de ondas de calor mais fortes e prolongadas e de inundações. “O aquecimento dos oceanos, a redução dos níveis de oxigênio e o aumento da acidez dificultarão a sobrevivência da vida marinha e das comunidades que dela dependem. A maior demanda por energia, os custos para o consumidor e a pressão sobre os sistemas financeiro e de seguros representarão riscos para todas as nações”, alerta ainda o documento.

No lançamento do relatório, o Pnuma também reuniu comentários dos cientistas envolvidos. “Ultrapassar o limite de 1,5°C é um lembrete doloroso de que a falha em reduzir as emissões de gases de efeito estufa traz consequências que já não podemos evitar, apenas limitar”, afirmou o belga Joeri Rogelj, professor de Ciência e Política Climática, do Imperial College, de Londres Nossa resposta exige que a mitigação e a adaptação avancem em conjunto: reduções de emissões a curto prazo podem limitar a ultrapassagem e reduzir os danos, mas uma mitigação inadequada levará comunidades e ecossistemas além de sua capacidade de adaptação, acrescentou.

A cientista brasileira Joana Portugal Pereira, doutora em engenharia ambiental, também participou do relatório. “Reduzir as emissões e adaptar-se aos seus impactos são duas partes de uma mesma resposta; ambas precisam começar agora, de forma conjunta e alinhada, desde a fase inicial”, enfatizou. “Estratégias de remoção de dióxido de carbono serão essenciais para estabilizar o aquecimento global e reduzir as temperaturas mais adiante neste século, mas apenas em paralelo a cortes profundos nas emissões — jamais como um substituto para eles”, acrescentou a professora da UFRJ e da Universidade de Lisboa.

O relatório 'Limiting Overshoot' do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente: cobrança aos Os países com maior responsabilidade histórica pelas mudanças climáticas (Foto: Reprodução)
O relatório ‘Limiting Overshoot’ do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente: cobrança aos Os países com maior responsabilidade histórica pelas mudanças climáticas (Foto: Reprodução)

Caminho de volta e seus obstáculos

O Programa de Meio Ambiente da ONU adverte para a urgência da adoção de uma ação “acelerada, coletiva e global para trilhar um caminho que envolva ultrapassagem temporária, pico e declínio”, diante da magnitude dos riscos envolvidos. E destaca os benefícios de intervenções climáticas, como uma transição rápida dos combustíveis fósseis para energias renováveis, com a consequente melhora na qualidade do ar e na saúde pública, a redução dos custos de energia e a ampliação do o acesso à eletricidade. “A velocidade e a intensidade dessa ação definirão a configuração e a trajetória desse caminho”, indica o relatório.

O relatório também aponta que a mitigação e a adaptação, que se reforçam mutuamente, devem avançar em conjunto, respondendo simultaneamente a riscos emergentes. Intervenções que alcancem objetivos tanto de mitigação quanto de adaptação – como soluções de resfriamento baseadas na natureza – devem ser priorizadas. “As medidas de adaptação implementadas agora constituem a base para os esforços futuros, mas precisam se tornar transformadoras e capazes de responder a riscos em evolução, não lineares e de surgimento abrupto – incluindo aqueles que prejudicarão os esforços de mitigação”, afirma o documento.

É difícil expressar a intensidade da emoção daqueles de nós que vivem na linha de frente, após termos lutado tanto para colocar o limite de 1,5 grau no centro do Acordo de Paris. Ele oferece um novo vislumbre de um futuro perigoso que já chegou

Surangel Whipps Jr.
Presidente da República de Palau

A diretora-executiva do Panuma destacou que a necessidade de maior vontade política e multilateralismo, bem como uma governança mais ágil e inclusiva, com equidade e a justiça no centro de todas as ações para que o planeta tenha êxito nesse caminho de retorno para o limite de aquecimento global estabelecido no Acordo de Paris. “Os países com maior responsabilidade histórica pelas mudanças climáticas devem agir com a maior rapidez e ambição. Além disso, como muitas nações e comunidades provavelmente enfrentarão mudanças permanentes, será necessária uma reformulação fundamental da governança de longo prazo para garantir que aqueles que menos contribuíram para o aquecimento global não sejam os que arcarão com os seus maiores impactos”, afirmou Inger Andersen.

O relatório enfatiza ainda que o ‘net-zero’ (emissões líquidas zero) deve ser um marco rumo ao ‘net-negative’ (emissões líquidas negativas), com a remoção de dióxido de carbono (CDR) necessária como complemento – e não substituto – às reduções sustentadas das emissões de gases de efeito estufa. No entanto, a CDR só pode contribuir de forma credível para um retorno a níveis abaixo de 1,5°C se o pico de aquecimento permanecer bem abaixo de 2°C e todas as emissões residuais forem reduzidas. Estruturas de governança robustas para a CDR serão fundamentais para permitir sua implementação responsável e gerenciar as implicações para a integridade ambiental, a equidade e a escala.

Futuro perigoso já chegou

Na apresentação do documento, Inger Andersen enfatizou ainda que os esforços precisarão evoluir ao longo dos anos para lidar com muitas incertezas provocadas pelo aquecimento global e pelas consequentes mudanças climáticas. “Mas as decisões tomadas agora e nos próximos anos determinarão se ainda haverá opções viáveis para reverter o aquecimento e limitar o aumento da temperatura a 1,5°C. Por isso, conclamo os governos — e todos aqueles com poder para promover mudanças — a agir com urgência e determinação”, afirmou.

Infelizmente, como já sabemos, reduzir emissões não é mais suficiente; será necessário um aumento urgente na remoção de carbono baseada na natureza, por exemplo, por meio de programas de reflorestamento em larga escala. O desafio é garantir que a medida da ambição não seja o que se promete, mas sim o que se entrega para atender à urgência que o momento exige

Ana Toni
CEO da COP30

Também participaram do lançamento do relatório do Pnuma, autoridades envolvidas nas negociações climáticas da ONU. “Cada fração de grau de aquecimento acima de 1,5°C resulta em impactos climáticos crescentes e cada vez mais severos, com a nossa família do Pacífico na linha de frente”, disse Chris Bowen, ministro de Mudanças Climáticas e Energia da Austrália e Presidente das Negociações da COP31. “Embora saibamos que o desafio está aumentando, o mesmo ocorre com o ímpeto de ação. A recente crise energética lembrou o mundo da necessidade de reduzir nossa dependência de combustíveis fósseis, acelerar a transição para energias renováveis ​​e fortalecer a cooperação climática. A COP31 é uma oportunidade de transformar nossa ambição em ação — com a Turquia, a Austrália e o Pacífico promovendo uma COP prática e focada em soluções”, acentuou Bowen.

Presidente da República de Palau, um dos países insulares ameaçados de submersão com o aumento do nível dos oceanos, Surangel Whipps Jr. ressaltou que o relatório ‘Limiting Overshoot’ representa um momento decisivo para o planeta. “É difícil expressar a intensidade da emoção daqueles de nós que vivem na linha de frente, após termos lutado tanto para colocar o limite de 1,5 grau no centro do Acordo de Paris. Ele oferece um novo vislumbre de um futuro perigoso que já chegou”, lamentou o presidente de Palau, país formando por 300 ilhas no Pacífico. “Para mantermos uma chance real de sucesso, apelos por maior ambição já não bastam: precisamos ver um aumento urgente e sem precedentes na vontade política e nos investimentos em um futuro climaticamente seguro. Ninguém pode ler este relatório e chegar a uma conclusão diferente”, frisou.

CEO da COP30, a ambientalista e economista brasileira Ana Toni enviou uma mensagem em vídeo para o lançamento do relatório do Pnuma lembrando que a decisão da COP30 sobre o “Mutirão Global”, aprovada por consenso em Belém, foi o primeiro texto de uma COP a reconhecer a probabilidade de uma ultrapassagem temporária do limite de 1,5°C na temperatura. “Os países também assumiram um compromisso inédito de limitar a magnitude e a duração dessa ultrapassagem e de sanar as lacunas de adaptação — um esforço que exige reduções de emissões profundas, rápidas e sustentadas”, afirmou . “Infelizmente, como já sabemos, reduzir emissões não é mais suficiente; será necessário um aumento urgente na remoção de carbono baseada na natureza, por exemplo, por meio de programas de reflorestamento em larga escala. O desafio é garantir que a medida da ambição não seja o que se promete, mas sim o que se entrega para atender à urgência que o momento exige”, acrescentou Ana Toni.

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Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

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