Emergência química: pulverização de agrotóxicos bate recorde e ameaça comunidades rurais no Maranhão

Foto colorida de drone pelicano lançando agrotóxicos. O drone está no alto e abaixo dele aparecem jatos com líquido caindo. Emergência química no Maranhão

Relatório contabiliza 222 notificações no primeiro trimestre do ano. Comunidades relatam impactos na saúde e contaminação ambiental

Por Micael Olegário | ODS 15
Publicada em 11 de maio de 2026 - 09:00
Tempo de leitura: 10 min

Foto colorida de drone pelicano lançando agrotóxicos. O drone está no alto e abaixo dele aparecem jatos com líquido caindo. Emergência química no Maranhão
Drone pelicano; um dos modelos usados na pulverização de agrotóxicos no Brasil (Foto: Divulgação)

Comunidades rurais do Maranhão estão diante de uma emergência química devido ao avanço da pulverização aérea de agrotóxicos. Náuseas, vômitos, ardência na pele e nos olhos são alguns dos sintomas relatados. Junto ao impacto na saúde, a destruição de roças e quintais produtivos compromete a segurança alimentar e a sustentabilidade dos moradores.

“Estou vivendo um terror, porque jogaram veneno com drone”. O relato é de Maria*, 55 anos, uma das moradoras da comunidade Santo Antônio, no interior de Duque Bacelar (MA). O pesadelo teve início na manhã do dia 10 de abril, quando drones foram vistos jogando agrotóxicos nas plantações e poços de água da comunidade.

Após o ataque químico, o verde tão característico do local está aos poucos sendo substituído pelo amarelo. E este é apenas um dos sintomas da morte de árvores frutíferas e das roças que alimentavam a comunidade de 31 famílias que vivem em uma área de aproximadamente 1,2 hectares.

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Dois poços de água utilizados pelos moradores foram interditados, após diversos moradores apresentarem sintomas de contaminação. Maria está em tratamento de um câncer no nariz e conta estar sofrendo com queimaduras e com a pele irritada. Crianças e pessoas idosas foram os grupos mais afetados

O problema, porém, não fica restrito à comunidade Santo Antônio, mas tem afetado diversas localidades do Maranhão.

Emergência química

Relatório produzido pela Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA) mostra que, entre janeiro e março deste ano, foram registradas 222 notificações de pulverização de agrotóxicos sobre comunidades rurais, quilombolas, indígenas e assentadas no Maranhão. O pico foi em janeiro, quando foram 142 casos reportados.

A organização, porém, acredita que os números reais devem ser ainda maiores, devido à subnotificação e ao receio que muitas pessoas sentem de denunciar e sofrer represálias. “Muitas pessoas não conseguem detectar quando é pulverizado, porque eles (fazendeiros e latifundiários) têm utilizado a estratégia de pulverização à noite”, acrescenta Ariana Gomes, diretora-executiva da RAMA.

Quando vamos para as comunidades, nunca dormimos no município que a gente vai fazer o trabalho. Nunca dizemos onde vamos, nem quando voltamos

Ariana Gomes
Diretora-executiva da RAMA

Foram 188 comunidades afetadas pela pulverização de agrotóxicos no trimestre analisado (algumas foram atingidas mais de uma vez). O dado supera os registros de todo o ano de 2025, quando 122 comunidades notificaram contaminação por deriva e/ou ataques químicos. 

O relatório destaca ainda quatro dimensões para entender os impactos que os agrotóxicos causam nas comunidades:

  • Crise sanitária: sintomas agudos como queimaduras, vômitos e convulsões, além de efeitos crônicos como câncer e neurotoxicidade — sem estrutura de atendimento adequada no estado;
  • Crise alimentar: destruição de roças de mandioca, milho, feijão, quintais produtivos e áreas de babaçu, comprometendo a segurança alimentar de centenas de famílias;
  • Crise ambiental: contaminação de água, solo e ar, mortandade de peixes, colapso de polinizadores e uso massivo de drones não registrados;
  • Racismo ambiental: mais de 75% das comunidades atingidas são tradicionais, quilombolas ou indígenas.

O levantamentoxfoi realizado em parceria com a Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Estado do Maranhão (Fetaema) e o Laboratório de Extensão, Pesquisa e Ensino de Geografia (Lepeng), da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

Dados consolidados em artigo publicado na Revista Interdisciplinar de Direitos Humanos, da UEG, revelam o padrão sistemático e crescente de violência química contra comunidades tradicionais no Maranhão, com 495 ocorrências em pelo menos 45 municípios, no período de 2024 e o primeiro trimestre de 2026.

Ilustração colorida com mapa do Maranhão que mostra localização de comunidades vítimas de ataque químico com drones.
Mapa identifica comunidades mais afetadas por ataques químicos; concentração de notificações no nordeste do Estado (Foto: Divulgação / RAMA)

Denúncias e ameaças

A RAMA foi criada em 1998 com uma atuação mais concentrada na região central do Maranhão. A luta contra os agrotóxicos sempre foi uma das pautas da rede, contudo, foi a partir de 2024 que as denúncias se intensificaram, depois dos ataques no Território Campestre, no município de Timbiras (MA).

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Após as 142 notificações em janeiro, a RAMA levou uma denúncia ao Ministério Público estadual e federal, ao Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) e à Organização das Nações Unidas (ONU). A rede também trabalha em prol da aprovação do Projeto de Lei nº 44/2026, para proibir a pulverização aérea de agrotóxicos no Maranhão.

“Vimos que são vários caminhos por trilhar, como cuidar dessas pessoas que estão também contaminadas, orientar para o atendimento médico. E começamos a entender também que elas estavam sendo ameaçadas devido à denúncia”, descreve Ariana Gomes. 

A própria diretora-executiva da RAMA cita ameaças e pressões, inclusive, judicialmente via Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag). Apuração de O Joio e O Trigo mostra como age o lobby da Sindag e revela que as empresas associadas à entidade acumulam pelo menos R$34 milhões em multas ambientais.

“Quando vamos para as comunidades, nunca dormimos no município que a gente vai fazer o trabalho. Nunca dizemos onde vamos, nem quando voltamos. Afinal de contas, não estamos lidando só com fazendeiros, pecuaristas ou sojicultores, mas contra uma rede internacional que produz veneno”, conta Ariana.

Duas fotos coloridas na comunidade Santo Antônio; na imagem da esquerda, árvore com folhas secas e, na imagem da direita, frutos apodrecendo em galho
Folhas de árvores secando e frutos apodrecendo na Comunidade Santo Antônio após pulverização (Foto: Arquivo Pessoal)

Comunidade Santo Antônio

“Eles dizem que quem manda são eles”, comenta Júlio*, 44 anos, outro dos moradores da comunidade Santo Antônio. Segundo ele, a disputa com o fazendeiro que detém as terras que cercam a comunidade é antiga, com mais de 20 anos. 

Depois da pulverização no dia 10 de abril, houve uma segunda tentativa de voo com drone no dia seguinte, mas que foi impedida pelo protesto da comunidade. Segundo os relatos dos moradores, antes também já haviam ocorrido conflitos com o dono das terras vizinhas, com bastante influência na política local.

Júlio mora com a esposa e seus filhos e, no momento, do ataque químico estava fora trabalhando. Quando chegou em casa, foi direto apanhar uma manga do seu quintal, sem saber sobre a possível contaminação. Depois disso, ele também passou mal.

Em contato com a reportagem do #Colabora pelo WhatsApp, os moradores compartilharam diversas fotos e vídeos que mostram as plantações secando. Bananas, laranja, manga, acerola, feijão, abóbora – todos alimentos essenciais no cotidiano da comunidade – estão se perdendo.

O que diz a prefeitura?

A prefeitura de Duque Bacelar divulgou uma nota no dia 13 de abril em que afirma ter mobilizado diversas ações para atender a comunidade Santo Antônio, incluindo atendimento de saúde para as famílias e vistoria técnica dos pomares e plantações afetados.

A nota menciona a elaboração de um relatório técnico a ser encaminhado para o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). A Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Naturais (SEMA) do Maranhão informou ter feito a coleta de amostras de água dos poços da comunidade para realizar análise em laboratório.

Passado um mês da contaminação, representantes da secretaria de Meio Ambiente de Duque Bacelar e da SEMA pressionam a comunidade a voltar a consumir os alimentos das roças contaminadas. “Teve a agrônoma aqui mandando a gente comer as coisas que estão estragadas”, relata um dos moradores. Isso ocorreu pouco depois de técnicos do Ministério Público identificarem vestígios dos venenos nas plantações.

Contexto

A emergência química que afeta as comunidades rurais do Maranhão faz parte de um contexto de expansão das fronteiras agrícolas na Amazônia Legal e no Cerrado. O estado faz parte da chamada região do Matopiba, acrônimo das siglas de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Dados do MapBiomas indicam que – entre 2015 e 2024 – cerca de 73% da vegetação nativa perdida do Cerrado foram no Matopiba, o que corresponde a 4,7 milhões de hectares. A agropecuária é a principal responsável pelo desmatamento, com destaque para as monoculturas de soja.

A utilização de drones tem acompanhado o crescimento das áreas de lavouras. Entre janeiro de 2023 e janeiro de 2025, a quantidade desses equipamentos registrados na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para fins de pulverização aumentou em mais de dez vezes, passando de 674 para 7.312. Os dados são de levantamento feito pela DW.

*As identidades dos moradores da comunidade serão protegidas para evitar represálias e novas ameaças.

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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