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O problema é o guarda da esquina

E se o pior acontecer? O que esperar do país que sairá das urnas no final de outubro?


Mulher protesta em São Paulo contra o racismo e o preconceito. Foto Miguel Schincariol
Mulher protesta em São Paulo contra o racismo e o preconceito. Foto Miguel Schincariol

Há cinquenta anos, no dia 13 de dezembro de 1968, o presidente Costa e Silva decidiu impor ao país um dos capítulos mais tristes da sua história. O Ato Institucional 5 (AI-5), entre outras coisas, suspendia por dez anos os direitos políticos de qualquer cidadão, proibia as manifestações, censurava previamente jornais, revistas, filmes e músicas e dava ao presidente o poder de legislar por decretos. A única voz a se levantar contra os termos das novas regras de exceção foi a do udenista e então vice-presidente Pedro Aleixo: “Presidente, o problema de uma lei assim não é o senhor, nem os que com o senhor governam o país. O problema é o guarda da esquina”.

Para quem chegou até aqui mas ainda tem dúvidas, este texto não é sobre guardas e esquinas. Ele é sobre o machista, o homofóbico, o preconceituoso e o autoritário que habitam em cada um de nós

A frase entrou para a história e me vem à cabeça sempre que algum amigo, preocupado, me pergunta como seria o Brasil em um eventual governo do capitão Jair Messias Bolsonaro. Bato na mesa três vezes, penso um pouco e faço uma lista das ameaças que esse cenário representaria nas áreas econômica, política, social e ambiental. Só neste último item, os retrocessos são planetários. O deputado ignora o trabalho de 99,9% dos cientistas mundiais e diz que o aquecimento global não existe. E vai mais longe: promete retirar o Brasil do Acordo de Paris, assinado por mais de 190 países. Segundo ele,  o tratado representa uma “ameaça à soberania nacional”. Descarbonizar a economia? Reduzir os subsídios dos combustíveis fósseis? Claro que não. Contra.

Seu plano de governo não tem uma linha sequer sobre o desmatamento da Amazônia ou de qualquer outro bioma nacional. Parece que não é importante. Não há também garantia alguma de que as unidades de conservação sejam mantidas e, muito menos, que novas terras indígenas e quilombolas voltem ser demarcadas. Salve-se quem puder.

Mas apesar de toda a sua falta de propostas, de responsabilidade e de visão do que seja governar um país como o Brasil, as maiores preocupações estão mesmo no campo do simbólico, do intangível. O que a eleição de um candidato que diz não acreditar em direitos humanos, que despreza a Constituição, não confia em urnas eletrônicas e espera resolver os problemas de violência dando uma arma para cada família pode representar no imaginário de uma nação?

Simpatizante de Bolsonaro faz o gesto da arma com a mão e exibe as palavras Deus, Pátria e Família. Foto Miguel Schincariol
Simpatizante de Bolsonaro faz o gesto da arma com a mão e exibe as palavras Deus, Pátria e Família. Foto Miguel Schincariol

Se ele tem o direito de dizer que não vai estuprar uma deputada porque ela não merece, e de chamar um reconhecido torturador de herói, o que esperar do guarda da esquina? Se a Constituição não vale nada, por que respeitá-la? Fico imaginando como ficará a vida do jovem que comete a insanidade de roubar uma bala ou um iogurte no supermercado. Do casal gay apaixonado que decide passear de mãos dadas nas ruas do Centro. Dos estudantes negros cotistas ou mesmo da mulher que resolveu levantar a voz para exigir tratamento digno e direitos iguais. Em um país onde o presidente usa o auxílio moradia para comer gente, conceitos como dignidade, igualdade e humanidade não fazem o menor sentido.

E não vai adiantar explicar, porque isso também não resolve. Nos últimos dias, tenho dedicado parte do meu tempo a mostrar para alguns conhecidos que compartilham notícias falsas nas redes sociais que isso não é bom para ninguém. Nem para eles, nem para quem recebe e muito menos para o país. Me esforço, incluo os links dos sites de checagem, mostro as versões originais que foram alteradas e os danos que as mentiras causam. Tudo em vão. A maioria das respostas que recebo segue a mesma linha: “Eu sei que não é bem assim, mas poderia ter sido e eu acredito”. Com isso, críticos se transformam em apoiadores, atropeladores viram vítimas, ditaduras ganham ares de movimentos cívicos e até Hitler passa a ser um radical de esquerda.

Para quem chegou até aqui, mas ainda tem dúvidas, este texto não é sobre guardas e esquinas. Também não é sobre a luta entre a barbárie e a civilização. Até porque, infelizmente, estamos longe de sermos considerados civilizados. Basta ver os nossos índices de saneamento e o número de brasileiros que ainda passam fome. Ele é sobre o machista, o homofóbico, o preconceituoso e o autoritário que habitam em cada um de nós. Há quem diga que não existe grande diferença entre os candidatos, que muitos são igualmente ruins e radicais, faces de uma mesma moeda. Não é verdade. Há uma linha que não pode e não deve ser ultrapassada. Se não entendermos isso, como diria Leonel Brizola, estaremos costeando o alambrado da democracia e começando a pastar nos verdes campos do retrocesso e da intolerância. #Elenão


Um Comentário

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  1. Perfeito!!! Tbem né pergunto como as pessoas não vêem ou fingem não ver TD q tá aí na cara! Ele fala as coisas como se fosse a coisa mais normal do mundo ser homofóbico, racista e agora deu p negar o que registrado em vídeo, eu sempre me perguntei como as pessoas não notam o que acontecia na Alemanha na época do nazismo, como ele chegou ao poder e infelizmente tô vendo isso ao vivo , é essa falta de empatia com os outros. De se colocar no lugar do outro. Li nos comentários de um post sobre isso uma mulher argumentar apos falarem do holocausto que pelo menos a Alemanha saiu da crise pós guerra, era um preço a ser pago. Ele não!!!!

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