ODS 1


Pessoas em situação de rua esperando para receber pão e café. Foto: João Gabriel Corrêa
Mais perto do que se imagina: a fome dos que vivem em situação de rua
Dados do Cadastro Único mostram que ainda existem mais de 300 mil brasileiros vivendo nas ruas e precisando de ajuda para se alimentar
Numa manhã de segunda-feira, em meio a uma grande fila, com o rosto visivelmente cansado e a barriga roncando, Maria, 19 anos, espera sua vez de pegar um pão e um copo de café, em uma ação de caridade em Campo Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Nesse mesmo horário, uma televisão próxima mostrava um programa que, diariamente, serve uma farta mesa de café da manhã, transmitida para todo o país. Quando chegou a vez de a jovem ser atendida, ela disse à voluntária que a servia: “Com fome, tia, eu como até pedra”.
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Infelizmente, essa é uma cena comum, repetida todos os dias em locais como a Igreja de Santo Antônio, em Campo Grande, que presta serviços de caridade para a população em situação de rua. Lá, além da oferta de banho e café da manhã, o pátio acaba se tornando o ponto de encontro de diversas histórias, daqueles que buscam pelo menos uma refeição no dia.


Há momentos em que ela consegue alugar uma casa com o que recebe mensalmente do Bolsa Família, um auxílio de R$ 600, mas só o aluguel custa em torno de R$ 450. A renda que obtém vendendo balas não é suficiente para complementar o orçamento e conseguir manter uma moradia e uma alimentação dignas, então acaba retornando às ruas. Maria vive nessa situação de idas e vindas desde os oito anos de idade.
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Veja o que já enviamos“Eu recebo R$ 600 reais por mês, mas todo mundo sabe que R$ 600 não dá pra nada, só o aluguel é R$ 450, o arroz tá quase galo (R$ 50), então assim, é bem difícil.”
A pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE mostra que os alimentos mais presentes nas mesas dos brasileiros são o café, o arroz e o feijão. Contudo, esse mesmo levantamento chama atenção para o fato de que outros itens importantes, como ovos, salada crua e carne bovina, acabam distantes das parcelas mais pobres da população, como mostra o gráfico abaixo:


Um estudo realizado pelo programa Polos de Cidadania da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com base em dados do Cadastro Único (CadÚnico), divulgado em abril de 2025, revelou que existem hoje no Brasil cerca de 335.000 pessoas em situação de rua.
“Ninguém está na rua porque quer, alguma situação que levou, e ela acaba se acomodando, ela perde sonhos, ela perde os objetivos, é um dia após o outro”, pontuou Arlete Ferreira, assistente social do projeto de Santo Antônio há cerca de 12 anos.
A fome ronda a rua
Um dos personagens dessa estatística é Salomão, 38 anos, que está em situação de rua há seis anos, e da mesma maneira que Maria, embora receba mensalmente o benefício do Bolsa Família, não consegue o suficiente para sair das ruas. Entre o banho e a fila do café da manhã, ele concordou em conversar sobre sua situação e contou que estava a caminho de uma unidade do CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) para tentar uma vaga em um abrigo.
Para reunir algum dinheiro e buscar uma alimentação mais digna, Salomão faz pequenos bicos. Com a quantia recebida nesses serviços, ele consegue acessar o Restaurante Popular de Campo Grande, comumente conhecido como “Garotinho”, para o almoço.
“Consigo muitas das vezes assim, um trabalho mais informal mesmo do que um formal, né?… às vezes a gente consegue uma capina para fazer, um caminhão de alguma coisa pra poder descarregar.”
Para o jantar, ele conta com a ajuda de carreatas, ou seja, voluntários que com seus carros fazem a distribuição de quentinhas. “É assim quase todos os dias, graças a Deus, né? As almas caridosas que vêm com a carreata, com a distribuição de quentinhas, e assim nós vamos sobrevivendo.”
Mas ainda assim, há dias em que não se consegue nenhum bico, ou essas carreatas não passam, então a solução encontrada é fazer reciclagem de materiais descartados no lixo doméstico. “Tem que recorrer à reciclagem, né? A reciclagem, no caso para comprar alguma coisa para poder comer, para poder ou almoçar no Garotinho ou para guardar um dinheiro para comer alguma coisa à noite, né?”
Apesar das dificuldades, Salomão é esperançoso com relação ao futuro, diz que acredita no seu esforço pessoal e na fé que tem em Deus para uma melhora de vida. Assim como ele, Carlos Eduardo, 33 anos, está na rua há cerca de 11 meses, mas afirma ser um homem sonhador e com força de vontade para crescer e se reerguer. Após romper um vínculo empregatício em que diz ter sido lesado pelo ex-patrão, ele tenta se cadastrar para receber o benefício do Bolsa Família e vende doces na rua para sobreviver.
Como nem sempre o dinheiro das vendas é o suficiente, Carlos se vê obrigado a pedir comida, realidade também enfrentada por Maria, que embora não tenha vergonha de pedir na rua enxerga que outras pessoas não têm essa facilidade.
“Muita gente aí não consegue, não tem esse dom de pedir as coisas para os outros, tem vergonha de pedir… eu acho que vergonha é roubar, entendeu? Mas pedir, não pode ter vergonha porque quem rouba não tem vergonha”, disse Maria.
A assistente social Arlete ressaltou que o preconceito social existente dificulta ainda mais que essa população de rua consiga alguma alimentação, principalmente ao abordar terceiros na rua com intenção de pedir comida. “Eles falam assim: ‘Arlete, às vezes a gente procura, vai falar com alguém, a gente não vai assaltar, a gente quer um lanche, uma comida’, mas as pessoas têm medo, correm, acham que você tá sempre querendo assaltar’ “ , conta.
Tanto Carlos quanto Maria relatam que, quando pedem comida, geralmente o que conseguem é um salgado de lanchonete, no lugar de uma refeição nutricionalmente rica. Enquanto aguardava para entrar na fila e pegar um pão, Carlos contou:
“Uma comida de verdade, um arroz com feijão é um pouco mais difícil, sabe? Mas salgado é o que eu mais como aí”. Isso causa um impacto direto em sua saúde. “Pode ver que eu tô até magro já, tô abatido”, desabafou.


A quantidade de calorias que um ser humano deve consumir diariamente varia de acordo com alguns fatores biológicos particulares de cada organismo como: idade, gênero e composição corporal. Entretanto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece como média padrão de consumo algo próximo entre 2.000 e 2.400 calorias por dia. Logo, um salgado que Carlos consiga na rua, como uma coxinha, que tem entre 200 e 400 calorias, embora sacie sua fome imediata, sob nenhuma hipótese substitui as três refeições balanceadas de cerca de 600 calorias para atingir o valor mínimo necessário.
Tal qual Salomão, ele também mencionou as carreatas como uma oportunidade de comer algo, mas reforçou que dependendo da ocasião os salgados são realmente sua principal refeição. “Às vezes tem pessoas que passa aí, da carreata e coisa e tal, mas nem sempre eu tô por perto, entende? Então, na maioria das vezes, minha comida é o salgado.”
Enquanto isso, Flávio, 45 anos, que atualmente vive em um abrigo, nem assim tem suas refeições garantidas. Embora lá, sejam servidos café da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar e ceia, Flávio revelou que nem sempre chega a tempo do horário em que essas refeições são oferecidas. Quando isso ocorre, é também nas carreatas e trabalhos de caridade que ele encontra sua salvação.
“Quando saio tarde do trabalho, de fazer algum biscate (trabalho informal), e que chega lá depois do horário, não tem como tá se alimentando, tem que obedecer às regras de horário, aí nós vem pra rua pra poder tentar pegar alguma carreata ou algum projeto como esse aqui, pra ter um alimento reforçado”, contou.


E, se você está se perguntando, existem dias que eles não conseguem comer? Sim, existem, sobretudo aos domingos. “Dia de domingo mesmo é ossada, maior dificuldade”, pontuou Carlos. Em dias como esses, Maria comenta que passa mal e fica com a pressão baixa. Por isso Arlete, a assistente social, reforçou a importância da realização do trabalho de caridade às segundas-feiras.
“Essa alimentação é muito voltada para essa população que chega na segunda-feira e vem com muita fome porque, no domingo, não tem ninguém fornecendo comida, né? Então é um dia que eles ficam praticamente sem comer, e quando chegam de manhã para tomar café, eles vêm com fome, sabe assim, precisando muito de uma alimentação mais reforçada”, comentou Arlete.
O projeto da paróquia de Santo Antônio, além de banho e café da manhã, oferece doações de roupa e atendimento médico em parceria com a Prefeitura. Conta com médico, enfermeira e psicólogo, que realizam seu atendimento após a refeição, e o trabalho de assistência que faz o encaminhamento para órgãos de documentação e tenta solucionar outras possíveis demandas.
De acordo com Arlete, o projeto se sustenta com a ajuda de doações de roupas, alimentos, produtos de higiene e o que mais puder somar. “A gente tem doação de alimento, de roupa, produtos de higiene, o comércio local também nos ajuda, temos parceria com padaria que fornece pão todos os dias que têm atendimento de manhã… então a gente tem todo um trabalho realizado com doações”.
Ana Maria Sousa, outra assistente social do projeto há cerca de oito anos, disse que gostaria de poder fazer mais por essas pessoas em situação de rua. “Pessoalmente, eu fico muito emocionada porque, o que eu faço eu acho pouco, acho que a gente poderia fazer mais. Não é você passar a mão na cabeça porque eles não são coitados, mas é você poder ter uma estrutura de qualidade para ter um atendimento de mais qualidade, entendeu?”
Para ela, o que falta de apoio governamental, além de toda a questão estrutural, é a contratação de profissionais mais capacitados e abertos a entender a realidade dessas pessoas em vulnerabilidade social, dispostos a escutá-las para assim encontrar a melhor maneira de ajudá-las. “Quando você passa a entender um pouco o que que é a população em situação de rua, você tem outro olhar, não um olhar de pena, mas um olhar de ser humano mesmo, de igual pra igual.”
(*) Trabalho produzido para a disciplina Reportagem I, do curso de Jornalismo da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), sob a orientação dos professores Luan Pazzini Bittencourt e Marcelo Kischinhevsky.
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João Gabriel Corrêa
João Gabriel Corrêa é jornalista em formação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Residente de Campo Grande, Zona Oeste carioca, tem experiência como repórter na Rádio UFRJ e tem interesse em pautas sociais, culturais e políticas. João enxerga no jornalismo uma forma de perpetuar histórias e dar lugar a narrativas apagadas/ silenciadas.





































