ODS 1
Mais pessoas, mais ideias e maior crescimento econômico significam mais bem-estar?


O desafio do século XXI é garantir um planeta habitável e sustentável, compartilhado de forma justa com todas as pessoas e todas as espécies


“Crescimento pelo crescimento é a ideologia da célula cancerosa”
Edward Abbey (1927-1989)
Uma parcela expressiva dos economistas permanece fortemente orientada ao crescimento econômico, defendendo a ideia de que a expansão contínua da produção de bens e serviços é essencial para aumentar a riqueza das nações. Nesse contexto, o aumento do número de trabalhadores e do estoque de capital físico são vistos como pilares do crescimento.
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Veja o que já enviamosO famoso modelo de Solow (1956) – também conhecido como modelo de crescimento neoclássico – explica como a acumulação de capital físico e a dinâmica populacional determinam o nível de riqueza de uma nação no longo prazo. Mas Solow faz alguns alertas: 1) um alto crescimento populacional reduz a renda por habitante no estado estacionário (steady state); 2) quanto mais capital por trabalhador, maior a produtividade, porém, existe a Lei dos Rendimentos Decrescentes, onde cada unidade adicional de capital gera aumentos cada vez menores na produção.
No modelo original de Solow, o avanço tecnológico é uma variável “mágica” (exógena). É o único fator capaz de gerar crescimento contínuo da renda per capita no longo prazo. Sem avanço tecnológico, a economia eventualmente para de crescer ao atingir o estado estacionário, onde o investimento apenas compensa a depreciação e o aumento da população.
Um modelo mais recente, de Charles Jones (2023) considera que o crescimento da renda per capita depende do estoque total de ideias, que é proporcional ao número de pesquisadores e ao tamanho da população. Neste arcabouço o crescimento populacional negativo pode conduzir à estagnação do estoque de conhecimento e dos padrões de vida, refletindo uma visão clássica da Teoria do Crescimento Endógeno, que pode ser resumida na seguinte lógica: mais pessoas, mais pesquisadores/empreendedores, mais ideias e maior crescimento. Embora o modelo reconheça implicitamente o papel de instituições e incentivos, sua ênfase no tamanho populacional como motor da produção de ideias pode superestimar o papel da demografia isoladamente.
Para Jones, as ideias são bens não rivais. Isso significa que, ao contrário de um pedaço de pão (que só uma pessoa pode comer), uma ideia pode ser usada por bilhões de pessoas simultaneamente sem se esgotar. Se a população cresce, a probabilidade estatística de surgir um “novo Einstein” aumenta. Se a população diminui, a produção de novas ideias teoricamente cai, o que Jones chama de planeta vazio, isto é, “The Empty Planet Result” (o risco de estagnação econômica total).
Portanto, de certa forma, Jones reforça a análise de Julian Simon (1981) que dizia “O recurso final são as pessoas — pessoas habilidosas, cheias de espírito e esperançosas, que exercerão suas vontades e imaginações em seu próprio benefício e, inevitavelmente, para o benefício de todos nós”. Simon também costumava enfatizar: “quanto mais pessoas melhor”.
Contudo, a correlação entre crescimento demográfico, densidade cognitiva e prosperidade econômica não é automática. Existe uma disjunção crítica entre o estoque de conhecimento disponível e sua implementação prática. Do ponto de vista da economia política, nem todas as ideias são produtivas — algumas geram externalidades negativas ou reduzem a eficiência institucional.
Embora modelos teóricos possam tratar a produção de ideias como uma função matemática, a economia política demonstra que a transição do conceito à realidade é obstruída por barreiras institucionais que a demografia, por si só, é incapaz de resolver. Boas ideias frequentemente não superam a inércia do sistema. O conceito de desenvolvimento sustentável, por exemplo, embora consolidado como paradigma teórico catalisador de incríveis ideias, falha em sua aplicação prática, como evidencia o contínuo agravamento da crise ambiental e climática.
Diferentemente da perspectiva de Charles Jones, que trata as ideias como um bem homogêneo e inequivocamente positivo, a crítica desenvolvida pela Escola de Frankfurt revela que a razão e as ideias, quando instrumentalizadas, deixam de ser ferramenta de emancipação para tornar-se mecanismo de dominação. O progresso técnico-racional pode coexistir com a barbárie — e as ideias, longe de serem neutras, frequentemente servem a interesses de poder, legitimando violências e obstruindo o pensamento crítico. Assim, para além das propostas vazias ou impraticáveis, ideologias sectárias, nacionalistas ou fundamentalistas aprofundam impasses econômicos, sociais e institucionais.
Na realidade, as ideias podem se classificar em quatro dimensões problemáticas: 1) destrutivas, quando embasam doutrinas belicistas, armamentistas ou que legitimam a degradação ambiental; 2) divisionistas, ao alimentar fascismos, fundamentalismos, racismo, sexismo, colonialismo, totalitarismo ou teorias da conspiração; 3) paralisantes, caso sustentem burocracias excessivas, moralismos opressores ou lógicas de exclusão social e discursos de ódio; e 4) negacionistas, ao difundirem crenças pseudocientíficas, como o terraplanismo ou a rejeição sistemática às evidências sobre mudanças climáticas.
O crescimento populacional pode aumentar a chance de surgir um “novo Einstein”, mas também de emergir um “novo Hitler”. Existem gênios que trazem ideias iluminadas e outros que trazem ilusão ou destruição. O filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) acreditava que o ser humano, em seu estado primitivo, vivia em harmonia com a natureza, sem as complexidades, as desigualdades e os vícios da sociedade civilizada. Como crítico da ideia de progresso, ele costumava dizer: “A civilização é uma corrida desesperada para descobrir remédios para os males que ela mesma produziu” (Alves, 2023).
Crescimento demográfico versus crescimento da renda per capita
A questão se o crescimento populacional gera mais ideias e maior renda per capita pode ser avaliada com exemplos concretos. Neste sentido, vamos comparar o desempenho, nas últimas cinco décadas, de quatro países com diferentes dinâmicas demográficas e econômicas: Brasil, Paquistão, Polônia e Taiwan.
O gráfico abaixo, com dados da Divisão de População da ONU, mostra a evolução da população dos quatro países entre 1980 e 2030. A população brasileira era de 121 milhões de habitantes em 1980 e deve chegar a 216 milhões em 2030, um aumento de 1,8 vezes em 50 anos. No Paquistão a população passou de 82,3 milhões para 277 milhões no mesmo período, um crescimento de 3,4 vezes em 50 anos.
A população da Polônia era de 35,6 milhões de habitantes em 1980, chegou ao pico de 38,4 milhões em 1995 e deve diminuir para 37,2 milhões de habitantes em 2030, com um crescimento de 1,05 vezes em 50 anos. A população de Taiwan era de 18,1 milhões de habitantes em 1980, chegou ao pico de 23,6 milhões em 2019 e deve diminuir para 22,6 milhões de habitantes em 2030, com um crescimento de 1,2 vezes em 50 anos.


Portanto, o Brasil e o Paquistão apresentaram o maior crescimento demográfico, enquanto os outros dois países tiveram baixa variação do número de habitantes, sendo que a população da Polônia já está diminuindo desde 1995 e a população de Taiwan está diminuindo desde 2019.
O gráfico abaixo, com dados do FMI, mostra a renda per capita, em preços constantes e em poder de paridade de compra (ppp), para os 4 países de 1980 a 2030. Os países com os maiores aumentos do número de pessoas (e ideias) não foram os que apresentaram melhor desempenho socioeconômico.
Em 1980, o Brasil tinha uma renda per capita de US$ 13,7 mil aproximadamente a mesma renda da Polônia e um valor bem acima das rendas do Paquistão e de Taiwan. A estimativa do FMI indica uma renda média brasileira de US$ 22 mil em 2030, um crescimento de 1,6 vezes em 50 anos.
A Polônia tinha uma renda per capita de US$ 14,3 mil em 1980 e manteve uma paridade com a renda brasileira até meados da década de 1990. Porém, foi após o decrescimento populacional que a Polônia iniciou um processo de rápido crescimento da renda per capita, que deve chegar a US$ 55 mil em 2030. Ou seja, a renda per capita da Polônia mais do que triplicou nas três décadas de decrescimento demográfico, mostrando que a diminuição do número de pessoas não impediu o progresso socioeconômico.
Taiwan tinha uma renda per capita de US$ 9,1 mil em 1980 (abaixo da renda do Brasil e da Polônia) mas apresentou um grande crescimento até atingir US$ 58 mil em 2019 e mesmo com o decrescimento populacional deve chegar a US$ 81 mil em 2030. Ou seja, durante 50 anos, Taiwan apresentou baixo crescimento demográfico e alto crescimento econômico.


A população do Paquistão ultrapassou a população Brasileira e está se aproximando de 300 milhões de habitantes e já é o 5º país mais populoso do mundo, porém apresenta uma renda per capita muito baixa, mesmo quando comparada ao Brasil. O Paquistão tinha uma renda per capita de US$ 2,5 mil em 1980 e deve até chegar a US$ 6,7 mil em 2030, um crescimento de 2,7 vezes em 50 anos. A renda per capita paquistanesa cresceu mais rápido do que a renda per capita brasileira, mas está cada vez mais distante das rendas da Polônia e de Taiwan.
Isto quer dizer que o alto crescimento demográfico do Paquistão não favoreceu o crescimento da renda e do progresso social e o decrescimento populacional da Polônia e de Taiwan não inviabilizou o aumento da renda per capita e do bem-estar. Em 1980, em relação ao Paquistão, a Polônia tinha uma renda per capita 5,8 vezes maior e passou para 8,3 vezes em 2030 e Taiwan tinha uma renda 3,7 vezes maior e passou para 12,2 vezes em 2030.
Naturalmente, renda per capita não é sinônimo de bem-estar — desigualdade, saúde mental, tempo livre e qualidade ambiental também importam — mas é um indicador razoável para comparações internacionais de longo prazo
Sem dúvida, a transição demográfica (redução das taxas de mortalidade e natalidade) ajudou a Polônia e Taiwan enquanto o Paquistão está ainda preso na “armadilha da pobreza” e o Brasil está preso na “armadilha da renda média”. A transição demográfica é um pré-requisito fundamental para a prosperidade nacional, mas não é um fenômeno suficiente para vencer a pobreza e a fome. Ela tem que ser acompanhada por outras transformações econômicas, sociais e políticas.
O papel da Inteligência Artificial, da automação e da robótica
O modelo de Jones (2023), que relaciona crescimento do número de pessoas e pesquisadores ao crescimento da renda per capita, não se sustenta na realidade da dinâmica sociodemográfica dos países (como mostrado nos exemplos acima) mas também é um arcabouço que não leva em conta o rápido desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA), da automação e da robótica.
Jones argumenta que “Sem crescimento populacional e econômico, não teríamos os recursos nem a ciência para sequer entender o aquecimento global, quanto mais combatê-lo. A estação espacial, os satélites que medem CO₂, os modelos climáticos — tudo isso exigiu milhões de cérebros trabalhando por séculos”.
Porém é preciso considerar que foi o alto crescimento demográfico e econômico dos últimos 250 anos, apoiado em um padrão histórico de crescimento intensivo em carbono, que criou os problemas do aquecimento global e da sexta extinção em massa das espécies. Ou seja, o progresso cria males que não existiam antes. E estes males se tornam uma ameaça existencial à civilização humana.
A grande preocupação de Jones é com a escassez de ideias (cérebros) e com a falta de braços (trabalhadores) para sustentar a economia global e o progresso civilizacional. Todavia estas “carências” podem ser adequadamente substituídas pela IA, automação e robótica.
Um contingente relativamente restrito de pesquisadores — na casa dos milhões, e não dos bilhões — pode gerar uma oferta virtualmente ilimitada de ideias aplicáveis à produção de bens e serviços com o auxílio da Inteligência Artificial. A IA já demonstrou eficácia na resolução de problemas práticos e no incremento da eficiência econômica. Embora a tecnologia ainda dependa, em certa medida, do estoque prévio de conhecimento humano e possa vir a enfrentar rendimentos decrescentes, o salto qualitativo recente sugere uma autonomia crescente. A IA tende a reduzir a dependência do crescimento populacional como motor da inovação.
O sistema AlphaFold, da DeepMind (Google), ilustra esse avanço ao resolver o complexo problema do dobramento de proteínas com escala e precisão inéditas. Os otimistas comemoram, mas diante desse cenário, surgem visões pessimistas sobre o papel do ser humano: o escritor Yuval Noah Harari, em sua obra Nexus, chega a sugerir a obsolescência humana ao afirmar que “a IA vai vencer e a humanidade vai perder”.
A escassez de força de trabalho (falta de braços) pode encontrar uma solução definitiva na universalização da automação e no uso intensivo de robôs. No domingo, 19 de abril de 2026, assistimos a um marco histórico: pela primeira vez, um robô superou o recorde humano em uma meia-maratona, registrando o tempo de 50 minutos e 26 segundos. A marca é notavelmente inferior ao recorde mundial do ugandense Jacob Kiplimo, que detém o tempo humano de aproximadamente 57 minutos. Esse desempenho representa um salto tecnológico colossal em relação à edição inaugural do evento, em 2025, quando o protótipo vencedor concluiu a prova em 2 horas, 40 minutos e 42 segundos.
Essa façanha sinaliza o início de uma nova era, evidenciando a superação das capacidades humanas por máquinas em tarefas de alta complexidade física — algo que, até pouco tempo, era restrito à ficção científica. Nas fábricas escuras (dark factories), totalmente automatizadas, a linha de produção opera praticamente sem iluminação, pois os robôs fazem todo o trabalho, orientados por sensores, câmeras, scanners a laser e sistemas centrais de controlo com suporte de IA. Esse fenômeno não se limita ao esporte e ao sistema fabril. Na esfera geopolítica e militar, drones e robôs autônomos já substituem tropas em conflitos armados.
Em última análise, a convergência entre robótica e Inteligência Artificial tende a reconfigurar o sistema produtivo global, impondo desafios éticos e sociais severos, mas também descortinando oportunidades inéditas de progresso econômico, bem-estar social e sustentabilidade ambiental. O século XX foi marcado pela crença de que escala gera progresso. O século XXI sugere o contrário: que o futuro dependerá menos de quantas pessoas existem e mais de como ideias — humanas e artificiais — são direcionadas, reguladas e aplicadas dentro dos limites do planeta.
A inovação tecnológica (IA) rompe o vínculo entre população e produção de ideias, e a automação e a robótica rompem o vínculo entre população e capacidade produtiva. Pela primeira vez na história, o progresso econômico pode se dissociar do crescimento populacional — tanto do ponto de vista da geração de ideias quanto da oferta de trabalho. Se, no passado, a escassez de cérebros limitava a inovação e a escassez de braços limitava a produção, a atual revolução científica e tecnológica altera simultaneamente essas duas restrições.
Em suma, a trajetória de nações como Taiwan e Polônia demonstra que o destino econômico de um país não está selado pela sua demografia, mas sim pela sua capacidade de converter inovação em ganhos de produtividade e bem-estar social. A crença de que precisamos de uma população em expansão perpétua para gerar ideias ignora tanto os limites biofísicos do planeta, quanto a ascensão da Inteligência Artificial — que desvincula a inovação dos limites biológicos individuais.
Se, como disse Rousseau, a civilização é uma corrida para remediar os males que ela mesma criou, a solução não reside em acelerar o passo com mais pessoas e consumo, mas em redirecionar o gênio humano (e artificial) para um modelo de prosperidade que privilegie a eficiência sobre a escala e a regeneração ecológica sobre a acumulação. O desafio do século XXI não é evitar um “planeta vazio”, mas garantir uma Terra habitável e sustentável, compartilhada de forma justa com todas as pessoas e todas as espécies.
Referências:
ALVES, JED. Precisamos buscar os remédios para os males que produzimos, # Colabora, 18/12/2023
JONES, Charkes. The outlook for long-term economic growth. NBER Working Paper, n. 31648, 2023.
https://www.nber.org/system/files/working_papers/w31648/w31648.pdf
SIMON, Julian Lincoln. The Ultimate Resource. Princeton, N.J.: Princeton University Press, 1981
https://press.princeton.edu/books/ebook/9780691214764/the-ultimate-resource-2-pdf
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José Eustáquio Diniz Alves
José Eustáquio Diniz Alves é sociólogo, mestre em economia, doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar/UFMG), pesquisador aposentado do IBGE, colaborador do Projeto #Colabora e autor do livro "ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século" (com a colaboração de F. Galiza), editado pela Escola de Negócios e Seguro, Rio de Janeiro, 2022.




































