Foto colorida de Transexuais, travestis e apoiadores participam da segunda edição da Marcha Trans e Travesti, em mobilização por direitos, no centro do Rio de Janeiro

Se a extrema-direita voltar ao poder, a população trans corre riscos inimagináveis

Direitos da população LGBT+ têm sido sistematicamente atacados pelo bolsonarismo. Risco maior é o aumento da violência

Por Caê Vasconcelos | Artigo, ODS 10

Publicado em 21/10/2026 - 09h30

Tempo de leitura: 6 min

Eu me lembro com clareza do dia seguinte à eleição presidencial de 2018. Nunca tinha sentido tanto medo como senti ali. Sair de casa foi uma tarefa muito difícil. Não que ser um corpo LGBT+ no Brasil fosse fácil antes. Nunca foi. Mas as incertezas do futuro quase me paralisaram.

Transformei aquele medo em combustível para o meu jornalismo. Tinha acabado de me formar e fazia parte da equipe da Ponte Jornalismo, que não poupou esforços para mostrar o avanço do bolsonarismo.

Quando a extrema-direita esteve no governo federal, a gente viu na prática o que acontece com a população LGBT. O Brasil já é o país que mais mata pessoas trans no mundo. Em vez de políticas de proteção, vimos discursos oficiais que tratavam nossa existência como piada, ideologia ou ameaça.

É impossível esquecer Damares Alves, então ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, dizendo que “meninas vestem rosa e meninos vestem azul”. Muita gente achou que era sobre roupa. Não era. Era um ataque direto às pessoas trans.

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Mesmo sem ganhar a presidência, o bolsonarismo já aprova leis anti-trans em estados e câmaras municipais. Nos últimos oito anos, impulsionados pela permissividade, mais de 300 projetos de lei anti-LGBT foram apresentados no Brasil, a maioria contra pessoas trans. E eles não ficaram só no papel: cerca de 80 leis anti-trans já estão em vigor em estados e municípios.

São leis que proíbem pessoas trans de usar banheiros públicos, praticar esporte, usar o nome social nas escolas, falar de identidade de gênero na educação e usar a linguagem neutra. Todas as proibições têm o mesmo objetivo: negar que pessoas trans existem. Já vemos na prática decisões como essas, como a proibição da CBV que impede que Tifanny Abreu atue pelo Osasco Voleibol Clube após 10 anos no vôlei feminino.

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Esse direito básico, de existir, ainda é uma luta diária. E ele depende muito de quem está no poder. Todo mundo deveria ter o direito de viver sem medo de ser quem é. De andar na rua, trabalhar, estudar, amar e simplesmente existir. Mas, quando somos governados por um lado que autoriza a violência, tudo fica em risco.

Em um eventual governo da extrema-direita em 2026, o risco maior é a retirada de direitos que demoraram décadas para serem conquistados.

O primeiro é o direito ao nome. Hoje, depois de anos de luta, pessoas trans podem mudar nome e gênero no cartório sem precisar de laudo médico ou juiz. Com o retorno da extrema-direita, projetos que tentam proibir ou dificultar isso voltam com força, como o que queria proibir o uso do nome social nas escolas. Parece burocracia, mas é sobre uma pessoa trans ser chamada pelo nome certo no trabalho, na fila do SUS, na escola. É sobre dignidade.

O segundo é a saúde. O SUS garante hormonioterapia e cirurgia pelo Processo Transexualizador. São políticas que salvam vidas, porque reduzem depressão e risco de suicídio. Quando a saúde LGBT é tratada como “ideologia”, o orçamento some, os ambulatórios fecham e a fila, que já é de anos, fica ainda maior. É uma pessoa que espera 5 anos por um atendimento e ouve que seu cuidado não importa.

Por fim, e mais grave, é a segurança. Há quase 20 anos o Brasil lidera o ranking de assassinatos de pessoas trans. Em 2019, o STF criminalizou a LGBTfobia justamente porque a violência existe. Quando o governo acaba com conselhos que monitoram esses crimes e minimiza a violência, o recado que chega na rua é: pode agredir. E a agressão acontece.

Não existe uma lei no Congresso que proteja pessoas LGBTs hoje. As poucas vitórias vieram do STF, como o casamento entre pessoas do mesmo gênero.

Crescer sem poder sonhar é o que muitas pessoas LGBTs viveram, inclusive eu. A gente não pode voltar para um tempo em que o Estado dizia que meu nome não deveria ser respeitado e que qualquer violência que meu corpo sofresse não seria vista.

Nada disso é sobre privilégio. É sobre o básico: poder trabalhar, estudar, amar e voltar vivo para casa.

Quando direitos, democracia e diversidade estão em jogo, a escolha tem consequência na vida de alguém que você ama.

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Caê Vasconcelos

Caê Vasconcelos é jornalista, homem trans, bissexual, cria de Vila Nova Cachoeirinha, periferia da zona norte de São Paulo, e autor do livro "Transresistência".

Foi o primeiro jornalista trans da bancada do Roda Viva, na entrevista com Erika Hilton em 2021, e o primeiro jornalista trans da história da redação da ESPN Brasil, na primeira passagem em 2022.

Atualmente, faz parte do núcleo digital da ESPN e é comentarista do "Mina de Passe", primeiro programa focado em futebol feminino do Brasil.

Atuou como roteirista e apresentador do programa "PraVariar", da DiaTV, e colunista da Revista AzMina. Foi repórter de segurança pública, direitos humanos, política e cultura na Ponte Jornalismo, Agência Mural de Jornalismo das Periferias e UOL Notícias.

Caê Vasconcelos

Caê Vasconcelos é jornalista, homem trans, bissexual, cria de Vila Nova Cachoeirinha, periferia da zona norte de São Paulo, e autor do livro "Transresistência".

Foi o primeiro jornalista trans da bancada do Roda Viva, na entrevista com Erika Hilton em 2021, e o primeiro jornalista trans da história da redação da ESPN Brasil, na primeira passagem em 2022.

Atualmente, faz parte do núcleo digital da ESPN e é comentarista do "Mina de Passe", primeiro programa focado em futebol feminino do Brasil.

Atuou como roteirista e apresentador do programa "PraVariar", da DiaTV, e colunista da Revista AzMina. Foi repórter de segurança pública, direitos humanos, política e cultura na Ponte Jornalismo, Agência Mural de Jornalismo das Periferias e UOL Notícias.

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