É difícil começar um texto desse tipo de modo que não soe catastrófico. Mas é isso. Se Flávio Bolsonaro for eleito, a grande tendência é que seja mais um governo catastrófico para a cultura no Brasil. Ele diz que vai se inspirar nos anos de presidência do pai, e sabemos muito bem como aquela época foi difícil. Então, não é complicado imaginar o futuro na área.
Vocês se lembram?
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Para dar só um exemplo, talvez o caso mais bizarro (entre os tantos que tivemos na época) tenha sido o de Roberto Alvim, que foi secretário por apenas 71 dias. Ele divulgou um vídeo institucional reproduzindo trechos de um discurso de Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista.
Eu não esqueci.
Não esqueci que em 2022, ainda durante a pandemia, Jair Bolsonaro vetou integralmente as leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc 2. A primeira previa cerca de R$3,86 bilhões para enfrentar os efeitos da pandemia, já a segunda estabelecia uma política continuada de fomento. O congresso derrubou os vetos. Os dois artistas que deram nomes às leis morreram pela Covid durante aquele período.
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Há muitas outros acontecimentos ruins, como a perseguição a liberdade de fazedores de cultura e artistas, a censura a projetos com a temática LGBTQIA+ (muitos casos inclusive mapeados pelo Observatório de Censura à Arte, iniciativa que idealizamos no Nonada), o esvaziamento da Ancine, a crise na Cinemateca Brasileira, a tentativa de expurgo de livros da Fundação Cultural Palmares. E eu nem citei o uso de critérios políticos e religiosos na análise de projetos na famigerada Lei Rouanet.
Tanto que, durante boa parte do governo Lula, a palavra “reconstrução” foi uma das mais pronunciadas: reconstruir o Ministério da Cultura e as políticas públicas da área, trazer de volta a valorização da cultura popular, da memória e do patrimônio material e imaterial. Um ponto marcante também foi a discussão sobre a intersecção entre cultura e clima, que culminou, entre outras coisas, em diversas discussões na COP30, no ano passado, em Belém, no Pará.
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Veja o que já enviamosPara onde vai esse trabalho todo se Flávio Bolsonaro se eleger presidente?
Certamente, as discussões não vão acabar, porque uma palavra que o povo da cultura sempre soube conjugar foi resistência. Mas cansa. E falo aqui como jornalista que trabalha na área, como diretor de uma organização que trabalha com cultura, jornalismo e educação e também como produtor cultural.
Quando um governo não valoriza as diferentes memórias que ajudam a formar as identidades e as culturas de um país, restringe também o espaço para a diversidade de pensamentos e de entendimentos sobre o Brasil e os brasileiros. Como por exemplo, a ideia de que a cultura também é fundamental para a economia e para o bem viver.
A Lei Rouanet contribui para a criação de diversos postos de trabalho a cada ano, sustentando vidas e histórias. Os editais e as diversas leis de cultura também ajudam toda a cadeia cultural, que, por sua vez, influenciam muito na vida financeira do país.
Mas o plano de Flávio dedica pouco espaço à cultura. E isso diz muito.
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