Futuro da educação será decidido nas urnas: o que dizem os planos de Flávio Bolsonaro e Lula?

Duas fotos coloridas de uma menina branca loira, segurando um exemplar da Constituição do Brasil em manifestação de apoiadores de Lula
Duas fotos coloridas de uma menina branca loira, segurando um exemplar da Constituição do Brasil em manifestação de apoiadores de Lula
Menina levantando a Constituição durante manifestação de apoiadores de Lula (PT) em Natal no último sábado (10); imagem viralizou nas redes (Foto: Reprodução)

Propostas do candidato do PL atacam professores e falam em doutrinação, além de incluir a retirada das universidades do MEC

Por Valquiria Daher | Artigo, ODS 4

Publicado em 15/10/2026 - 09h30

Tempo de leitura: 8 min

As propostas do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro para a educação parecem um manifesto do movimento Escola sem Partido – lembram dele? No Dia dos Professores, não há como não interpretar o texto registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) como um ataque a quem pratica o magistério. “(…) Voltamos a colocar a família no centro das políticas públicas e a defender uma escola que ensina, e não que doutrina, respeitando os valores que os pais passam em casa”, consta na página 34.

Tem mais logo a seguir: “A educação será orientada pelo conhecimento e livre de doutrinação político-partidária, respeitando a liberdade de consciência e o papel das famílias. Escola é lugar de aprender a pensar, não de aprender o que pensar, e quem decide sobre os valores que o filho recebe são os pais”.  

Não tem uma palavra sobre valorização dos professores, melhoria das condições de trabalho, apenas sobre formação:, mas sem tirar o foco da suposta “doutrinação”: “Os professores terão qualificação contínua baseada em evidências científicas, e não em modismos pedagógicos, com formação que os prepare para ensinar bem, e não para militar em sala de aula” (veja página 35). Um ataque não só ao ensino básico como ao superior, envolvido nos cursos de pós-graduação para docentes.  

O Brasil tem 2,4 milhões de professores para cerca de 46 milhões de estudantes, segundo o Censo da Educação Básica. A maior parte são mulheres, provavelmente com dupla jornada (casa e trabalho) e baixos salários. Pensar só em qualificação e não na melhoria da qualidade de vida desses profissionais é injusto.

Iniciativas como o Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu para a Qualificação de Professores da Rede Pública de Educação Básica (ProEB) oferecem não somente o mestrado profissional como a possibilidade de bolsas via Capes, além da saudável convivência entre professores ensino básico e das universidades.

Nas proposta de Lula para o quarto mandato estão, ao menos, a garantia de manutenção do Piso Nacional do Magistério – ainda longe do ideal, mas um grande passo – e a continuidade de programas como o Pé-de-Meia Licenciatura, que oferece bolsas a quem cursar licenciatura, e do Mais Professores – um tipo de “Mais Médicos” para a educação. 

E ainda que não fique claro o que o programa de Bolsonaro quer dizer com “qualificação continuada com bases em evidências científicas”, a formação dos professores tem sim evoluído. O percentual de docentes com pós-graduação passou de 44,7% para 48,1% entre 2021 e 2025, e o daqueles com formação continuada pulou de 40% a 44,7% no mesmo período, segundo o Censo da Educação. 

Ainda a doutrinação

Com uma introdução ainda ligada ao campo ideológico, o texto das propostas do candidato do PL incluem a ampliação das escolas cívico-militares, “por unirem disciplina e bom desempenho”. Outro ponto que chama a atenção é a alfabetização.

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Alfabetizar na idade certa é prioridade nas propostas dos dois candidatos, mas a grande aposta de Flávio Bolsonaro parece a adoção exclusiva do método fônico – a associação da letra (grafema) ao seu som (fonema) – como proposto no governo de seu pai, com resultados difíceis de medir por conta da pandemia.

A adoção de um só método, no entanto, divide educadores e o debate, infelizmente, se tornou polarizado. Já a proposta de Lula é a continuidade do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, uma união entre estados e municípios, que parece estar dando resultados: a porcentagem de crianças alfabetizadas no segundo ano subiu de 59% em 2024 para 66% em 2025. Há, no entanto, críticos às formas de avaliação que chegaram a esses resultados. 

Bolsonaro quer tirar as universidades do MEC

No ensino superior, que perdeu quase R$ 10 bilhões durante a gestão de Jair Bolsonaro, a proposta do atual candidato do PL é tirar as universidades federais do Ministério da Educação (MEC) e passar ao Ministério da Ciência e Tecnologia. A justificativa é “unificar ciência e ensino superior sob o mesmo teto”, mas há receio que as universidades fiquem fora do piso constitucional que garante valor mínimo para educação em relação às receitas federais.

O programa ainda afirma que Capes e CNPq vão priorizar o impacto produtivo para que a “universidade chegue à indústria e vire produto, emprego e renda, em vez de ficar na estante”, o que – mais uma vez – soa como uma crítica aos professores, desta vez do ensino superior. Ninguém discute a importância da produção de tecnologia e da colaboração entre o conhecimento produzido no ensino superior e a economia, mas o texto ignora a importância das ciências humanas, mas não só: despreza a ciência básica – que resultou nos prêmios Nobel de Medicina e Física deste ano, só para usar um exemplo recente. . 

As propostas de Bolsonaro também ignoram as muitas histórias de sucesso do Fies (Fundo de Financiamento Estudantil) e do Prouni e promete trocá-los pelo Empréstimo Contingente à Renda, com a promessa de que “o estudante só começa a pagar quando estiver empregado e ganhando, o valor da parcela é proporcional ao que ele recebe e o prazo é bem mais longo”. A grande dúvida é como isso será financiado mesmo com os cortes de gastos – outra promessa de Flávio Bolsonaro.  

Educação e ciência são áreas estratégicas para o futuro do Brasil e, talvez, sejam determinantes para a decisão na hora das urnas. Ler e interpretar as entrelinhas dos programas de governo é só uma parte do dever de casa que precisamos fazer no Dia do Professor. 

Programa Flávio Bolsonaro

Programa Lula

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Valquiria Daher

Formada em Jornalismo pela UFF, trabalhou em diferentes jornais no Rio de Janeiro, como "Jornal do Brasil", "O Dia" e "O Globo", onde foi editora da "Revista da TV" e de outros suplementos dedicados a educação e comportamento. Está no #Colabora desde a sua fundação, em 2015, desempenhando diferentes funções. Hoje é editora-executiva da revista de divulgação científica "Ciência Hoje" e segue no #Colabora como conselheira.

Valquiria Daher

Formada em Jornalismo pela UFF, trabalhou em diferentes jornais no Rio de Janeiro, como "Jornal do Brasil", "O Dia" e "O Globo", onde foi editora da "Revista da TV" e de outros suplementos dedicados a educação e comportamento. Está no #Colabora desde a sua fundação, em 2015, desempenhando diferentes funções. Hoje é editora-executiva da revista de divulgação científica "Ciência Hoje" e segue no #Colabora como conselheira.

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