Cientistas divulgam carta em defesa da democracia e contra o retorno da “balbúrdia”

Grupo de mulheres negras cientistas, em laboratório do Cetene - Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste. Cientistas divulgam carta em defesa da democracia
Grupo de mulheres negras cientistas, em laboratório do Cetene - Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste. Cientistas divulgam carta em defesa da democracia
Cientistas do Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste; carta alerta para riscos da eleição de um negacionista da ciência como Flávio (Foto: Divulgação / CETENE)

Carta assinada por diversas entidades ligadas à ciência alerta para os retrocessos de um novo governo de extrema-direita no país

Por Micael Olegário | ODS 16

Publicado em 20/10/2026 - 10h00

Tempo de leitura: 7 min

A eleição do próximo domingo (25/10) será decisiva para o futuro das diferentes ciências produzidas no país. Por isso, pesquisadoras, pesquisadores, professoras, professores, estudantes e profissionais da educação e da ciência assinam uma carta em defesa da democracia e do futuro do Brasil.

O documento, divulgado na quinta-feira (15/10), conta com apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), da Academia Brasileira de Ciências (ABC), da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES), da União Nacional dos Estudantes (UNE), entre outras entidades educacionais e científicas.

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“Muitos de nós somos a primeira geração da família a entrar numa universidade. Aprendemos a ler na escola pública, estudamos com bolsas, pesquisamos em laboratórios financiados pelo povo brasileiro. Não falamos de cima: falamos de dentro. E, se você pensa diferente de nós, leia mesmo assim, o que defendemos protege também o seu direito de discordar”, diz um trecho da carta.

A manifestação relembra ataques sofridos por cientistas e pesquisadores no governo de Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe de Estado. Em um dos casos mais emblemáticos, o então diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Ricardo Galvão, foi demitido, porque o presidente negava os dados de desmatamento recordes de sua gestão.

“Na pandemia, tratamentos sem eficácia comprovada foram promovidos publicamente enquanto vacinas e recomendações científicas eram desacreditadas, essa conta foi paga em velórios”, relembram os cientistas. O documento cita ainda os ataques às universidades – acusadas de “balbúrdia” -, às urnas eletrônicas e às instituições democráticas em geral.

No último sábado (17), uma outra carta foi apresentada em defesa da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e contra o retorno da extrema-direita. O documento é assinado por ex-ministros de Fernando Henrique Cardoso, pela filha de FHC e por nomes como o climatologista Carlos Nobre e o diplomata Rubens Ricupero.

Diferenças na atenção à ciência

A família Bolsonaro nunca escondeu seu desprezo pela educação e pelo trabalho de cientistas. No poder, a extrema-direita asfixiou a produção de conhecimento no país, principalmente, com cortes nos recursos para pesquisas. Até a metade de 2019, Jair já havia cortado 6.198 bolsas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

“A ciência avança onde se pode perguntar, verificar e corrigir. Foi ela que ajudou a transformar a agricultura, a extrair petróleo em águas profundas, a produzir vacinas em instituições públicas e a antecipar secas e enchentes, e dela dependem respostas para as mudanças do clima, para a inteligência artificial e para as transformações do trabalho”, aponta outro trecho da carta em defesa da democracia e ciência.

Em fevereiro de 2023, logo após o início do atual governo de Lula, as bolsas de mestrado e doutorado foram reajustadas em 40%, após 10 anos de valores congelados. No mestrado, o valor passou de R$1.500 para R$2.100 e, no doutorado,  de R$2.200 para R$3.100.

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Em seu plano de governo, o candidato Flávio Bolsonaro (PL), filho e herdeiro do projeto político de Jair, afirma querer transferir as universidades para o Ministério da Ciência e Tecnologia. A medida possui um verniz de integração entre ensino superior e ciência, mas ameaça diretamente o orçamento das instituições, uma vez que, ficariam fora do piso constitucional destinado à educação.

Foto colorida de motociata do candidato Flávio Bolsonaro, em Marabá (PA). Na imagem, Flávio aparece ao fundo, em um trio elétrico, ao lado de apoiadores, que fazem 22 com as mãos.
Em Marabá (PA), Flávio atacou a legislação ambiental e prometeu enfraquecer ainda mais a proteção ao meio ambiente (Foto: Vittor Sales/Campanha Flávio Bolsonaro)

Abaixo-assinado de cientistas ambientais

Além do documento apresentado pela SBPC e outras entidades, um abaixo-assinado criado por cientistas ambientais e socioambientais do Brasil alerta para o risco de enfraquecimento das políticas de prevenção de desastres, proteção de ecossistemas e enfrentamento das mudanças climáticas, caso a extrema-direita saia vitoriosa no dia 25.

O documento traz um histórico do negacionismo no governo anterior de um Bolsonaro no Brasil. A partir desse histórico, o posicionamento de cientistas ambientais cita cinco impactos prováveis, caso o filho de Jair chegue ao Executivo: comida mais cara: menos água; mais crimes ambientais; mais desastres e mais desigualdades.

Levantamento do Fakebook.eco mostra como Flávio Bolsonaro mente ou distorce a ciência em todas as vezes que fala sobre clima e meio ambiente. Em um dos recentes episódios de negacionismo do candidato do PL foi durante entrevista ao Jornal Nacional antes do 1° turno, quando negou o aquecimento global.

Nesta segunda-feira (19/10), em campanha em Marabá (PA), Flávio fez mais um ataque à legislação ambiental brasileira. Ele declarou que pretende acabar com “entraves ambientais”, para que o proprietário rural possa fazer “o que quiser na sua terra”.

“A quem votou em Flávio Bolsonaro no primeiro turno, mudar de escolha diante dos fatos é um gesto de coragem e responsabilidade. A quem não foi votar, pedimos que participe desta decisão. No dia 25 de outubro, vote contra o negacionismo e em defesa da vida, da ciência e do futuro do Brasil. Não anule seu voto, não se omita. A ciência e o meio ambiente estão em disputa, e o que está em jogo é a vida de todos nós”, diz um trecho do abaixo-assinado.

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Repórter e coordenador de conteúdo e distribuição do #Colabora - Jornalismo Sustentável. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Natural de Caibaté (RS), possui experiência na cobertura das inundações de 2024 no Rio Grande do Sul e da COP30, em Belém (PA). Tem interesse por temas como crise climática, antropoceno, decolonialidade e acessibilidade.

Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Repórter e coordenador de conteúdo e distribuição do #Colabora - Jornalismo Sustentável. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Natural de Caibaté (RS), possui experiência na cobertura das inundações de 2024 no Rio Grande do Sul e da COP30, em Belém (PA). Tem interesse por temas como crise climática, antropoceno, decolonialidade e acessibilidade.

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