Das datas que marcam a história do Rio de Janeiro, gosto de pensar que o dia 24 de julho tem um espaço na minha trajetória. Memorado em 24 de julho, o Dia Municipal da Comunicação Popular, faz tributo a homenagem ao Vito Giannotti, metalúrgico e referência na luta pela comunicação didática e popular da classe trabalhadora. Em tempos de disputa de narrativas, a data nos remete a uma lembrança necessária: muito antes de a agenda climática chegar às favelas, jornais e congressos feitos por moradores já disputavam quem tem o direito de descrever e de permanecer no próprio território.
O papel está amarelado e datilografado, com as letras batendo desalinhadas. Ele veio do acervo de Sérgio Canda, morador do Jacarezinho favela da zona Norte do Rio de Janeiro – RJ, ativista dos movimentos sociais e de favelas desde o início dos anos 1970 e artista visual que ajudou a criar jornais comunitários no Jacarezinho e em várias outras favelas do Rio de Janeiro. O documento reúne as conclusões do I Congresso Comunitário do Jacarezinho, realizado nos dias 4, 5 e 6 de março de 1983, e o primeiro tema da pauta, antes de moradia, de saneamento e de programas de governo, era “Conceitos e Preconceitos sobre Favelas e Favelados”. Antes de poder exigir infraestrutura, a favela precisou disputar a própria descrição.
O que aqueles moradores escreveram tem uma clareza que a política pública ainda não alcançou. Segundo o documento, “a marginalização das favelas não tem sido provocada pelos favelados, mas sim pelos poderes públicos que, não se dispondo a enfrentar os problemas de moradia e transportes, tem deixado como único caminho de sobrevivência para as grandes massas trabalhadoras as formações de núcleos habitacionais independentes”. No mesmo texto, eles registravam um bairro “absolutamente carente de sistemas básicos de saneamento, de qualquer planificação urbana ou previsão de crescimento demográfico”, que sobrevivia pela solidariedade entre seus membros, e faziam questão de dizer que essa solidariedade “não tem sido suficiente”. Ou seja, não estavam romantizando a rede de cuidado que os mantinha de pé, estavam denunciando tudo aquilo que ela era obrigada a suprir.
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Veja o que já enviamosDois anos antes daquele congresso, em novembro de 1981, já circulava no Rio um jornal cujo lema era “a voz dos favelados pelo direito à favela”. A frase carregava duas afirmações incômodas para a cidade formal. A primeira era assumir como identidade política a palavra favelado, que a imprensa vinha carregando de estigma. A segunda, mais ousada, era afirmar que existe direito à favela, num momento em que tudo o que se oferecia aos moradores era o direito de sair dela, de ser reassentado, de ser melhorado em outro lugar.
O Favelão nasceu da necessidade, que foi a luta contra a remoção do Morro do Vidigal, em 1978. O Vidigal fica na Zona Sul, numa região onde a mata, o mar e a vista se convertem em valor imobiliário, mas o argumento oficial da remoção não falava de mercado, falava de risco. A comunidade era apresentada como área perigosa e a retirada das famílias, como medida de proteção. Algumas seriam deslocadas para Santa Cruz, na Zona Oeste, longe do trabalho, da escola e da rede de apoio, sob a promessa de uma vida melhor. Naquele momento, a expressão racismo ambiental ainda não circulava no debate público, mas a lógica já estava inteira ali, com a natureza servindo de justificativa para expulsar moradores negros e pobres de uma área valorizada enquanto outros projetos imobiliários avançavam com muito mais tolerância.
Fundado pela Pastoral de Favelas junto com lideranças comunitárias, o Favelão circulou até 1987 e chegou a 26 edições, cada uma com 12 páginas e três mil exemplares distribuídos de beco em beco. A redação era formada por moradores de favela e a reunião de pauta acontecia em um território diferente a cada mês. As pautas eram água, saneamento, luz, caminho, transporte e escola, aquilo que hoje chamamos de infraestrutura urbana, de saúde ambiental, de adaptação e direto à cidade. Naquela época chamava-se sobreviver, e o jornal registrava, edição após edição, que aquilo era pauta política e não destino.
O gesto se repete ao longo das décadas. Em setembro de 2004, a primeira edição do jornal O Jacarezinho, que tinha Ana Claudia Condeixa como redatora-chefe, abriu com a manchete “Jacarezinho agora fala e se vê aqui”. Na capa, uma foto aérea da favela, a mesma vista de cima que no noticiário costuma servir para contar barracos e traçar rotas de operação, aparecia coberta pelas palavras que os próprios moradores escolheram para se descrever: educação, saúde, trabalho, cultura, lazer, moradia, cidadania, diálogo, informação.


Sei o peso que isso tem porque é do Jacarezinho que eu falo. Corta a favela um rio que muita gente costuma chamar de valão. Ele está poluído e, mesmo assim, tem garça pousando nele. Os moradores mais velhos contam que ali tomavam banho e pescavam. Entre chamar aquilo de vala ou de rio existe um abismo, e não é sobre uma diferença de vocabulário, porque uma vala se tampa, se canaliza e se esquece, enquanto um rio se recupera, se monitora, entra em plano de manejo e em orçamento público.
É desse tamanho a aposta da comunicação popular, que nunca foi apenas circulação de informação. Categorias como área de risco, ocupação irregular e área degradada são narrativas antes de virarem laudo, e quem as escreve acaba decidindo o que a cidade fará depois com aquele lugar.
Os veículos territoriais entenderam isso cedo. Em março de 2012, muito antes de o debate climático descer o asfalto, o Voz das Comunidades, do Complexo do Alemão, publicou uma reportagem sobre a contribuição das favelas para o clima do planeta, falando de reflorestamento, de fotossíntese, de fixação de carbono e do trabalho dos moradores na Serra da Misericórdia, um dos principais maciços verdes do Rio, espalhado por 27 bairros da Zona Norte e cercado por complexos de favelas. Treze anos depois, em outubro de 2025, essa mesma Serra voltou aos jornais, não pelo que ela é, mas como cenário da operação policial na Penha. Estamos aqui falando da chacina do dia 28 de outubro que resultou em 121 corpos, que em sua maioria foram encontrados na mata. A mata que fica perto da favela costuma ser criminalizada junto com seus moradores.
Essa disputa segue sendo travada, e com método. No Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), o projeto Embaixadores do Ar, 12 jovens comunicadores dos bairros de Santa Cruz, Madureira e Centro no Rio de Janeiro produziram cartografias sociais dos seus próprios territórios (olha o spoiler aí), mapeando à mão as fontes de poluição, os grupos mais afetados e as redes comunitárias de cuidado. O que sai dali é dado primário, produzido por quem respira aquele ar, justamente onde o monitoramento oficial não alcança.
Reconhecer esse acúmulo não transfere para a favela uma responsabilidade que é do Estado. Ninguém deveria precisar fundar um jornal para não ser removido, nem convocar um congresso para provar que não é marginal. O que falta aos territórios não é conhecimento sobre o próprio chão, é falta de investimento, reconhecimento e poder de decisão sobre as políticas que os atingem.
Por isso, finalizo aqui, o recado precisa ser reto. É preciso garantir financiamento direto e continuado para os veículos comunitários, sem intermediação que capture a pauta, e incluir a comunicação popular nos planos municipais de adaptação climática, não como ação de divulgação no fim do documento, mas como parte da estrutura que produz diagnóstico, alerta e monitoramento nos territórios. Comunicação popular é infraestrutura de adaptação e precisa ser orçada como tal.
Depois de décadas, aquele lema segue exato. Enquanto houver plano de adaptação, mapa de risco, meta ambiental e climática sendo escritas sobre as favelas sem as favelas, a tarefa continua sendo a mesma que Sergio Canda datilografou e guardou, que é garantir a voz dos favelados pelo direito à favela.
Referências Bibliográficas:
CONGRESSO COMUNITÁRIO DO JACAREZINHO, 1., 1983, Rio de Janeiro. Conclusões. Rio de Janeiro: [s. n.], 1983. Documento datilografado. Acervo de Sergio Canda.
JACAREZINHO AGORA FALA E SE VÊ AQUI. O Jacarezinho, Rio de Janeiro, ed. 1, p. 1, set. 2004. Redatora-chefe: Ana Claudia Condeixa. Acervo de Sergio Canda.
LIMA, Tatiana. Favelão: voz política e jornalismo comunitário à frente de seu tempo. RioOnWatch, Rio de Janeiro, 31 mar. 2022. Disponível em: https://rioonwatch.org.br/?p=60951. Acesso em: 27 ago. 2026.
VOZ DAS COMUNIDADES. Contribuição das favelas para o clima do planeta. Voz das Comunidades, Rio de Janeiro, 28 mar. 2012. Disponível em: https://vozdascomunidades.com.br/favelas/complexo-do-alemao/contribuicao-das-favelas-para-o-clima-do-planeta/. Acesso em: 27 ago. 2026.
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