ODS 1
Estação Leopoldina, novo capítulo de uma saga centenária
Restauração de prédio histórico, inaugurado em 1926 e um marco do transporte ferroviário no Brasil, atrasa e só deve ser concluída 2027
Quando a Estação Barão de Mauá foi inaugurada, um século atrás, todos os principais jornais do Rio de Janeiro – O Paiz, Jornal do Commercio, Gazeta de Notícias, A Noite, Jornal do Brasil – deram destaque ao evento que marcava a abertura da nova estação inicial da Leopoldina Railway, que prometia ligar o então Distrito Federal pelos trilhos, com mais eficiência e rapidez, aos estados vizinhos: Minas Gerais, São Paulo e o próprio Rio de Janeiro, que cercava a capital do Brasil. “A Leopoldina tem, enfim, uma estação digna do Rio e da própria importância da companhia”, destacava o título da reportagem na edição do Jornal do Brasil de domingo, 7 de novembro de 1926, dia seguinte à inauguração.
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Um século depois, praticamente não há jornais impressos na cidade e só O Globo – que, em 1926, era o caçula dos periódicos cariocas, fundado um ano anos – deu algum destaque para o atraso na entrega das obras de restauração da Estação Leopoldina, como é mais conhecido o lugar, que, durante sete décadas, foi usada para transporte interestadual de passageiro, principalmente, e também de cargas. Ao ser anunciada pelo então prefeito Eduardo Paes, em 2024, a restauração deveria ficar pronta para celebrar o centenário: o prédio histórico abrigará cursos do Instituto Federal do Rio de Janeiro e equipamentos culturais; a área da antiga estação receberia um conjunto de prédios do programa Minha Casa, Minha Vida, um centro de convenções e a Fábrica do Samba, para os barracões da escolas de samba da Série Ouro (o grupo de acesso do Carnaval do Rio).


Ao ser inaugurada naquela tarde de sábado de novembro de 1926, a nova Estação Barão de Mauá recebeu autoridades e atraiu a curiosidade dos cariocas. No evento, o engenheiro britânico Charles Walter Bayne, diretor-geral da Leopoldina Railway, explicou que o nome da estação homenageava o empresário Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, pioneiro das ferrovias no Brasil e responsável pela inauguração da primeira linha férrea do país em 1854. A Companhia Estrada de Ferro Leopoldina, fundada em Minas Gerais em 1874, era responsável pelo transporte ferroviário da região produtora de café do estado até a divisa com o Rio, onde se conectava com a Estrada de Ferro Pedro II – Estrada de Ferro Central do Brasil, após a Proclamação da República.
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Veja o que já enviamosEm 1898, em crise financeira apesar de ter passado por um processo de expansão, a empresa foi vendida para investidores ingleses que criaram a Leopoldina Railway Company, construindo novas linhas e adquirindo 38 pequenas ferrovias, no centro e norte do Rio de Janeiro, e também no sudeste de Minas e no sul do Espírito Santo. De acordo com as reportagens de 1926, no ano de 1898, ao ser vendida, a Leopoldina transportou pouco mais de dois milhões de passageiros e 380 mil toneladas de carga. Em 1925, a Leopoldina Railway já administrava a maior malha ferroviária do país – mais de 3 mil quilômetros – e havia transportado, no ano, quase 21 milhões de passageiros e 1,5 milhão de toneladas de carga.
Foi este sucesso que impulsionou a construção da Estação Barão de Mauá, na Avenida Francisco Bicalho, perto do terminal da companhia na Praia Formosa, vizinho ao Porto do Rio – desde 1910, a empresa britânica tinha conseguido autorização para levar seus trilhos até ali. Muitos jornais da época anunciaram que a nova sede da companhia seria erguida na “Praia Formosa”, como era conhecida a região (a praia mesmo, seguidamente aterrada, já havia desaparecido em 1926, com a expansão do porto). Com inspiração em palácios da realeza britânica, a estação foi projetada pelo arquiteto escocês Robert Prentice, com quatro andares, fachada de 130 metros de largura, oito plataformas e espaço para oficinas.


A Estação Barão de Mauá só deixou de ser a maior da cidade em 1943, com a inauguração do prédio da sua concorrente Central do Brasil. Em 1950, com o Brasil concentrando seus investimentos nas rodovias, a Leopoldina foi encampada pelo governo federal e, em 1957, incorporada à nova Rede Ferroviária Federal (RFFSA), que reuniu 18 companhia férreas, inclusive a Estrada de Ferro Central do Brasil, já a maior do país. Com a privatização da RFSSA, as linhas da Leopoldina no interior passaram, em concessão, a empresas particulares e a Estação Barão de Mauá acabou finalmente desativada e deixou de receber trens em 2001. Foi abandonada como mostrou o próprio #Colabora constatou, às vésperas dos 90 anos da inauguração, em 2016.
Em 2024, depois de anos de negociação entre as três esferas de governo, a União assinou um acordo de cooperação técnica com a Prefeitura do Rio para fazer a revitalização do histórico imóvel da Estação da Leopoldina. As boas notícias de 2024 não tiveram a sequência esperada: obras em marcha lenta, briga da prefeitura com a empresa responsável, atrasos na retirada de equipamentos, cobranças do Ministério Público Federal. A intenção anunciada era a entrega pelo menos do prédio restaurado para a celebração do centenário da inauguração da Estação do Barão de Mauá.


Mas a saga da velha estação ferroviária ainda não vai terminar em 2026. Esta semana, a Companhia Carioca de Parcerias e Investimentos (CCPar), empresa municipal pela contratação da restauração, confirmou o adiamento para 2027 – ainda sem data – da entrega das obras, orçadas R$ 80 milhões em alegando necessidade de rever o cronograma pelo porte das intervenções estruturais e modernizantes. afirma que as intervenções seguem em andamento em diferentes frentes, como recuperação estrutural, restauração e modernização do conjunto histórico. A desocupação do terreno ao lado da estação, onde estão antigas composições de trem e milhares de aduelas (estruturas de concreto que deveriam ter sido usadas na expansão do metrô), é responsabilidade do governo estadual e está ainda mais atrasada. A Fábrica do Samba Rosa Magalhães, tão sonhada pelas escolas da Série Ouro, ficou para o Carnaval 2028.
Aos cariocas, resta esperar – “vamos torcer, vamos cobrar”, como costuma dizer o colunista Ancelmo Góis, de O Globo, que publicou a má notícia do adiamento. E ter esperança de parafrasear em breve o título do Jornal do Brasil – “A Leopoldina tem, enfim, uma estação digna do Rio e da própria importância” do histórico prédio.
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