El Niño Godzilla: mundo em alerta com fenômeno climático de alta intensidade

Brigadistas do Prevfogo/Ibama combatem incêndio no Pantanal em 2024: com El Niño Godzilla se aproximando, STR cobra providências de estados da Amazônia Legal e do Pantanal (Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil - 29/06/2024)

STF dá 10 dias para União e os estados da Amazônia Legal e do Pantanal anunciarem medidas antifogo. Adaptação é a palavra-chave para enfrentar os impactos, mas especialistas afirmam que país não está preparado para o novo normal

Por Liana Melo | ODS 13
Publicada em 26 de maio de 2026 - 09:48  -  Atualizada em 26 de maio de 2026 - 09:52
Tempo de leitura: 8 min

Brigadistas do Prevfogo/Ibama combatem incêndio no Pantanal em 2024: com El Niño Godzilla se aproximando, STR cobra providências de estados da Amazônia Legal e do Pantanal (Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil - 29/06/2024)
Brigadistas do Prevfogo/Ibama combatem incêndio no Pantanal em 2024: com El Niño Godzilla se aproximando, STR cobra providências de estados da Amazônia Legal e do Pantanal (Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil – 29/06/2024)

O El Niño está chegando e com ele aumentam as chances de o fenômeno, já exaustivamente estudado e, cada vez mais, associado a impactos no clima e no meio ambiente, ser de intensidade forte ou muito forte. Ainda que as previsões apontem para a alta probabilidade do El Niño se estabelecer no segundo semestre, é cedo para cravar que o fenômeno será sinônimo de desastre, ainda que venha sendo feito alertas importantes e já tenha recebido codinomes como Super El Niño e El Niño Godzilla – em referência ao monstro colossal da cultura pop, criado pelo cinema japonês.

Ontem, segunda 25/05, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, determinou que, em 10 dias úteis, a União e os estados da Amazônia Legal e do Pantanal informem como estão se preparando para o aumento significativo de riscos de incêndio florestais em razão de possíveis impactos do El Niño, especialmente no segundo semestre do ano.

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Não é a primeira vez que o magistrado usa sua caneta, e seu poder, para cobrar medidas cabíveis para o enfrentamento das queimadas em ambos os biomas. Dino fez isso em agosto de 2024 e, na ocasião, determinou que os ministérios da Defesa, Justiça e Meio Ambiente se envolvessem diretamente na ação antifogo.

Ainda que sua origem ocorra no Oceano Pacífico tropical, quando as águas da região equatorial centro-leste do oceano ficam mais quentes do que o normal, é em terra firme que os impactos do El Niño costumam cobrar a conta. Os mais afetados são sempre os mesmos: os mais vulneráveis, como mulheres, comunidades tradicionais, afrodescendentes, populações periféricas e grupos de baixa renda. Só no Rio Grande do Sul, ainda existem cerca de 500 famílias desabrigadas devido as enchentes de 2024.

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Em nota técnico, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) informou, no último dia 19/05, que o “El Niño não prevê um desastre específico, mas aumentos de probabilidade, de ter ‘maior chance de chuva extrema no Sul’ ou ‘maior risco de seca no Norte ou Nordeste’. O desastre em si depende de outros fatores não climáticos, como a vulnerabilidade da população e a exposição das áreas onde vive a população.”

É fato que El Niño Godzilla caiu na boca do povo e, à medida que vai ficando famoso, ganha contornos alarmistas. “Mas, definitivamente, não estamos preparados para todos os cenários, nem mesmo o mais fraco, de baixa intensidade, quanto mais um Super El Niño”, avalia Daniel Porcel, especialista em Políticas Climáticas do Instituto Talanoa.

Em um país tão desigual como é o caso do Brasil, eventos como El Niño tendem a reproduzir todas as desigualdades históricas já existentes, o que faz Porcel a defender a necessidade urgente de se levar em consideração “todas essas transversalidades que afetam a política de adaptação.”

Município catarinense alagado após a passagem de ciclone bomba: 12 mortes no estado (Foto: Divulgação/DCSC)
Município catarinense alagado após a passagem de ciclone bomba com 12 mortes no estado: Santa Catarina em estado de alerta preventivo para El Niño (Foto: Divulgação / DCSC – 21/10/2020)

Santa Catarina: alerta preventivo para El Niño

Os cenários de previsões de El Niño apontam para chuvas acima do normal para a primavera de 2026 no sul do Brasil e secas na Amazônia e no Nordeste no verão e outono de 2027. Secas intensas na Amazônia têm ocorrido em anos de El Niño, como as de 2015/2016 e 2023/2024.  Ou seja, todos os biomas brasileiros serão atingidos.

O governo de Santa Catarina foi um dos primeiros a decretar estado de alerta climático preventivo devido à previsão de um El Niño de alta intensidade. A validade será de 180 dias.

O secretário-geral das Nações Unidas (ONU), Antonio Guterres, já se pronunciou, inúmeras vezes, sobre o tema: “O apoio à adaptação e à resiliência é um imperativo moral, econômico e social”.  Os números confirmam tamanha preocupação.

O Talanoa consolidou alguns dados: até 2050, os danos climáticos podem eliminar até 18% do PIB (produto interno bruto) global se a adaptação e a mitigação falharem. Uma em cada cinco pessoas já sentem fortemente os impactos climáticos todos os dias. Os países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil, enfrentam uma mortalidade sete vezes maior por desastres relacionados ao clima em comparação com países ricos.

Evidentemente, o orçamento nacional não dá conta”, pondera Porcel, comentando que o cenário geopolítico atual é um complicador a mais. Ainda que tenha sido aprovado durante a COP30, em Belém, triplicar o financiamento para adaptação até 2035, o que nos levaria a um montante de 120 bilhões de dólares anuais, os valores atuais estão bem longe disso.

Cerca de 80 países em desenvolvimento já têm seus planos de adaptação, mas não têm recursos financeiros para implementá-los. Há poucas semanas, o Reino Unido anunciou que vai reduzir em 14% a ajuda climática para países em desenvolvimento.

Freio de arrumação

Ainda que adaptação seja a palavra-chave, só adaptar não é suficiente. É preciso adaptar e, ao mesmo tempo, mitigar. Com um poder de aquecimento até 80 vezes maior que o CO₂, o metano é responsável por 1/3 do aquecimento global. O Brasil é um emissor gigante desse gás, ocupando a quinta posição no ranking global.

Com o El Niño Godzilla – o termo não é científico e pesquisadores reclamam que aumenta o alarmismo – se aproximando, a comprovação feita pela Ciência de que ele piora o aquecimento global e o mundo já tendo atingido o limite de 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais (meta estabelecida como ideal no Acordo de Paris) o ambiente não poderia estar mais tóxico.

Reduzir as emissões de metano gera efeitos em cadeia. Além de produzir efeito climático, “a redução do metano, especialmente no segmento de resíduos, gera energia, renda e inclusão“, analisa Henrique Bezerra, diretor regional para a América Latina do Global Methane Hub. Como o metano permanece na atmosfera um período relativamente curto, cerca de 12 anos, reduzir suas emissões é a maneira mais rápida, e eficiente, de se obter um impacto imediato no combate ao aquecimento global.

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Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

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