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Intan Rahmaningtyas com garrafas de jamu, bebida com efeitos medicinais: receitas resgatadas para unir tradição e futuro na Indonésia (Foto: Lestari Jamuku / Divulgação)
Intan: receitas resgatadas para unir tradição e futuro na Indonésia
Como empreendedora está registrando o saber herbal transmitido só pela voz para impedir que a jamu, bebida milenar, desapareça
A cultura da Indonésia sempre despertou meu interesse. Por isso, quando Gladys, uma amiga das Filipinas, me contou que havia feito um vídeo sobre a empreendedora Intan Rahmaningtyas, que tentava recuperar receitas ancestrais de uma bebida única, fiquei realmente impactada. Semanas depois, eu mesma estava numa videochamada com ela.
A Indonésia impressiona por ser um mosaico de povos que nenhuma estatística consegue resumir. Com mais de 17 mil ilhas, das quais cerca de 6 mil são habitadas, aproximadamente 280 milhões de habitantes e mais de 700 línguas faladas, o país é o maior arquipélago do planeta e um dos territórios culturalmente mais diversos que existem. Não por acaso, seu lema nacional é “Bhinneka Tunggal Ika”, expressão em javanês antigo que significa “unidade na diversidade”.
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Essa diversidade se manifesta em múltiplas dimensões: na riqueza natural, na extraordinária biodiversidade, nas diferentes culturas e também na fé. A Constituição reconhece oficialmente seis religiões – e, ao lado da maioria muçulmana, convivem protestantes, católicos, hindus, budistas, confucionistas e outras minorias.
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Veja o que já enviamosÉ nesse arranjo que a ilha de Bali se destaca como um enclave majoritariamente hindu, com seus milhares de templos, oferendas diárias de flores e incenso depositadas nas calçadas e celebrações únicas como o Nyepi, o “Dia do Silêncio”. Nesse feriado, que marca o ano-novo balinês, a ilha inteira para durante 24 horas: o aeroporto internacional fecha, as ruas ficam vazias, as luzes se apagam e guardas tradicionais das aldeias, os “pecalang”, patrulham as vias para garantir que ninguém circule. É um dia inteiro dedicado ao silêncio, ao jejum e à autorreflexão.
Quando o problema é crônico ou grave, você precisa do médico e do hospital. Mas há muitas coisas que podemos cuidar nós mesmos. O moderno e o tradicional deveriam coexistir. Um complementa o outro
Já a alimentação revela um dos traços mais curiosos da Indonésia: a capacidade de transformar uma base simples numa riqueza imensa. Os ingredientes centrais são poucos (arroz, peixe, coco, pimenta e soja), mas é a partir deles que cada ilha criou uma culinária própria. A base de tudo é o arroz – “nasi”, em indonésio -, presente em praticamente todas as refeições, a ponto de existir um ditado local segundo o qual “quem não comeu arroz, ainda não comeu”. Ele é cultivado há milênios nos terraços esculpidos nas encostas de Java e Bali, estes últimos reconhecidos pela Unesco junto com o sistema tradicional de irrigação administrado coletivamente pelos templos.
Do arroz, nasce o prato nacional, o nasi goreng, o arroz frito quase sempre acompanhado de sambal, a onipresente pasta de pimenta. Ao redor dele orbitam o peixe, inevitável num país cercado de mar por todos os lados, o coco, que entra em quase tudo na forma de leite, óleo e polpa, e a soja fermentada como tempeh, invenção javanesa. E o que multiplica esses poucos insumos em milhares de receitas regionais são as especiarias, as mesmas que, séculos atrás, fizeram das ilhas Molucas o centro do cobiçado comércio mundial de cravo e noz-moscada, e que hoje diferenciam a cozinha apimentada de Sumatra da javanesa adocicada.


Jamu: cura com ervas, raízes e especiarias
Não surpreende, portanto, que o conhecimento tradicional seja tratado oficialmente como patrimônio vivo. Em dezembro de 2023, a jamu, sistema indonésio de cura à base de ervas, raízes e especiarias, praticado desde pelo menos o século VIII, foi reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
A jamu é, nas palavras de Intan, o encontro entre duas riquezas indonésias: a biodiversidade e o conhecimento tradicional. O país abriga mais de 30 mil espécies de plantas, das quais cerca de 9 mil têm uso medicinal. Praticada há mais de mil anos, a jamu foi documentada em manuscritos antigos e até nos relevos de templos, mas a transmissão das receitas – estima-se que existam mais de mil – sempre se deu de outro jeito: de avó para mãe, de mãe para filha, quase só pela oralidade. “Elas guardam tudo na memória e passam adiante apenas pela palavra”, conta Intan.
Foi por meio dessa herança cultural que Intan Rahmaningtyas construiu sua própria relação com a jamu. Ela não nasceu em uma família de curandeiras nem de comerciantes de ervas. Filha de servidores públicos, a mãe é professora universitária, cresceu em Bornéu, longe de Java, considerada o berço da jamu e o centro histórico dessa tradição. Ainda assim, foi ali que, aos seis anos, teve seu primeiro contato com esse universo, pelas mãos de uma jamu gendong, vendedora ambulante que passava quase diariamente em sua casa e sempre lhe oferecia um pequeno copo da versão infantil da bebida.
Aquele conhecimento simplesmente se extinguiu. E entendi que não era um problema de uma pessoa. Era um problema estrutural, que devia estar acontecendo com muitas outras
A memória ficou adormecida por duas décadas. Formada em administração pública, Intan tornou-se ativista antitabagista e depois trabalhou no marketing de uma empresa de alimentos saudáveis. Até que, em 2018, logo no início da carreira, desenvolveu um quadro de refluxo. O tratamento incluía mais de vinte cápsulas por dia.
“Foi a primeira vez na vida que pensei: meu Deus, vou precisar tomar isso todos os dias pelo resto da vida. E me perguntei: espera, nós nascemos para depender disso?”
Ela faz questão de esclarecer que nunca abandonou a medicina convencional. “Continuo indo ao médico. Quando o problema é crônico ou grave, você precisa do médico e do hospital. Mas há muitas coisas que podemos cuidar nós mesmos. O moderno e o tradicional deveriam coexistir. Um complementa o outro.”
Foi essa inquietação que a levou de volta à jamu, e a uma descoberta desconcertante. Enquanto a cultura do café explodia na Indonésia, com escolas e cursos por toda parte, não existia uma única instituição de ensino da jamu no país.
“Como assim? Como a gente aprende?”, conta ter se perguntado. A resposta: só com as próprias “jamu gendong”.


Força feminina na Indonésia
Elas são o rosto mais visível dessa tradição. A palavra gendong, em javanês, significa “carregar nas costas”, uma referência ao cesto onde transportam as garrafas das bebidas preparadas ainda de madrugada para vender de porta em porta. Enquanto explicava o termo, Intan procurou uma fotografia no computador. A imagem impressiona, mas não faz justiça ao esforço físico. Ela mesma experimentou carregar um desses cestos e calcula que pesem entre 20 e 25 quilos. Algumas mulheres percorrem até 25 quilômetros por dia, embora hoje muitas tenham trocado a caminhada pela motocicleta e as pesadas garrafas de vidro por recipientes de plástico.
Há algo de simbólico nisso. Num país cujo feminismo nasceu justamente da palavra escrita, com as cartas de Kartini, a jovem javanesa que no início do século XX denunciou o confinamento das mulheres, defendeu sua educação e virou heroína nacional com feriado próprio, o importante saber feminino do país permaneceu sem escrita, confiado à memória e à voz.
As herdeiras literárias de Kartini continuam essa batalha: autoras premiadas como Leila S. Chudori, Okky Madasari e Intan Paramaditha ocupam hoje lugar de destaque na literatura indonésia, escrevendo sobre mulheres, memória e tradição. As herdeiras da jamu, porém, seguiram sem essa mesma possibilidade de registro.
Foi essa lacuna que nossa protagonista Intan decidiu enfrentar. Ela passou meses abordando vendedoras pelas ruas, bebendo, conversando, até encontrar aquela que considerava a verdadeira guardiã da jamu perfeita: Bude Ris.
Espero que a gente volte às raízes e escreva o que herdamos das nossas famílias. Não só as receitas da jamu: qualquer conhecimento que nossos pais e avós nos ensinaram. A tradição não é só algo a preservar. Ela está viva, e nos guia
Em 2020, em plena pandemia, Bude sumiu das ruas. Por três meses, Intan tentou contato, sem sucesso, até finalmente chegar à casa dela. Foi quando soube que a vendedora havia morrido. E sua família lhe disse algo que ela não esperava: depois de 25 anos de ofício, ninguém havia herdado as receitas. Ninguém sabia sequer onde ela colhia as ervas. “Aquele conhecimento simplesmente se extinguiu”, diz Intan. “E entendi que não era um problema de uma pessoa. Era um problema estrutural, que devia estar acontecendo com muitas outras.”
Desse luto nasceu, há quatro anos, a Lestari Jamuku, nome que, em indonésio, carrega a ideia de algo que persiste, que se mantém vivo. Não por acaso: a intenção, desde o início, foi impedir que a morte de uma mulher significasse também a morte de um saber coletivo.
O primeiro passo foi encontrar outra mestra. Por uma dessas coincidências que Intan atribui ao universo, a nova jamu gendong que aceitou ensiná-la vinha exatamente da mesma aldeia de Bude, em Java Central. Intan seguiu até lá e passou semanas imersa na comunidade, observando práticas que não se encontram nem no Google, e registrando por escrito, pela primeira vez, processos que só existiam na memória.
A Lestari Jamuku – empreendimento fundado por Intan – não tentou reinventar a jamu; tentou salvá-la sem descaracterizá-la. A operação de hoje reflete isso: as ervas são cultivadas e pré-processadas em Java Central, berço da tradição, e seguem para Tangerang, cidade vizinha a Jacarta, onde ganham a forma final de bebida pronta para consumo. A rede reúne quatro jamu gendong e cerca de doze pequenos agricultores locais, e a inclusão dos agricultores tem uma história própria: na aldeia, Intan viu produtores jogarem fora cerca de 300 quilos de gengibre porque o frete até a cidade custava mais do que a venda renderia. Integrá-los à cadeia resolveu o problema do desperdício, ao mesmo tempo que garantiu renda.
Yuli, parceira do projeto e vendedora de jamu de terceira geração em sua família, é um dos exemplos que Intan gosta de contar: hoje ela usa em suas receitas plantas que antes considerava apenas “mato”, como centela-asiática e flor-de-borboleta, sem abandonar o que aprendeu ainda menina, observando mãe e avó.


Preservação cultural e impacto social
O negócio tem crescido rápido. Intan havia dado a si mesma um prazo: se em seis meses não funcionasse, voltaria ao mundo corporativo. Não voltou. Em 2023, a Lestari Jamuku já produzia cerca de 300 litros de bebidas herbais por mês, vendidos em garrafas de vidro para um público que mistura consumidores tradicionais e uma nova geração urbana preocupada com saúde e sustentabilidade. No mesmo ano, o projeto foi selecionado entre 25 negócios sociais da Indonésia e venceu o prêmio de Melhor Impacto Social do Youth Co:Lab, iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
Ao contar sua história em eventos internacionais, Intan, hoje com 30 anos, passou a ser procurada por participantes de outros países que reconheciam nela ecos de movimentos dedicados à preservação cultural. Nas Filipinas, por exemplo, existe o kayabang, tradição de mulheres que também carregam cestos de vime nas costas e mantêm vivas práticas ancestrais. A ameaça de desaparecimento que ronda os conhecimentos indígenas e populares não é uma questão apenas indonésia; é um desafio global.
Seus planos seguem nessa direção. Ela criou o “Temu Jamu” (“encontro da jamu”), espaço onde moradores de áreas urbanas levam suas queixas de saúde do dia a dia e recebem, de volta, soluções fitoterápicas, recriando deliberadamente o vínculo de cuidado que sempre existiu entre a vendedora de rua e sua clientela, e que a vida moderna havia interrompido. Agora, prepara o lançamento de uma comunidade de aprendizado para a geração Z, com encontros anuais, e sonha alto: formar uma centena de jovens vendedores da jamu.
“Espero que a gente volte às raízes e escreva o que herdamos das nossas famílias. Não só as receitas da jamu: qualquer conhecimento que nossos pais e avós nos ensinaram. A tradição não é só algo a preservar. Ela está viva, e nos guia.”
No Brasil, essa história ressoa de um jeito particular, e a própria Intan sabe disso. Antes de falar comigo, ela já havia conversado com um brasileiro sobre fitoterapia e se encantado com a organização do nosso sistema de plantas medicinais. Também somos um país de conhecimento tradicional em risco de desaparecer, o dos raizeiros do Nordeste, das parteiras quilombolas, dos pajés e curandeiras indígenas cuja sabedoria sobre plantas medicinais segue sendo transmitida de boca em boca, sem proteção, sem registro, à mercê de quem sobrevive para contar.
A Indonésia, por sua vez, também reúne outros conhecimentos, além da Jamu, reconhecidos pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. A mesma lista inclui o batik, técnica de estampar tecidos com cera que os indonésios vestem com orgulho no cotidiano; o wayang kulit, milenar teatro de sombras cujos bonecos de couro encenam épicos hindus madrugada adentro; o kris, punhal de lâmina ondulada carregado de simbolismo espiritual; o gamelan, conjunto de gongos e metalofones que acompanha cerimônias em Java e Bali; e o angklung, delicado instrumento feito de tubos de bambu.
O desafio, porém, vai além de reconhecer esses patrimônios no papel. A questão é impedir que desapareçam na prática. E isso depende de pessoas como Intan, dispostas a seguir o fio da memória até onde ela ainda resiste.






















































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