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Saliwe Mutetwa-Zakariya, diretora e fundadora da Talia Women's Network: do enfrentamento de insegurança alimentar e falta de moradia a criação de organização voltada para mulheres e meninas no Zimbábue (Foto: Arquivo Pessoal)
Saliwe do Zimbábue: transformando adversidade em ação
Sua liderança na Talia Women’s Network capacita mulheres e meninas, promovendo esperança, resiliência e oportunidades em sua comunidade
Saliwe Mutetwa-Zakariya nasceu em Mutare, uma cidade abraçada pelas montanhas e pela beleza serena das Eastern Highlands (Terras Altas Orientais) do Zimbábue, na fronteira com Moçambique. É uma paisagem que carrega, ao mesmo tempo, tranquilidade e força, assim como sua própria história.
O nome do país onde nasceu também revela muito dessa força. “Zimbábue” tem origem na língua local shona, a partir da expressão Dzimba dza mabwe, que pode ser traduzida como “grandes construções de pedra”. A referência vem do “Grande Zimbábue”, um antigo centro urbano erguido entre os séculos XI e XV, conhecido por suas estruturas monumentais construídas em pedra, sem o uso de argamassa.
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Essas ruínas vão além de vestígios de um passado recente. Vale lembrar, inclusive, que ao Zimbábue só foi permitida a independência do Reino Unido em 1980. Elas são testemunhos da engenhosidade, da organização social e da sofisticação das civilizações africanas pré-coloniais. Por isso, o nome do país carrega um profundo sentido de identidade, memória e orgulho, estabelecendo uma conexão viva entre o presente e um passado.
E foi exatamente esse sentimento que me atravessou desde o primeiro momento em que ouvi Saliwe contar sua história: um orgulho sereno e firme, forjado no cotidiano, mas também moldado pelas superações profundas que marcaram sua vida, e que, de certo modo, ecoam na história de seu país.
Como filha mais velha de quatro irmãos, Saliwe aprendeu desde cedo o peso e a força, da responsabilidade. Ao cuidar dos mais novos, desenvolveu um senso profundo de liderança e de compromisso com o coletivo.
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Veja o que já enviamosEssa vivência se intensificou durante os seis anos em que estudou em um colégio interno exclusivo para meninas. Ali, entre sonhos compartilhados e desafios cotidianos, construiu laços e ampliou sua compreensão sobre o mundo. Foi nesse ambiente que passou a perceber, de forma mais profunda, os desafios específicos enfrentados pelas mulheres e, sobretudo, a potência transformadora do apoio mútuo.
Após o ensino médio, Saliwe ingressou no curso de Economia Agrícola, uma escolha determinada pelo sistema educacional local, que direcionava os estudantes com base em seu desempenho acadêmico. Como não se identificava com a área, houve momentos em que se sentiu perdida e presa, preocupada com os próximos passos. Passou pela agricultura e por consultorias, mas se sentia desorientada, buscando um propósito e um caminho que fizesse sentido.
Gostaria que a minha organização fosse um refúgio; mais que um refúgio, um oásis de tranquilidade para essas meninas nos momentos mais difíceis. Eu estive lá, e sei o quanto ter um espaço seguro e acolhedor pode fazer a diferença. É um presente que quero oferecer a outras pessoas
Enquanto mantinha empregos, a vida seguia seu curso de forma previsível. Mas o ponto de virada chegou em 2002, com a perda do pai. Com os irmãos ainda em idade escolar, Saliwe se viu obrigada a assumir a responsabilidade de prover e proteger sua família. Pouco depois, engravidou e se casou, acumulando ainda mais responsabilidades pessoais e familiares. Na época, tinha apenas 24 anos. Segundo ela, na cultura local, sua gravidez já era considerada tardia, o que aumentava a pressão social sobre suas escolhas.
Ela se mudou para Harare, a capital do Zimbábue. Queria consolidar sua renda e trabalho. No entanto, foi justamente nesse período, com a primeira filha ainda pequena, que Saliwe se encontrou em situação de extrema vulnerabilidade, em meio a uma grave crise econômica e política no país, marcada por hiperinflação, escassez de alimentos e instabilidade social. Esse momento, ocorrido logo após a independência do Zimbábue, trouxe profundas reflexões sobre o processo de colonização e a devastação que deixou marcas duradouras nos países africanos.
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Ela e o marido ficaram desempregados ao mesmo tempo, e as tentativas de encontrar novas oportunidades de trabalho não se concretizavam. Aos poucos, gastaram todas as reservas e passaram a não conseguir mais pagar despesas básicas como aluguel, água e alimentação.
“A situação se agravou tanto que estivemos perto de ficar sem moradia. Foi então que alguém que trabalhava em uma imobiliária me falou sobre uma casa abandonada na cidade, cujo proprietário morava no exterior e ainda não havia iniciado a reforma. Diante da nossa extrema vulnerabilidade e da ausência de recursos para pagar aluguel, decidimos nos mudar para lá.”
A casa não tinha eletricidade, nem água. As janelas estavam quebradas e algumas das portas estavam faltando. Ainda assim, para Saliwe e sua família, aquele teto era uma corda estendida que permitia continuar buscando novos caminhos.
“Todos os dias andávamos cerca de 20 km distribuindo currículos, falando com pessoas, tentando encontrar trabalho. Íamos a pé para economizar com transporte. O país estava em grande crise. Não éramos os únicos desesperados. A situação era tão instável que precisei mandar minha filha morar temporariamente com minha mãe, enquanto buscava alternativas”.


Mesmo diante das dificuldades, Saliwe se apoiava em sua educação de fé e não se entregava ao desespero ou ao pessimismo.
“Eu começava o dia sem saber o que iria comer, mas, surpreendentemente, ao longo do dia sempre surgia alguma solução para garantir a refeição. Voltando para casa, alguém da feira oferecia vegetais velhos, minha mãe enviava uma caixa com suprimentos de Mutare ou alguém da igreja nos dava um prato de comida. Sempre acontecia algo, e nunca fomos dormir com fome. Essa constância nos manteve lúcidos e cheios de esperança.”
Foram 8 meses nessa situação.
Vivência.
Paciência.
Resiliência.
Segundo ela, foi nesse momento que a relação mais valiosa de sua vida começou a se consolidar. Ela e o marido se tornaram grandes parceiros e cúmplices, percebendo que haviam entrado juntos naquela situação e que só sairiam dela juntos. Nenhum dos dois se culpava. Dia após dia, reconheciam pequenas conquistas e valorizavam, acima de tudo, o fato de que tinham um ao outro.
“Hoje conseguimos sorrir ao lembrar desse período. Como não tínhamos eletricidade nem gás em casa, não conseguíamos usar o fogão. Quando precisávamos cozinhar, fazíamos fogo. Naturalmente, no dia seguinte, ao sairmos para procurar emprego, estávamos, com certeza, cheirando fumaça. Naquela época, provavelmente não percebíamos, mas hoje temos certeza que todos comentavam”
Ela riu brevemente.
Meu coração se encantou com aquela simplicidade e bom humor.
Esses oito meses da vida de Saliwe coincidem com o longo período pós-independência da antiga colônia britânica, a Rodésia do Sul (o atual Zimbábue) e ainda provocam profundas reflexões sobre o legado do colonialismo e a devastação deixada nos países africanos. Ouvir histórias pessoais é uma maneira poderosa de dar nome e rosto à experiência de quem foi diretamente impactado.


Mulheres poderosas no Zimbábue
O Zimbábue é hoje lar de vozes feministas poderosas que, como Saliwe, desafiam o status quo por meio de palavras e ações. A história de Saliwe remete ao ensaio “Mulher e Negra” da escritora zimbabuense Tsitsi Dangarembga, que passou parte da infância na Inglaterra em família de acolhimento, formou-se em medicina em Cambridge, psicologia em Harare e cinema em Berlim, e cuja produção cultural reflete sobre as marcas do colonialismo na experiência individual e coletiva.
Foi no momento de maior dificuldade que Saliwe fez uma promessa silenciosa a si mesma: dedicar sua vida a quem está em situação de vulnerabilidade. Em 2009, Saliwe conseguiu um emprego e, alguns meses depois, seu marido também; aos poucos, foram reconstruindo sua trajetória. Economizaram dinheiro, trouxeram a filha de Mutare para viver com eles novamente em Harare, e Saliwe engravidou de seu segundo filho.
Foi nesse mesmo ano, repleta de agradecimento e confiança na vida, que Saliwe fundou a Talia Women’s Network, organização que, desde então, transformou a vida de centenas de mulheres e meninas no Zimbábue. Ela decidiu concentrar seu trabalho em meninas e mulheres por entender que, no contexto local, estão entre os grupos mais vulneráveis. “Talia”, que significa “Jóia do céu” em hebraico, representa um espaço de oportunidades, apoio e fortalecimento para quem mais precisa.
“Gostaria que a minha organização fosse um refúgio; mais que um refúgio, um oásis de tranquilidade para essas meninas nos momentos mais difíceis. Eu estive lá, e sei o quanto ter um espaço seguro e acolhedor pode fazer a diferença. É um presente que quero oferecer a outras pessoas.”
O trabalho da Talia se sustenta em três pilares fundamentais: inspirar meninas a permanecer na escola, desenvolver autoconfiança e habilidades de liderança; capacitar mulheres e meninas para criar projetos de geração de renda, com treinamentos em gestão e alfabetização financeira adaptados à realidade rural; e promover saúde e bem-estar, incluindo higiene menstrual, saúde sexual e reprodutiva, além de campanhas médicas em comunidades sem acesso a cuidados, como triagens de câncer e testes de HIV/AIDS.


Sou apaixonada pela obra “Precisamos de Novos Nomes”, da escritora zimbabuense NoViolet Bulawayo, que narra a infância e a adolescência de Darling, uma jovem também do Zimbábue marcada pela pobreza, pela migração e pela desigualdade histórica. Darling se muda para os Estados Unidos em busca de uma vida melhor, mas lá enfrenta outras dificuldades: precisa lidar com a adaptação a uma nova cultura, o preconceito e a dura realidade da vida de imigrante. O livro oferece um retrato vívido do cotidiano daqueles que vivem em extrema vulnerabilidade, enfrentando desafios diários e buscando identidade e esperança em meio a adversidades. Essas temas ressoam fortemente na trajetória de Saliwe, hoje com 47 anos.
Essa força de transformação também se reflete na cultura do Zimbábue. Não posso deixar de falar da música do país, tão pulsante e cheia de alma, refletindo sua história, seus desafios e sua resistência. Artistas como Ammara Brown, Oliver Mtukudzi e Thomas Mapfumo transformam ritmos tradicionais, como o mbira e o chimurenga, em hinos de identidade, levando a riqueza criativa zimbabuense para além de suas fronteiras.
Depois que conheci Saliwe, escutar esses ritmos me leva a lugares diferentes. As vibrações dessas músicas, assim como a lembrança constante da história de Saliwe, revelam que, mesmo diante de adversidades, a esperança e a ação coletiva têm poder, moldando histórias, celebrando a força de um povo e inspirando novas gerações.
Saliwe, Ndatenda.
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Camila Batista
Camila Batista Pinto, advogada e ativista pelos direitos das mulheres, é uma empreendedora social brasileira e COO da Migraflix, organização que promove a inclusão social e econômica de migrantes e refugiados na América Latina por meio do empreendedorismo; também preside o Conselho Consultivo da Migration Youth and Children Platform (MYCP), plataforma global oficial de participação juvenil em processos intergovernamentais e no sistema das Nações Unidas, e é conselheira da organização Palhaços Sem Fronteiras Brasil





































