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Terra em estado de alerta

Concentrações de CO2 na atmosfera têm novos recordes em 2016


No último inverno, os Alpes Franceses tiveram um volume de neve muito inferior à média histórica. Foto TRIPELON-JARRY/AFP
No último inverno, os Alpes Franceses tiveram um volume de neve muito inferior à média histórica. Foto TRIPELON-JARRY/AFP

A concentração média global de dióxido de carbono na atmosfera bateu novos recordes em 2016, de acordo com a estação de monitoramento de Mauna Loa, no Havaí. Para piorar, a agência de metereologia da ONU prevê que essa concentração não vai cair aos níveis pré-2015 por muitas gerações.

Sem cuidar das emissões de CO2 não podemos enfrentar a mudança e manter os aumentos de temperatura abaixo dos 2ºC

Petteri Taalas
Secretário-geral da OMM

Antes de 1800, os níveis atmosféricos do gás eram de 280 PPM (partes por milhão), de acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (Noaa). Os níveis de CO2 já haviam atingido as 400 partes por milhão (ppm) antes, em certos locais e determinadas épocas do ano, mas não globalmente pelo ano todo como aconteceu agora.

“O ano de 2015 sinalizou uma nova era de otimismo e ação com o Acordo do clima de Paris. Mas também vai fazer história ao marcar o início de uma nova era de mudança do clima”, disse Petteri Taalas, secretário-geral da Organização Metereológica Mundial (OMM).

“Sem cuidar das emissões de CO2 não podemos enfrentar a mudança e manter os aumentos de temperatura abaixo dos 2ºC”, disse ele. Este é um patamar considerado minimamente seguro pela comunidade científica. Além disso, o cenário poderia ser um pesadelo, com um número crescente de eventos extremos, elevação do nível do mar, acidificação de suas águas e a extinção de muitas espécies.

Taalas adverte que o Acordo de Paris deve entrar em vigor o quanto antes, e que o mundo deve acelerar sua implementação. Instrumento da Convenção-Quadro de Mudanças do Clima da ONU (UNFCCC), trata da adaptação e mitigação dos efeitos das emissões, e do financiamento a medidas neste sentido. Foi assinado por 191 países, mas nem todos têm os mesmos interesses, ou políticas de ação.

“A questão central é sair da vontade política para a ação concreta”, disse Taalas  em coletiva à imprensa em Genebra. “Até o momento não observamos uma mudança de comportamento”.

“A tecnologia existe. Trata-se apenas da vontade humana. Se quisermos, podemos fazer”, afirmou Oksana Tarasova, chefe de pesquisa ambiental da OMM. Ela lembra esforços que deram certo, como a luta na Europa contra a chuva ácida, com o combate às emissões de enxofre e nitrogênio.

O aumento atual das emissões foi ampliado pelo fenômeno El Niño, que começou em 2015 e teve um forte impacto em 2016.  Ele é um evento atmosférico-oceânico caracterizado por um aquecimento anormal das águas superficiais no Oceano Pacífico Tropical.

As condições de seca produzidas pelo El Niño em regiões tropicais leva a vegetação a absorver menos CO2. Houve também emissões extras causada por incêndios, resultantes das mesmas condições.

Não vai acontecer do dia para a noite. Não se pode derreter a camada de gelo do planeta em dois dias. Mas estamos comprometidos quando o termostato atinge certa altura.

Jeremy Shakun
Professor de Ciências da Terra da Universidade de Boston

O problema é que o efeito El Niño se foi, mas a queima de combustíveis fósseis por atividades humanas não diminui. O CO2 fica na atmosfera por milhares de anos, aprisionando o calor e fazendo com que planeta aqueça ainda mais. A vida dele no oceano é ainda mais longa, e respondeu por 85 por cento do efeito de aquecimento do planeta na última década.

O relatório da OMM também detalha o crescimento de outros gases de efeito estufa, incluindo metano e óxido nitroso. Em 2015, as medições de metano foram 2.5 vezes maiores que na era pré industrial, e as do óxido nitroso, 1.2. Estes dois gases, mais o CO2, emitidos por atividades como indústria e agricultura, causaram um aumento de 37 por cento no efeito de aquecimento do planeta entre 1990 e 2015. Estas concentrações se encontram em seu ponto mais alto em 800 mil anos.

Há novas e boas iniciativas, como o acordo assinado recentemente  em Ruanda para a eliminação do hidroclorofluorcarbono (um gás de refrigeração), mas esta contribuição é pequena.

“Se 400 ppm tem qualquer significado real é que a mudança do clima não é mais uma questão do futuro, mas de hoje, de agora”, disse Adil Najam, diretor da Faculdade Frederick S. Pardee de Estudos Globais da Universidade de Boston.

Para entender como estes níveis de CO2 podem afetar o mundo, Jeremy Shakun, professor de ciências da Terra da Universidade de Boston, diz que podemos examinar o clima há três milhões de anos, em meio ao Plioceno. As temperaturas haviam então subido em mais de 3ºC, as camadas de gelo se tornaram muito menores e o nível dos oceanos era três metros mais alto.

“Não vai acontecer do dia para a noite”, afirma ele. “Não se pode derreter a camada de gelo do planeta em dois dias. Mas estamos comprometidos quando o termostato atinge certa altura”.

Enquanto isso, parte da iniciativa privada está longe de cumprir sua parte. Os planos de cortes de gases de efeito estufa de grandes companhias representam apenas um quarto das quantidades estabelecidas no Acordo de Paris.

“Mais empresas estão agindo, mas há um longo caminho pela frente”, disse Paul Simpson, diretor executivo da CDP, grupo independente baseado em Londres que rastreia o desempenho das empresas, e antes conhecido como Carbon Disclosure Project.

Se os planos de grandes companhias atingissem a meta planejada, o corte de emissões seria de 1 bilhão de toneladas de CO2 até 2030, ou um quarto do estimado para manter o aquecimento abaixo dos 2ºC.


Escrito por José Eduardo Mendonça

José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

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