Apontamentos sobre a eleição mais inesquecível

Vitória de Lula tem protagonismo do povo, salva democracia, encaminha enterro dos extremistas, mas não pode apagar o mantra: a luta continua

Por Aydano André Motta | ODS 16

Publicado em 06/11/2026 - 19h36 (Atualizado há 10 minutos)

Tempo de leitura: 12 min

Milhares de pessoas nas ruas de Brasília comemoram a vitória de Lula. Foto Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Aqui em casa (e de resto, na vida do acima assinado) tem presidenta, e ela sempre observa que coincidências não existem. Filosofia dos terreiros – mas mesmo os incréus vão se engajar na fé, sempre que os calendários do porvir marcarem o 25 de outubro. No Brasil, virou o Dia Nacional de Defesa da Democracia.

O motivo não era esse que você aí está pensando. A data, consagrada por lei aprovada no Congresso em 2024, foi a do martírio de Vladimir Herzog, jornalista assassinado pela ditadura, em 1975, nos subterrâneos do Doi-Codi, em São Paulo. Mas agora, virou efeméride dupla – e ainda mais sólida.

Exatos 51 anos depois, o estado democrático de direito foi salvo no domingo 25 de outubro, pela força do povo brasileiro. A mobilização elegeu Luiz Inácio Lula da Silva presidente pela quarta vez e – muito mais importante – impediu que o país mergulhasse num pesadelo real de crime e autoritarismo sem ressurreição em futuro visível. A vitória com inédita virada guarda aspectos únicos, incríveis, e sinalizações essenciais para eliminar definitivamente a barbárie da extrema-direita.

A seguir, 13 (sim!!) apontamentos sobre o histórico segundo turno da eleição de 2026.

1. OS PROTAGONISTAS

O papel principal da vitória coube ao povo – o que torna tudo ainda mais especial. Ao fim do primeiro turno, parecia tudo perdido, o Brasil mergulhado nas trevas de um Estado a caminho de ser comandando pelo crime organizado, e as liberdades se esvanecendo em praça pública. O país amanheceu a segunda-feira, 5 de outubro (dia seguinte ao primeiro turno) com o primeiro colocado na votação anunciando ministros e planejando mudar a Constituição, para acomodar seus delitos. Além disso, a vitória acachapante da extrema-direita no Congresso, indicava, na prática, uma ditadura. Sem democracia não tem jogo, decidiu a sociedade – começando pelos alunos de Direito da amada Universidade Federal Fluminense, que, ainda naquele dia, saíram pelas ruas de Niterói, na manifestação original. Não parou mais, tomando capitais, cidades médias, pequenas e rincões em atos orgânicos, setorizados, com e sem a presença de políticos. Mobilização pura, legítima, linda.

2. O COADJUVANTE

Quatro anos atrás, Lula matou no peito e usou a própria história para bater o então incumbente (só para usar palavra da moda), golpista assassino de milhares na pandemia. Agora, o petista virou coadjuvante do povo na rua, que o carregou à virada e a mais um mandato presidencial. No primeiro turno, ele e seus assistentes conjugaram o sapato alto de avaliar que ganhariam sem fazer força com estratégias flácidas e narrativas emboloradas. Ao chegar mais de 2,2 milhões de votos (quase dois pontos percentuais) atrás, bateu o desespero pela derrota aparentemente inevitável. Só assim o comando da campanha desembarcou da arrogância e se abriu a novas pessoas e ideias. Junto com a vitória, há muitas lições a aprender.

3. PESSOAL, URGENTE! EXPLODE!

Um personagem foi essencial na mobilização, por decifrar as redes sociais – até ali, feudo da extrema-direira, com a cumplicidade obscena das big techs – e atrair as pessoas na quantidade necessária. O mineiro André Janones (Rede), deputado reeleito, juntou mais de 10 milhões de eleitores no canal de Whatsapp “Exército do Lula” e, com lives, missões e bordões irresistíveis (“Pessoal, urgente!”, “Explode pro Brasil inteiro!”), virou meme, potencializou o conteúdo maciçamente até pavimentar a guinada digital na batalha dos votos.

4. OS MAIS PRECIOSOS ELEITORES

Idosos, sem obrigação de votar, vão à urna eleger Lula: lindeza. Reprodução redes sociais

Vai demorar para o Brasil produzir imagens tão comoventes como a dos idosos enfrentando limitações as mais variadas, somente para apertar o 13 na urna eletrônica e ajudar (decisivamente) na virada cívica. Senhoras e senhores saíram de casa para reencontrar a cidadania, pelos filhos e netos, pelo futuro. Carregados até no colo pelos mais jovens, em caronas solidárias, amparados por bengalas, muletas e cadeiras de rodas, só foram. Em nome da democracia, tourearam até a inaceitável falta de acessibilidade em seções eleitorais para esculpir cenas de felicidade e fervor cidadão. Agora, Lula está obrigado a criar toda uma política em benefício desses heróis. Com urgência. É o mínimo!

5. OS JOVENS

Além de ajudar seus velhinhos a chegar até a urna, os jovens exumaram a emoção da luta política. Vestiram vermelho, botaram a estrela no peito e saíram por aí, gritando por democracia, contra o fascismo e o entreguismo, pela liberdade e as minorias, sem medo da bandidagem que se aglomerou do lado de lá. Ótimo exemplo aconteceu no Rio, na passeata gigante liderada pelo vereador William Siri (PSOL) em Campo Grande, ninho da milícia na Zona Oeste carioca. Brilharam intensamente ainda a influenciadora mineira Ana Elisa, deputada federal eleita pelo PT com apenas 21 anos e muita maturidade política; o historiador e militante comunista Jones Manoel, 36, deputado eleito pelo PSOL de Pernambuco; o ativista LGTBQIA+ Guilherme Cortez, 29, que tomará posse na Câmara também em 2027 pelo PSOL-SP; a advogada e ativista paranaense Ana Júlia Ribeiro, 26, deputada federal eleita pelo PT; e o também petista Renato Freitas, 43, advogado e ativista antirracista que vai do Paraná para a Câmara. Representantes do futuro no campo progressista, precisam de espaço no presente.

6. JUÍZES PIORES QUE OS DO FUTEBOL

Lula venceu apesar da oposição incessante e desequilibrada do Tribunal Superior Eleitoral, controlado pelos ministros Kássio Nunes Marques – o KN das conversas picantes no celular de Daniel Master Vorcaro – e André Mendonça. A dupla, nomeada pelo presidente anterior, correu o campo todo para bloquear iniciativas do lado petista, enquanto faziam permanente vista grossa para as ilegalidades dos oponentes. Na ânsia por concretizar seus planos, ainda se consagraram como os juízes que mais trabalharam na história do Judiciário brasileiro. Mas sem motivo para congratulações.

7. BIG TECHS TÊM LADO

No time do gol com a mão, também têm vagas de titular as big techs, que suaram telas e teclados para beneficiar a quadrilha da extrema-direita. Postagens de um lado de outro tiveram distribuição extremamente desequilibradas; páginas pró-Lula saíram do ar sem motivo nem explicação; bloqueios de perfis ocorreram quase diariamente, sempre do lado petista. A barbaridade descarada atesta a urgência dramática de regulação do setor. Não se pode deixar tanto poder na mão de empresários antiéticos.

8. E A IMPRENSA, HEIN?

A mídia sai arranhada da odisseia eleitoral, por teimar na falsa equivalência entre um homem público com longos serviços prestados à democracia, que jamais questionou sentenças judiciais ou resultados eleitorais, contra um aventureiro todo enrolado com corrupção, milícias e uma miríade de bandalheiras. O candidato da oposição mentiu despudoradamente em sabatinas e debates, sem ser questionado na medida devida. Além disso, projetos e propostas dos dois candidatos ficaram ofuscados por acusações que se desmanchavam em bate-bocas estéreis.

Ato em apoio à reeleição de Lula na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Foto Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

9. O TEMA (COMO SEMPRE) ESQUECIDO

Como na campanha anterior e na próxima, o meio ambiente foi um não-assunto nos debates, entrevistas e propagandas. Crise climática, cuidado com os biomas, desmatamento, gestão hídrica, saneamento, licenciamentos, fiscalização – quase nada passou pela corrida eleitoral. Uma lástima.

10. O DESTERRO DA FAMILÍCIA

O derrotado nepobaby reaça que tentou ser presidente virou constrangimento planetário, enquanto sua família vê mesmo os seguidores mais leais pisarem no freio da insensatez. O pai está preso – e é inaceitável qualquer barganha para anistia-lo; dois filhos (incluindo o candidato) viraram párias, foragidos nos EUA; outros dois herdeiros se elegeram respectivamente senador e deputado federal por Santa Catarina, mas são olhados como bizarrices irrecuperáveis até pelos aliados; a ex-primeira-dama conquistou mandato também no Senado, mas sua falta de entusiasmo com o clã é ensurdecedora. Só vão sobrar os malucos, para essa súcia morrer com o tempo. Já vai tarde.

11. O CONGRESSO

O Legislativo ficou como a pior notícia da eleição toda. Uma horda de extremistas se elegeu para Câmara e Senado, prometendo tempos difíceis aos defensores do estado de direito por lá. Lula terá de usar todo seu talento de negociador para conseguir tocar o governo e viabilizar propostas, diante da montanha de hostilidade e radicalismo que se erguerá a partir de fevereiro. Para tentar ver o copo meio cheio, o Senado de oposição obrigará o presidente a aposentar prática nefasta que se naturalizou: indicar amiguinhos ao Supremo. A única chance de emplacar as quatro nomeações que fará até o fim do mandato será apresentar nomes técnicos, com diversidade, e assim constranger os senadores a aprová-los. A prática do “meu ministro, ministro deles” tem de terminar.

12. O MUNDO VIRA TAMBÉM

O Brasil virou farol do mundo e “fazer o L” se transformou em símbolo planetário das forças progressistas. A goleada democrata nas eleições de meio de mandato nos EUA sinaliza que o vento está, enfim, mudando de rumo. Mesmo ameaças golpistas pereceram: todos os presidentes de direita da América Latina parabenizaram o líder petista pela nova vitória. Prematuro festejar – é preciso estar atento e forte, lembrem-se – mas a maldição da súcia ultraconservadora dá sinais de murchar. Viva!

13. AMANHÃ PRECISA SER UM NOVO DIA

Lula tem diante de si um rosário de tarefas, na direção do futuro. A esquerda necessita sair da sombra de seu grande líder e apresentar nomes consistentes para as batalhas que virão. Flávio Dino, Camilo Santana, Rafael Fonteles são algumas possibilidades, mas as agendas de representatividade e diversidade não podem mais esperar. O comando político também terá que ser dividido com as novas forças progressistas, consagradas nas urnas. O próximo mandato será, provavelmente, o mais penoso dos quatro, diante do tamanho da oposição, em especial no Congresso. Assim, deve se tornar inevitável negociar itens caros aos conservadores. Mas o volúvel Centrão, que se bandeou para o outro lado, e a gulosa Faria Lima, em seus carinhos sem ter fim pelas perversidades econômicos, merecem a lata do lixo.

Com ou sem sofrimento, com ou sem frustração, o clichê serve de mantra: a luta continua. Agora, iluminada pela vitória mais incrível.

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Aydano André Motta

Niteroiense, Aydano é jornalista desde 1986. Especializou-se na cobertura de Cidade, em veículos como “Jornal do Brasil”, “O Dia”, “O Globo”, “Veja” e “Istoé”. Comentarista do canal SporTV. Conquistou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2012. Pesquisador de carnaval, é autor de “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija-Flor” e “Onze mulheres incríveis do carnaval carioca”, da coleção Cadernos de Samba (Verso Brasil). Escreveu o roteiro do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris”. E-mail: aydanoandre@gmail.com. Escrevam!

Aydano André Motta

Niteroiense, Aydano é jornalista desde 1986. Especializou-se na cobertura de Cidade, em veículos como “Jornal do Brasil”, “O Dia”, “O Globo”, “Veja” e “Istoé”. Comentarista do canal SporTV. Conquistou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2012. Pesquisador de carnaval, é autor de “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija-Flor” e “Onze mulheres incríveis do carnaval carioca”, da coleção Cadernos de Samba (Verso Brasil). Escreveu o roteiro do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris”. E-mail: aydanoandre@gmail.com. Escrevam!

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