O Cristianistão, uma distopia (ou não)

Um país bizarro, totalmente baseado em fatos, possibilidades e ameaças muito reais

Por Aydano André Motta | ODS 16

Publicado em 12/10/2026 - 00h05 (Atualizado há 2 minutos)

Tempo de leitura: 7 min

“The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia)”: distopia que, por enquanto, vive na ficção. Reprodução

O pessoal do Cristianistão não desconfiou nem quando o presidente anunciou a privatização da JesusPetro, a empresa de petróleo famosa por conseguir extrair o produto lá na camada pré-sal. Bateram palmas quando o mandatário anunciou que ele mesmo seria o comprador, com recursos do Irmãozão Ativos e Debêntures, nova maior instituição financeira do país. Empréstimo tão generoso comoveu o líder, que anunciou comissão de 20% para o banqueiro de nome bíblico.

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Aliás, até outro dia, o Cristianistão não se chamava assim; tinha o nome de uma planta nativa, mas como as florestas acabaram, os governistas defenderam que a denominação precisava ser modernizada. O presidente enviou a medida para o Congresso que cumpriu a formalidade burocrática de aprovar. Os 27 ministros do Supremo sequer se manifestaram. Ninguém mais se interessa pelos pareceres da Corte.

Do exílio, a oposição ainda tentou reclamar, mas não foi ouvida. As forças de segurança – além das polícias tradicionais, havia a CristoKlan, identificada por chapéus brancos, em formato de cone – sufocaram os protestos internos com tiros para o alto e ameaças avalizadas pelo presidente em vários pronunciamentos, veiculados por cadeia de rádio e televisão.

A alteração mais profunda se deu no perfil da população carcerária. Os milicianos e traficantes que lotavam as cadeias foram soltos num conjunto de decisões monocráticas da Justiça, batizadas “Liberdade Geral aos Servos do Senhor Jesus”. Mas presídios e penitenciárias lotaram de novo, rapidamente, com críticos e opositores que se insurgiram à instalação da nova ordem. Os detentos eram LGBTs, uns poucos padres (sobreviventes dos incêndios das igrejas), feministas, cineastas, atores, artistas plásticos, sambistas, líderes de sindicatos dissolvidos, ativista antirracistas, quilombolas e ribeirinhos. (Não sobraram indígenas para encarcerar.) Quem não fugiu, foi para a cadeia – sempre em nome da liberdade.

Nem a fome, que voltou com força, se alastrando pelos mais vulneráveis, alterou a aparente indiferença. Também não se ouviram protestos com o fim do SUS, o Bolsa Família e todos os outros programas sociais existentes no Cristianistão desde os tempos do nome antigo. Para não ser acusado de insensível, o presidente criou o grande programa de seu governo, a “Dieta do Osso”.

Nem precisava. A miséria acabou por decreto, logo depois da proibição das vacinas. Os hospitais públicos foram vendidos, e as escolas entregues a um consórcio de quartéis e igrejas neopentecostais. Com o fechamento dos institutos de pesquisa, desapareceram as estatísticas que identificavam as mazelas sociais.

Enquanto isso, os cristianistenses ocuparam-se de adorar seu novo quintal e a bandeira redesenhada, com pitadas de azul e vermelho em homenagem a seu ídolo platinado. Aguardava-se para qualquer momento a chegada do líder supremo, que viria pessoalmente tomar posse de minas, terras raras, metais críticos e outras riquezas do subsolo, cuja titulação fora passada a ele por lei aprovada no Congresso.

O homem da gravata comprida era aguardado com especial ansiedade pelo presidente-pai. A criação do cargo destacou-se no conjunto de emendas constitucionais proposto no discurso de posse do novo mandatário, e aprovado em minutos no sistema “os que forem a favor permaneçam como estão”. Seu ocupante, identificado por coroa inspirada nos capacetes militares, era um ex-detento, antes em prisão domiciliar, solto pelos oficiais da CristoKlan entre fogos de artifício e tiros de fuzil para o alto.

O novo código moral controlava com rigor os hábitos e costumes da população. Transformou em crime, por exemplo, as festas populares, folclóricas e, claro, religiosas. Proibiu-se ainda o ato de ir à praia – mas a medida revelou-se inócua, porque o litoral fora inteiramente privatizado na primeira semana de governo, e entregue a multinacionais estrangeiras do turismo. (Os poucos pescadores que protestaram ganharam viagens só de ida às profundezas do Atlântico.)

O Cristianistão desfiliou-se da ONU e da OEA e retirou sua assinatura do Acordo de Paris – afinal, crise climática é mimimi de comunista, segundo o chanceler, irmão do presidente, declarou em seu discurso de posse. Como grande medida de sua gestão, criou a Bolsa Outlet, que previa isenção para ricos brasileiros comprarem em visitas à matriz do Norte.

Aguardava-se para breve, novo pronunciamento do presidente, no qual ele anunciará a atualização do Brasão da República. Será descartado o símbolo das cinco estrelas de prata, dispostas na posição do Cruzeiro do Sul, em fundo azul-celeste, cercadas por estrelas em número igual ao da bandeira, pousadas na estrela dourada e verde. Muito complicado.

No lugar, vai ser usado um pneu.

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Aydano André Motta

Niteroiense, Aydano é jornalista desde 1986. Especializou-se na cobertura de Cidade, em veículos como “Jornal do Brasil”, “O Dia”, “O Globo”, “Veja” e “Istoé”. Comentarista do canal SporTV. Conquistou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2012. Pesquisador de carnaval, é autor de “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija-Flor” e “Onze mulheres incríveis do carnaval carioca”, da coleção Cadernos de Samba (Verso Brasil). Escreveu o roteiro do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris”. E-mail: aydanoandre@gmail.com. Escrevam!

Aydano André Motta

Niteroiense, Aydano é jornalista desde 1986. Especializou-se na cobertura de Cidade, em veículos como “Jornal do Brasil”, “O Dia”, “O Globo”, “Veja” e “Istoé”. Comentarista do canal SporTV. Conquistou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2012. Pesquisador de carnaval, é autor de “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija-Flor” e “Onze mulheres incríveis do carnaval carioca”, da coleção Cadernos de Samba (Verso Brasil). Escreveu o roteiro do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris”. E-mail: aydanoandre@gmail.com. Escrevam!

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