Eleições 2026 pela ótica saudosista das campanhas barulhentas

Nesses tempos em que as ruas são trocadas pelas redes sociais, eleitor veterano pega carona na tendência virtual para viajar até os anos 80

Por Oscar Valporto | ODS 16

Publicado em 29/09/2026 - 08h59

Tempo de leitura: 8 min

Minha mais antiga lembrança eleitoral é um jingle: “É o M, é o D, é o B / É o M, é o D, é o B / É o meu povo que está com você / Nem precisa explicar porquê / É o MDB, é o MDB é o MDB”. Não precisava explicar nem podia explicar – porque essas eleições foram em 1970, em plena ditadura militar, e o MDB era o partido criado pelo regime para ser uma oposição comportada. Mas rolava um clima eleitoral: carros de som – fuscas com alto-falantes na capota – rodavam tocando os jingles dos dois partidos (o outro era o governista Arena) e até as crianças como eu eram abordadas pelos cabos eleitorais e recebiam santinhos dos candidatos a deputado estadual e federal e a senador (eleições para governador e presidente estavam banidas).

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Nessas eleições 2026, eu nem decorei a nova versão do Rap do Silva e acho que nem ouvi o dos outros presidenciáveis. Nos bairros da Zona Sul e da Zona Norte, é possível andar quarteirões sem sequer aparecer um cabo eleitoral com bandeira ou santinho para distribuir. Por isso, nessa reta final de primeiro turno, gosto ainda mais de ir ao Centro do Rio, onde tem sempre uma caminhada de candidatos, um bandeiraço, um jingle tocando – nem que seja do candidato do ex-governador inelegível e investigado por esquemas diversos e do ex-presidente golpista atualmente em prisão domiciliar. A campanha está cada vez mais concentrada nas redes sociais, à mercê dos algoritmos e da desinformação em massa.

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Às vésperas desse primeiro turno das eleições 2026, dei uma vasculhada em antigas fotos para entrar nessa brincadeira que o pessoal anda fazendo de como seria nos anos 80 – usando a IA. Como eu estava lá, posso dispensar a ferramenta. Busquei uma foto da primeira eleição para governador no Rio de Janeiro após o golpe militar, em 1982, quando votamos também para vereador, deputado estadual e federal e senador. Cheguei a distribuir santinhos para uma candidata, novata na política, à Câmara Municipal, “mulher, negra e favelada”, que foi eleita. Mas não achei fotos dessa eleição: aquela em que, apesar das manobras dos filhotes da ditadura aqui no Rio, no tempo que voto era de papel e as fraudes comuns, deu “Brizola na cabeça” – era o slogan do candidato.

Colunista e amigos no comício de Lula no segundo turno das eleições presidenciáveis: campanhas mais barulhentas e ruas com permanente clima eleitoral (Foto: Marcelo Carnaval / Arquivo Pessoal)
Colunista e amigos no comício de Lula no segundo turno das eleições presidenciáveis: campanhas mais barulhentas e ruas com permanente clima eleitoral (Foto: Marcelo Carnaval / Arquivo Pessoal)

Durante aqueles anos 1980, com a ditadura nos estertores, a política ganhou as ruas com a campanha pelas eleições diretas para presidente – milhões lotaram praças e avenidas por todo o país em 1984, mas o Congresso barrou a emenda. Mas teve eleição para prefeito da capital em 1985, eleição para a Assembleia Constituinte em 1986 (e novamente para governador), nova eleição municipal em 1988, e, finalmente, as primeiras eleições diretas para presidente em 1989. Em alguns pontos do Rio de Janeiro, nos anos de votação, o clima de campanha eleitoral era permanente e durava semanas – na Cinelândia, no Largo da Carioca, na Central do Brasil, no centro dos bairros da Zona Oeste, na estação das barcas de Niterói, nas praças principais de Duque de Caxias e Nova Iguaçu, maiores municípios da Baixada Fluminense.

Achei uma foto dos anos 80, exatamente do comício no segundo turno da primeira campanha de Lula a presidente em 1989: uma multidão ocupou a Candelária, tomando as pistas da Avenida Presidente Vargas, mais de 200 mil pessoas com certeza, um milhão na conta otimista dos organizadores. Nas outras grandes manifestações do Rio, tinha ido trabalhando: repórter, cobri todas as eleições de 1982 a 1988. Mas, em 1989, trabalhava na Editoria de Esporte: fui de manifestante mesmo, podia levar bandeira e fazer o L.

O palanque naquela noite de dezembro remetia ao comício pelas Diretas Já, cinco anos antes, pois reunia novas lideranças do país, como o próprio Lula; políticos que haviam sido exilados e voltaram após a anistia, como Miguel Arraes e Leonel Brizola, que engoliu suas diferenças com o PT; líderes que tiveram mandatos cassados como Mário Covas e Franco Montoro, fundadores do então recém-nascido PSDB, e políticos que resistiram na oposição consentida do MDB, capitaneados pelo veterano Ulysses Guimarães.

Bandeiraço perto do Largo da Carioca: Centro do Rio é um dos poucos lugares da cidade com clima eleitoral na campanha 2026, em que redes sociais substituíram o corpo-a-corpo nas ruas (Foto: Oscar Valporto)
Bandeiraço perto do Largo da Carioca: Centro do Rio é um dos poucos lugares da cidade com clima eleitoral na campanha 2026, em que redes sociais substituíram o corpo-a-corpo nas ruas (Foto: Oscar Valporto)

Era uma frente de democratas contra Fernando Collor de Mello, de tradicional família de fazendeiros e políticos de Alagoas, com um discurso populista de estado-mínimo e caça aos “marajás do serviço público”. Com Collor, ficaram os filhotes e saudosistas da ditadura, malufistas e os setores mais reacionários da sociedade, inclusive um certo Ronaldo Caiado, que fora presidenciável (menos de 1% dos votos no primeiro turno), após ser presidente da União Democrática Ruralista, conhecida por representar os mais atrasados proprietários de terra do país.

Nestas eleições 2026, as ruas não servem mais como termômetro. Candidatos e partidos ainda reúnem multidões em grandes eventos – mas, na maior parte do país, falta aquele corpo-a-corpo de décadas, o pedido de voto olho no olho, a interpelação popular ao candidato na rua. As campanhas foram recuando para os meios de comunicação, para internet, para as redes sociais.

Eleitor veterano, sinto falta da poluição sonora dos jingles, da sujeira cívica dos santinhos impressos. Mas sigo animado e esperançoso que, nas eleições 2026, a democracia vença mais uma vez, que os democratas mais uma vez derrotem os golpistas de sempre, os saudosistas da ditadura, os inimigos da igualdade, da liberdade, da ciência, do planeta.

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Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

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