Tainá de Paula: “o calor extremo precisa ser tratado como emergência de saúde pública”

Tainá de Paula, ex-secretária municipal de Meio Ambiente e Clima do Rio, com o contador de árvores digital da cidade: calor extremo é uma emergência de saúde pública, principalmente nas favelas e periferias (Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil - 19/03/2026)
Tainá de Paula, ex-secretária municipal de Meio Ambiente e Clima do Rio, com o contador de árvores digital da cidade: calor extremo é uma emergência de saúde pública, principalmente nas favelas e periferias (Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil - 19/03/2026)
Tainá de Paula, ex-secretária municipal de Meio Ambiente e Clima do Rio, com o contador de árvores digital da cidade: calor extremo é uma emergência de saúde pública, principalmente nas favelas e periferias (Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil – 19/03/2026)

Ex-secretária de Meio Ambiente e Clima do município do Rio lança livro e alerta para a ameaça desse assassino silencioso, às vésperas dos impactos de um El Niño muito forte

Por Oscar Valporto | ODS 13

Publicado em 26/08/2026 - 09h10 (Atualizado há 14 minutos)

Tempo de leitura: 23 min

Nascida numa comunidade na Praça Seca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a arquiteta e urbanista Tainá de Paula viveu a experiência de ser secretária municipal de Meio Ambiente e Clima do Rio de Janeiro entre 2023 e 2026, uma cidade particularmente impactada pelos eventos extremos do clima, como frequentes ondas de calor, com temperaturas passando dos 40 graus, temporais e enchentes – responsáveis por algumas passagens trágicas da história carioca. São desse período a maioria dos textos reunidos no livro ‘Território em Risco: Crise ecológica e o destino das cidades’, que Tainá está lançando pela Editora Oficinar.

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A vereadora pelo PT – eleita em 2020 e reeleita em 2024 – fez um pré-lançamento do livro na Flip (Feira Literária Internacional de Paraty) e terá noite de autógrafos nesta quinta-feira, 27/08, na Livraria Blooks, em Botafogo, Zona Sul do Rio. Com a eminente chegada de um El Niño particularmente forte, os textos de Tainá de Paula, 43 anos, sobre os efeitos da crise climática nas cidades brasileiras ficam ainda mais atuais.

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Em entrevista ao #Colabora, entre um lançamento e outro, a arquiteta analisou como a crise climática já vem afetando os moradores das favelas e periferias, exatamente os mais vulneráveis aos eventos extremos. E não teve dúvida em apontar o calor extremo como a maior ameaça a essa população, sem minimizar enchentes e deslizamentos causadas pelas chuvas cada vez mais intensas e prolongadas. “O calor extremo é um problema de saúde pública que a favela enfrenta o ano inteiro”, afirmou.

Tainá de Paula autografa seu livro 'Território de Risco', durante o pré-lançamento na Flip: "O calor extremo mata de um jeito diferente: devagar, todos os dias, sem aparecer no boletim de óbitos como morte por calor" (Foto: Wagner da Silva / Divulgação)
Tainá de Paula autografa seu livro ‘Território de Risco’, durante o pré-lançamento na Flip: “O calor extremo mata de um jeito diferente: devagar, todos os dias, sem aparecer no boletim de óbitos como morte por calor” (Foto: Wagner da Silva / Divulgação)

#Colabora – Com a sua experiência pessoal, de moradora da periferia, e na gestão pública, como secretária, como um verão de calor extremo – com o esperado El Niño muito forte – impacta na rotina dos moradores de comunidades vulneráveis?

Tainá de Paula – Eu falo desse tema com o corpo, não só com o cargo. Cresci na favela, e sei o que é esperar a noite chegar torcendo pra refrescar um pouco, sabendo que não vai acontecer. Depois, como arquiteta e urbanista, passei anos trabalhando com assistência técnica em habitação popular. E o conforto térmico sempre foi uma das questões mais invisibilizadas deste trabalho.

O morador de favela sabe, no corpo, que o calor está mais forte. Isso ele sente todo verão, sem precisar de boletim meteorológico. O que ainda é difícil é ele nomear essa sensação como parte de uma crise climática global. Porque esse debate historicamente foi feito de forma muito distante da vida real das pessoas, entre países, em salas com ar-condicionado

Tainá de Paula
Arquiteta, urbanista e ex-secretária municipal de Meio e Clima do Rio

A gente discutiu muito a ventilação das casas de periferia durante a pandemia, mas o calor extremo é um problema de saúde pública que a favela enfrenta o ano inteiro, e que pode se agravar com esse El Niño que se desenha para 2026/2027.

As projeções mais recentes indicam grandes chances de o fenômeno atingir uma intensidade muito forte entre outubro e dezembro, as projeções indicam temperaturas mais elevadas e mais ondas de calor. Isso não é abstrato: em novembro de 2023, uma semana depois de perdermos uma jovem por causa do calor extremo num show, batemos sensação térmica de 60°C na cidade, e tivemos um atendimento médico por hora de exposição ao calor. Esse tipo de evento pode voltar a se repetir, e com mais frequência.

Tainá de Paula na devolução de capivara ao seu habitat: ex-secretária de Meio Ambiente e Clima do município do Rio lança livro e alerta para a ameaça do calor extremo para favelas e periferias (Foto: Wagner da Silva / Divulgação - 21/05/2026)
Tainá de Paula na devolução de capivara ao seu habitat: ex-secretária de Meio Ambiente e Clima do município do Rio lança livro e alerta para a ameaça do calor extremo para favelas e periferias (Foto: Wagner da Silva / Divulgação – 21/05/2026)

#Colabora – O morador da favela, hoje, tem a noção clara de que o calor está cada vez mais forte? Ele tem consciência de que há uma real crise do clima?

Tainá – Sobre a consciência do morador: eu diria que sim e não. O morador de favela sabe, no corpo, que o calor está mais forte. Isso ele sente todo verão, sem precisar de boletim meteorológico. O que ainda é difícil é ele nomear essa sensação como parte de uma crise climática global. Porque esse debate historicamente foi feito de forma muito distante da vida real das pessoas, entre países, em salas com ar-condicionado, enquanto quem sente o impacto na pele nem sempre está na mesa. É por isso que insisto tanto em conectar o clima com a injustiça ambiental.

O calor extremo aumenta o risco de doenças cardiovasculares, que já atingem desproporcionalmente a população negra. Não é coincidência. É a mesma população que historicamente foi empurrada para os territórios com menos arborização, menos ventilação, mais laje quente. Quando a gente nomeia isso, a ficha cai: “ah, então isso é sobre desigualdade, não só sobre tempo”.

#Colabora –  Há iniciativas locais, individuais ou comunitárias, para minimizar as altas temperaturas?

Tem iniciativa, sim, tanto institucional quanto comunitária. Na Prefeitura, lançamos em 2024 o Protocolo de Calor, que classifica níveis de alerta e aciona ações integradas entre meio ambiente, saúde e assistência social, de pontos de resfriamento a suspensão de atividades ao ar livre em dias críticos. Temos também o programa Cada Favela uma Floresta, que trabalha arborização e infraestrutura verde dentro das próprias comunidades, porque sombra e vegetação também podem ser vistas como políticas de saúde pública.

O calor extremo mata de um jeito diferente: devagar, todos os dias, sem aparecer no boletim de óbitos como “morte por calor”. Ele mata por infarto, por AVC, por insuficiência respiratória em quem já tinha uma condição prévia. E essas mortes raramente são contabilizadas como efeito climático. É um risco crônico, cumulativo, que não dá trégua durante meses seguidos de verão

Tainá de Paula
Arquiteta, urbanista e ex-secretária municipal de Meio Ambiente e Clima do Rio

Mas o que mais me orgulha é quando a resposta vem de dentro do território. No Complexo do Alemão, um dos pontos mais quentes da cidade, criamos o Observatório do Calor do Alemão: moradores formados como pesquisadores, medindo temperatura e qualidade do ar no próprio bairro. Isso é importante por dois motivos. Dá dado real e localizado, que os grandes modelos climáticos não capturam, e devolve para o morador o protagonismo de entender o que está acontecendo com o clima onde ele vive. Fora isso, tem toda uma sabedoria informal que já existe há gerações nas favelas. O jeito de construir, de ventilar, de organizar a rotina em torno do calor que a gente precisa reconhecer como conhecimento técnico, não como “gambiarra”.

No fim, o que eu digo sempre é isso: enfrentar a crise climática na favela é, antes de tudo, enfrentar o racismo ambiental que decidiu, historicamente, quem vive na sombra e quem vive no sol.

#Colabora – Para você, com essa experiência, qual a maior ameaça para os mais vulneráveis? As ondas de calor extremo – mais intensas e mais prolongadas ou as enchentes provocadas pelas chamadas chuvas de verão, também mais intensas e prolongadas? Por quê?

Tainá – Essa é uma pergunta que não tem resposta fácil, e queria começar dizendo isso: as duas ameaças são graves, e não são separadas — são parte do mesmo fenômeno. O calor extremo e as chuvas intensas de verão são, na verdade, dois efeitos do mesmo desequilíbrio atmosférico. No caso do El Niño, o mesmo bloqueio térmico que segura o ar quente sobre o continente e eleva as temperaturas é, depois, o que carrega energia e umidade suficientes para descarregar em temporais mais violentos quando esse bloqueio se rompe. Quem vive em território vulnerável não escolhe entre as duas — vive as duas, na mesma estação.

Para refrescar e ventilar, o caminho é urbanístico. Densidade urbana e impermeabilização do solo são o que agravam o calor nas favelas: menos área verde, mais concreto e telhado de laje absorvendo e devolvendo calor. Por isso, a resposta estrutural passa por arborização e recuperação de corpos hídricos dentro dos próprios territórios, não só no entorno

Tainá de Paula
Arquiteta, urbanista e ex-secretária municipal de Meio Ambiente e Clima do Rio

Dito isso, se eu precisar apontar uma como a ameaça maior, eu digo: o calor extremo. A enchente e o deslizamento matam de forma visível, concentrada, que vira manchete. E é bom que virem, porque cada uma dessas tragédias é uma tragédia anunciada, evitável, fruto de décadas de ausência do Estado nos territórios de encosta e de fundo de vale. Em fevereiro deste ano, só no primeiro bimestre, o Sudeste teve mais de 1,1 milhão de pessoas atingidas e 72 mortes por temporais, quase metade delas concentradas numa única tragédia em Juiz de Fora. São números que doem e que cobramos resposta imediata.

Mas o calor extremo mata de um jeito diferente: devagar, todos os dias, sem aparecer no boletim de óbitos como “morte por calor”. Ele mata por infarto, por AVC, por insuficiência respiratória em quem já tinha uma condição prévia. E essas mortes raramente são contabilizadas como efeito climático. É um risco crônico, cumulativo, que não dá trégua durante meses seguidos de verão. Enquanto a enchente é um evento pontual, por mais violento que seja. E o calor extremo atinge quem já está mais fragilizado: idosos, gestantes, pessoas com doença cardiovascular que, no Brasil, é desproporcionalmente a população negra e periférica. Isso sem falar de quem trabalha exposto ao sol todos os dias, ou de quem mora em laje sem isolamento térmico nenhum, onde a casa vira um forno à noite, quando deveria ser o momento de descanso do corpo.

É por isso que insisto tanto nessa pauta desde que sou arquiteta e urbanista: o calor é o efeito mais direto e mais abrangente desse novo ciclo climático. As próprias projeções para este El Niño 2026/2027 apontam a elevação de temperatura como o impacto mais certo para o Sudeste, enquanto o efeito sobre as chuvas é mais variável, mais regionalizado. Isso significa que o calor vai chegar, sem exceção, em todos os territórios e que, quanto mais silencioso ele for, mais ele vai continuar sendo tratado como coisa do verão, e não como a emergência de saúde pública que já é.

Tainá de Paula (centro) ciceroneia a ministra Conceição Evaristo em visita ao Programa Hortas Cariocas, da Prefeitura do Rio: arborização e recuperação de corpos hídricos são caminhos para minimizar calor extremo nas favelas (Foto: Divulgação)
Tainá de Paula (centro) ciceroneia a ministra Conceição Evaristo em visita ao Programa Hortas Cariocas, da Prefeitura do Rio: arborização e recuperação de corpos hídricos são caminhos para minimizar calor extremo nas favelas (Foto: Divulgação)

#Colabora – E o que pode ser feito para ‘refrescar’ ou ‘ventilar’ favelas e outras comunidades vulneráveis? 

Tainá – Para refrescar e ventilar, o caminho é urbanístico. Densidade urbana e impermeabilização do solo são o que agravam o calor nas favelas: menos área verde, mais concreto e telhado de laje absorvendo e devolvendo calor. Por isso, a resposta estrutural passa por arborização e recuperação de corpos hídricos dentro dos próprios territórios, não só no entorno. O programa Cada Favela é uma Floresta, que trabalha infraestrutura verde dentro das comunidades, recupera a área degradada, previne o risco geológico e, entre os efeitos, melhora o microclima. Em paralelo, o programa Corredores Verdes já arborizou trechos de vias em territórios como o Complexo do Alemão, Bangu, Guaratiba e Irajá, com o objetivo direto de reduzir a temperatura local e de melhorar a qualidade do ar. Toda obra pública da Prefeitura passou a ser obrigada, por decreto, a incorporar arborização e infraestrutura verde no projeto.

Isso se soma à recuperação de parques e praças de bairro (o Parque Realengo Verde, por exemplo, atua numa das regiões mais quentes da cidade). E ao trabalho mais lento, mas necessário, de assistência técnica em habitação: pensar na ventilação cruzada, cobertura, orientação solar da construção. Essa parte é a que menos aparece. Mas é a que eu mais defendo desde antes de ser secretária, porque mexe direto na casa onde a pessoa dorme.

#Colabora – E o que pode ser feito para minimizar os impactos das temperaturas extremas nos locais em que ainda não é possível dar esse ‘refresco’?

Tainá – Onde essa transformação ainda não chegou, e ela não chega da noite para o dia, a resposta é o Protocolo de Calor, que a Prefeitura estruturou em 2024. Ele funciona por níveis de alerta, do 1 ao 5, de acordo com o Índice de Calor, e cada nível aciona ações específicas: abertura de pontos de resfriamento com ar-condicionado, ampliação de estações de hidratação e distribuição de água em áreas vulneráveis, suspensão de atividade externa em escolas, orientação para reduzir a exposição de quem trabalha ao ar livre (com pausas de 15 minutos a cada 45 minutos de atividade sob sol nos níveis mais críticos) e priorização de atendimento para grupos de maior risco: idosos, crianças pequenas, gestantes, pessoas com comorbidade e população em situação de rua. Isso é resposta emergencial, não solução. Resolve o dia de calor extremo, não resolve o território. Mas enquanto a arborização não cresce e a reforma habitacional não chega em todas as casas, é o que existe para reduzir internação e óbito nesse intervalo.

#Colabora – Outra ameaça climática é provocada pelas chuvas intensas. As enchentes têm duas trágicas consequências – uma delas bem característica do Rio, mas também de outras cidades, são os deslizamentos de encostas. O que pode ser feito para efetivamente evitar que as chuvas provoquem mortes de moradores dessas encostas? 

Tainá – Para evitar mortes, o monitoramento e a resposta antecipada são essenciais. O Sistema Alerta Rio da Prefeitura do Rio de Janeiro acompanha os dados meteorológicos em tempo real e alimenta o Centro de Operações (COR), que existe desde 2010 para coordenar a resposta entre os órgãos públicos. Quando o risco é alto, a Prefeitura pode decretar ponto facultativo e mobilizar a cidade antes da chuva, não depois dela. Isso precisa estar amarrado a um trabalho contínuo de mapeamento geológico e visita técnica nas encostas, para identificar pontos de risco iminente. Quando esse risco é real e imediato, a remoção preventiva de famílias antes do desastre é o que salva vidas, desde que feita com alternativa de moradia digna, não como reação tardia depois da tragédia.

#Colabora – O que pode ser feito para minimizar o impacto nas encostas ocupadas?

Tainá – Para minimizar o impacto nas encostas já ocupadas, o caminho é obra de contenção e drenagem. Desde 2021, a cidade do Rio de Janeiro já executou mais de 160 obras de contenção de encostas, além de investimento em desobstrução de galerias pluviais. Em territórios como Complexo do Alemão, Maré e Chácara do Tanque, o programa Territórios Sociais implantou soluções específicas: terraços drenantes e escalonados, biovaletas e escadas hidráulicas, que reduzem o volume de água que desce a encosta de uma vez. O reflorestamento também entra aqui: cobertura vegetal ajuda a segurar o solo e reduzir o escoamento superficial.

#Colabora – Outra consequência trágica vem das enxurradas às margens de rios assoreados e ocupados por moradias precárias – o que acontece no Rio, em toda a nossa região metropolitana e em boa parte das grandes cidades. O que pode ser feito para efetivamente evitar que as enchentes arrasem essas casas? O que pode ser feito para minimizar o impacto nas margens de rio ocupadas?

Tainá – Para evitar mortes em áreas ribeirinhas, a lógica de alerta antecipado é a mesma das encostas: monitoramento do nível dos rios, comunicação de risco e, em casos de risco iminente de vida, remoção preventiva antes da enchente.

O mapa de quem desmata a encosta ou ocupa a margem do rio é o mesmo mapa de quem não teve acesso à moradia formal, a saneamento e a política habitacional. Chamar essa população de vilã da degradação ambiental sem mencionar que ela foi historicamente empurrada para essas áreas, por ausência de alternativa de moradia com preço acessível e infraestrutura, é inverter causa e efeito.

Tainá de Paula
Arquiteta, urbanista e ex-secretária municipal de Meio Ambiente e Clima do Rio

Para minimizar o impacto nas margens ocupadas, a resposta é estrutural: desassoreamento e limpeza contínua dos rios (o programa Guardiões dos Rios hoje atua em 173 cursos d’água da cidade), macrodrenagem com reservatórios de contenção (os piscinões, que na região da Grande Tijuca, somam capacidade para 118 milhões de litros de água), e urbanização das favelas às margens desses rios, com rede de esgoto e abastecimento de água, através de programas como Morar Carioca. Há também planos específicos por bacia hidrográfica, como o plano de intervenções para a Bacia do Rio Acari, criado depois dos alagamentos de 2024 naquela região. O ponto central é que a ocupação irregular das margens dos rios e ausência de saneamento se alimentam. Sem coleta de esgoto, o rio vira depósito, assoreia mais rápido, e transborda com mais facilidade na próxima chuva forte.

#Colabora – Remoção – nas encostas e margens de rios – é solução?

Tainá – Não, não é solução geral, e não deveria ser a primeira resposta. Remoção em massa sem alternativa de moradia digna só desloca a vulnerabilidade para outro lugar da cidade do Rio de Janeiro, além de romper o vínculo comunitário e de renda que a família levou anos para construir.

Mas há situações em que ela é necessária: quando o risco geológico ou hidrológico é técnico, comprovado e iminente, e nenhuma obra de contenção reduz esse risco a um nível seguro. Nesses casos específicos, a remoção é o que evita a perda de vidas. E ela precisa vir com alternativa habitacional próxima ao território de origem, não jogar a família para longe do trabalho, da escola dos filhos e da rede de apoio.

A regra geral deveria ser a inversa da que normalmente se pratica: primeiro mapear o risco de forma técnica, depois investir em contenção e drenagem onde é tecnicamente possível resolver, e reservar a remoção para os casos em que não há outra alternativa segura.

Tainá de Paula em seud gabinete na Secretaria de Meio Ambiente e Clima: vereadora defende nova arquitetura urbana como caminho para justiça climática (Foto: Divulgação)
Tainá de Paula em seud gabinete na Secretaria de Meio Ambiente e Clima: vereadora defende nova arquitetura urbana como caminho para justiça climática (Foto: Divulgação)

#Colabora – Os mais pobres são, ao mesmo tempo, as principais vítimas da crise climática e também vilões da degradação ambiental, exatamente pelo desmatamento das encostas e pelo assoreamento dos rios: pode haver justiça climática sem justiça social? Quais os passos a serem dados para avançar na direção da justiça climática num país ainda tremendamente desigual?

Tainá – Não. Não existe justiça climática sem justiça social, porque no Rio de Janeiro o mapa de quem desmata a encosta ou ocupa a margem do rio é o mesmo mapa de quem não teve acesso à moradia formal, a saneamento e a política habitacional. Chamar essa população de vilã da degradação ambiental sem mencionar que ela foi historicamente empurrada para essas áreas, por ausência de alternativa de moradia com preço acessível e infraestrutura, é inverter causa e efeito.

O financiamento climático precisa chegar diretamente ao município, já que hoje são as cidades, como o Rio, que arcam com a maior parte do custo de adaptação

Tainá de Paula
Arquiteta, urbanista e ex-secretária municipal de Meio Ambiente e Clima do Rio

De forma objetiva, os passos passam por saneamento básico universal em favela e periferia, já que a ausência de esgotamento sanitário é uma das causas diretas de assoreamento de rio urbano. Passam também por regularização fundiária e política habitacional que ofereça alternativa formal de moradia em área segura, reduzindo a pressão de ocupação sobre encosta e margem de rio. É essencial gerar renda vinculada à recuperação ambiental do próprio território, como já fazem os programas Guardiões dos Rios e Guardiãs das Matas, para que a preservação vire trabalho remunerado, não sacrifício.

É preciso também priorizar o orçamento de obra de contenção, drenagem e arborização nos territórios de maior risco social, não nos de maior valorização imobiliária, e garantir participação da população local no diagnóstico de risco, porque quem mora no território sabe onde a água acumula e onde o barranco já rachou antes de qualquer relatório técnico chegar. Por fim, o financiamento climático, nacional e internacional, precisa chegar diretamente ao município e ao território, não só a projetos de grande escala.

#Colabora – Você escreve sobre a urgência de “uma nova arquitetura urbana”: quais devem ser as primeiras e mais urgentes ações para esse futuro urbano sustentável nas cidades, onde vivem quase 90% dos brasileiros?

Tainá – A prioridade é o saneamento básico universal, com água potável e esgoto tratado em toda a favela e periferia em todas as cidades brasileiras. Junto a isso, é necessário tornar obrigatória a infraestrutura verde em toda obra pública, já em vigor por decreto na cidade do Rio de Janeiro, para reduzir ilha de calor e ponto de alagamento desde o projeto, não como correção posterior.

É preciso manter o mapeamento contínuo de risco geológico e hidrológico, com obra de contenção e drenagem priorizada pelo grau de risco, não pela localização de maior renda. O transporte público de qualidade e acessível também é urgente, para reduzir o tempo que a população periférica passa deslocando-se todos os dias, assim como a proximidade de serviços essenciais, como saúde e educação, ao território de moradia, reduzindo a distância entre onde a pessoa mora e onde é atendida. E, por fim, o financiamento climático precisa chegar diretamente ao município, já que hoje são as cidades, como o Rio, que arcam com a maior parte do custo de adaptação através de imposto local.

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Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

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