Desertificação: Brasil apresenta meta para Neutralidade da Degradação da Terra

O ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, na COP17 da Desertificação: Brasil apresenta meta para Neutralidade da Degradação da Terra (Foto: Anastasia Rodopoulou / IISD/ENB )
O ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, na COP17 da Desertificação: Brasil apresenta meta para Neutralidade da Degradação da Terra (Foto: Anastasia Rodopoulou / IISD/ENB )
O ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, na COP17 da Desertificação: Brasil apresenta meta para Neutralidade da Degradação da Terra (Foto: Anastasia Rodopoulou / IISD/ENB )

Plano brasileiro apresentado durante a COP17, na Mongólia, reúne 17 submetas para evitar nova degradação e recuperar áreas degradadas

Por #Colabora | ODS 13

Publicado em 25/08/2026 - 10h45 (Atualizado há 2 minutos)

Tempo de leitura: 10 min

Durante a 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (COP17 da UNCCD), em Ulaanbaatar, na Mongólia, o Brasil apresentou sua Meta Voluntária de Neutralidade da Degradação da Terra (LDN, na sigla em inglês) para 2030. “O Brasil está comprometido com o fortalecimento da Convenção e, ao apresentar sua meta de Neutralidade da Degradação da Terra, transforma esse compromisso em ações concretas para evitar, reduzir e reverter a degradação”, afirmou o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, a0 anunciar a meta na COP17 nesta terça (25/08).

A meta brasileira reúne 17 submetas vinculadas a políticas, planos e programas nacionais e atua nas três frentes previstas pela UNCCD: recuperar ou restaurar terras degradadas, reduzir os processos de degradação em curso e evitar nova degradação. Até 2030, o Brasil prevê ações de recuperação e restauração em mais de 163 mil km² de áreas degradadas, por meio de iniciativas que incluem recuperação da vegetação nativa, sistemas agroflorestais e ações em unidades de conservação, Territórios Indígenas, áreas de preservação permanente e bacias hidrográficas. Outros 3,51 milhões de km² integram ações de prevenção, conservação e manejo sustentável. A soma das áreas declaradas pelas 17 submetas alcança 3,67 milhões de km².

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De acordo com Cabopianco, a meta integra as ações do Brasil para enfrentar a desertificação, a degradação da terra, a seca e os efeitos da mudança do clima e contribui para o cumprimento da meta 15.3 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que prevê combater a desertificação, restaurar terras e solos degradados e buscar a neutralidade da degradação da terra até 2030. “Essa agenda é fundamental porque solos saudáveis sustentam a produção agropecuária, a segurança alimentar, a biodiversidade e a disponibilidade de água. Com eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes e intensos, proteger e recuperar a terra é também fortalecer nossa capacidade de produzir alimentos, gerar renda e aumentar a resiliência das populações e dos territórios”, destacou.

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O ministro acrescentou que o compromisso responde a um desafio de escala nacional. O Índice de Degradação da Terra (IDT) aponta que aproximadamente 2,3 milhões de km², cerca de 28% do território brasileiro, apresentam algum nível de degradação. Já a linha de base oficial da LDN identifica 55,7 milhões de hectares com tendência à degradação no ano de referência de 2020.

Estudo da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) sobre os impactos da mudança do clima nos recursos hídricos projeta tendência de redução das vazões na maior parte das regiões hidrográficas brasileiras, com predominância de cenários de queda no Norte e Nordeste. As projeções incluem as regiões hidrográficas do Tocantins-Araguaia, Parnaíba e São Francisco, que abrangem áreas do MATOPIBA.

Além de comprometer a capacidade produtiva dos solos, a biodiversidade e a disponibilidade hídrica, a degradação da terra afeta a segurança alimentar, a geração de renda e a qualidade de vida da população e aumenta a vulnerabilidade aos efeitos da mudança do clima. Cerca de 39 milhões de brasileiros vivem em 1.649 municípios localizados em áreas suscetíveis à desertificação ou em seu entorno.

Avanço da aridez reforça urgência

Dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) mostram que áreas classificadas com clima semiárido no Brasil aumentaram, em média, cerca de 75 mil km² por década, desde o início do monitoramento climático, com intensificação da aridez na Caatinga e avanço das condições de semiaridez sobre áreas do Cerrado. Associado ao aumento da frequência e da intensidade das secas, esse processo reforça a necessidade de fortalecer políticas de conservação, manejo sustentável da terra e recuperação de áreas degradadas.

Adotada em 1994 e em vigor desde 1996, a UNCCD reúne atualmente 197 Partes. O Brasil integra a Convenção desde 1997. Em 2015, os países integrantes da UNCCD foram convidados a estabelecer metas voluntárias de Neutralidade da Degradação da Terra. No mesmo ano, em linha com essa agenda, o Brasil instituiu, por meio da Lei nº 13.153, a Política Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca, que estabeleceu atribuições para a Comissão Nacional de Combate à Desertificação (CNCD), entre elas o acompanhamento dos compromissos assumidos pelo país no âmbito da Convenção.

Após permanecer sem funcionamento por oito anos, a CNCD foi retomada e reorganizada pelo governo federal em 2024, por meio do Decreto nº 11.932, que regulamentou dispositivos da Lei nº 13.153/2015. A Comissão reúne representantes de 19 ministérios, governos estaduais e municipais, sociedade civil e setor privado e tem, entre suas atribuições, orientar, acompanhar e avaliar a implementação dos compromissos assumidos pelo Brasil no âmbito da UNCCD.

Foi no âmbito da CNCD que se desenvolveu a construção da meta brasileira de Neutralidade da Degradação da Terra. Ao todo, o processo envolveu 65 instituições. A definição da linha de base contou com assessoria técnica da Embrapa Solos, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Instituto Nacional do Semiárido (INSA) e do Observatório da Caatinga e Desertificação (OCA), além do apoio técnico-operacional do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA).

COP17 tenta destravar financiamento

A COP17, principal espaço de decisão da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação, entrou em sua reta final esta semana com o desafio de destravar questões financeiras para temas centrais como restauração da terra e resiliência à seca, manejo sustentável dos solos e da água e recuperação de pastagens e áreas degradadas. As propostas sobre financiamento para restauração dos solos e combate à seca, discutidas na segunda-feira (24/08) ficaram muito aquém do necessário.

Os novos recursos anunciados somam US$ 1,3 bilhão, mas o déficit anual estimado pelos especialistas das Nações Unidas é de US$ 278 bilhões por ano. “Falamos de financiamento não para doar, mas para investir. Para mobilizar recursos que invistam nas pessoas, nas economias e na prevenção. Prevenção dos conflitos que vemos em muitas das nossas áreas de pastagem. Queremos levar a resolução para além das palavras no papel e implementá-la na vida das pessoas”, disse a secretária executiva da UNCCD, ao enviado especial da Agência Brasil, Rafael.

O maior anúncio econômico da COP17 envolve as pastagens, que ocupam mais da metade da superfície terrestre e são fundamentais para a subsistência de centenas de milhões de pessoas. A Rangelands Flagship Initiative, lançada em parceria pelo governo da Mongólia e a UNCCD, reúne carteira de 45 projetos e está avaliada em US$ 1,2 bilhão. Segundo os organizadores, trata-se da maior mobilização financeira da história da Convenção voltada especificamente para esses ecossistemas.

A iniciativa pretende conservar, gerir de forma sustentável e restaurar pastagens e ecossistemas de terras secas em todo o mundo. O déficit financeiro exige novas formas de atuação. Entre as alternativas discutidas estão o uso de recursos públicos que reduzam riscos para investidores privados. “As empresas precisam mudar suas práticas para sobreviver do ponto de vista econômico, porque a seca e a degradação do solo representam um risco econômico, não apenas ambiental. Então, precisam pensar em como investir para o bem próprio”, disse Sarah Toumi, especialista em sustentabilidade no Mecanismo Global da UNCCD.

Outra aposta da COP17 é ampliar os recursos destinados à preparação para os períodos de seca. O Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês) anunciou a criação de um programa integrado para gestão de terras, com previsão inicial de US$ 140 milhões, com investimento em prevenção, monitoramento e planejamento. “Isso ajudará os países a ter um planejamento rodoviário nacional mais robusto, soluções baseadas na natureza e investimentos que fortaleçam a resiliência antes que a seca se torne um desastre”, disse Ulrich Appel, representante do GEF.

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Texto produzido pelos jornalistas da redação do #Colabora, um portal de notícias independente que aposta numa visão de sustentabilidade muito além do meio ambiente.

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