O tornado que atingiu o Noroeste do Rio Grande do Sul nesta semana não deve ser encarado como um episódio isolado, muito pelo contrário, alertou o meteorologista Luiz Nachtigall, em artigo no Metsul. “Apesar de tornados serem fenômenos relativamente raros, a atmosfera caminha para o período do ano em que eles se tornam mais frequentes no Sul do Brasil. Neste ano, a preocupação é ainda maior pela atuação de um forte El Niño no Oceano Pacífico”, frisou.
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Nachtigall explicou que o tornado desta semana foi gerado por supercélula que apresentou uma estrutura excepcionalmente organizada, com intensa rotação e longa duração. “Esse tipo de tempestade é relativamente raro no Brasil, mas bastante conhecido nas Grandes Planícies dos Estados Unidos, onde produz alguns dos tornados mais intensos do planeta. A presença de uma estrutura tão bem definida com um mesociclone chamou a atenção”, destacou.
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Veja o que já enviamosDe acordo com o meteorologista, formado pela Universidade Federal de Pelotas e perito em Meteorologia Aeronáutica pelo Centro Técnico Aeroespacial (CTA) do Ministério da Aeronáuticao, o El Niño não provoca tornados diretamente, mas favorece uma configuração atmosférica mais propícia às tempestades severas. Durante episódios do fenômeno, aumenta a frequência de frentes frias, do transporte de umidade da Amazônia e de sistemas de baixa pressão, que elevam a probabilidade de formação de tempestades. “Estudos científicos mostram que essa combinação torna mais comuns os ambientes favoráveis às supercélulas, responsáveis pela maior parte dos tornados”, afirmou Nachtigall, também diretor do Metsul.


O Sul do Brasil como uma das regiões de maior ocorrência de tempestades severas fora da América do Norte. “A interação entre o ar quente e úmido vindo da Amazônia, o relevo dos Andes e ventos intensos em diferentes níveis da atmosfera cria um ambiente particularmente favorável para tempestades de grande intensidade. Quando esses fatores atuam simultaneamente, podem surgir supercélulas capazes de produzir granizo gigante, vendavais e tornados”, explicou o meteorologista.
O tornado desta semana ocorreu justamente nessa área da Região Sul do Brasil, climaticamente mais favorável ao desenvolvimento de tempestades assim. Os próximos meses são período de maior risco para tempestades severas no Sul do Brasil, onde aumenta a disponibilidade de calor e umidade na atmosfera, enquanto continuam atuando sistemas frontais e fortes correntes de vento. “O El Niño tende a reforçar esse cenário ao aumentar o número de situações favoráveis às tempestades. Isso não significa que haverá tornados com frequência elevada, pois a formação do fenômeno depende de uma combinação muito específica de ingredientes atmosféricos. No entanto, cresce o número de dias em que a atmosfera apresenta condições propícias para a formação de supercélulas, elevando o risco estatístico de novos episódios”, alertou o meteorologista Luiz Nachtigall.


Ventos a mais de 120 km/h provocam mortes no Sudeste
A frente fria que passou pelo Sudeste nesta quarta provocou rajadas de até 124,9 km/h em São Paulo e atingiu quase todo o estado, com maiores impactos no litoral paulista. A ventania foi mais acentuada nos municípios de Itaporanga e Itaí (124,9 km/h), Taquarituba (117 km/h), Arandu (113,1 km/h), Paranapanema (113 km/h) e Itanhaém (111 km/h). Santos registrou 83,7 km/h e Cesário Lange, 65,5 km/h. Na capital paulista, foram registrados ventos de 75,3 km/h. O fenômeno derrubou árvores e houve corte de energia em algumas regiões. Trinta voos foram cancelados no Aeroporto de Congonhas.
Duas mortes foram registradas no litoral paulista: uma em Santos e outra em São Sebastião. A terceira vítima era de Cesário Lange, interior de São Paulo. São Sebastião, também no litoral, registrou dois feridos após uma embarcação virar. Em Ubatuba, litoral norte paulista, houve sete feridos.
No Rio de Janeiro, duas pessoas morreram com o desabamento de um muro em Santa Teresa, na região central da capital fluminense, depois da ventania que atingiu o estado na tarde desta quarta-feira (29/07). O Corpo de Bombeiros registrou 185 ocorrências 93 quedas de árvores, 31 salvamentos de pessoas no mar e cinco desabamentos, apenas na capital. Na manhã desta quinta (30/07), ainda havia mais de 500 mil imóveis sem energia elétrica na cidade. De acordo com a concessionária Light, 44 árvores caíram sobre a rede elétrica e cortaram o abastecimento de 370 mil clientes.
Os ventos, que ultrapassaram 105 quilômetros por hora (km/h), também afetou outras cidades da Região Metropolitana do Rio e também municípios da Costa Verde e da Região Serrana. Um pescador desapareceu na praia de Mambucaba, distrito de Angra dos Reis. A embarcação em que ele estava virou e o homem foi arrastado; os bombeiros fazem buscas para encontrá-lo.
Na área sob responsabilidade da concessionária Enel na Costa Verde e na Região Serra, 142 mil imóveis continuavam sem fornecimento de energia na manhã de quinta-feira. A empresa destacou que, na região sul do estado, especialmente em Paraty, Angra dos Reis e Mangaratiba, dezenas de árvores caíram sobre ruas e rodovias, danificando a rede elétrica e bloqueando o acesso das equipes a diferentes pontos de atendimento.
Meteorologistas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) garantiram, entretanto que o El Niño não foi o responsável pela ventania violenta que atingiu Rio e São Paulo. Os especialistas explicaram que o fenômeno ainda está em fase inicial e seus efeitos mais significativos sobre o clima brasileiro devem ocorrer apenas a partir da primavera, que começa no fim de setembro.
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