ODS 1
Bastidores dos megashows: dinheiro público, agronegócio e bets


Relatório do De Olho nos Ruralistas mapeia a farra do showbiz bancado sem licitação e com digitais da direita. Entre os 2.006 municípios que receberam shows públicos de artistas, mais da metade enfrentou desastres naturais.


Está tudo junto e misturado, e embalado ao som de nomes como Wesley Safadão, sócio da Camarato Shows, e Xand Avião, da produtora Vybbe. Por trás dos megashows e dos valores exorbitantes pagos aos artistas, dinheiro público, bets e agronegócio. Com contratações feitas sem concorrência e sem justificativas concretas sobre o valor empenhado em cachês cada vez mais inflacionados, o De Olho nos Ruralistas – Observatório do Agronegócio no Brasil levou seis meses pesquisando mais de 20 mil contratos para entender não somente a história de mau uso de dinheiro, mas decifrar como se move o capital.
O resultado foi o relatório “Farras: como os shows com dinheiro público conecta, artistas, bets, política e agronegócio”. O levantamento marca o início de uma editoria nova: a De Olho no Dinheiro. A ideia é fiscalizar o desperdício de dinheiro público e os caminhos obscuros que o dinheiro privado costuma tomar para influenciar as decisões políticas.
Leu essa? Agrogolpistas: relatório disseca relação do agronegócio com o 8 de janeiro
Publicado no início de julho, o levantamento concluiu que 40 bandas ganharam R$ 3 bilhões em contratos assinados até 31 de março de 2026, data de fechamento da pesquisa de dados. O Nordeste liderou a contratação desses shows. Parte significa dos eventos foi contratada sem inexigibilidade de licitação, ou seja, sem concorrência pública. Bastou justificar a notoriedade do artista. Foram compilados mais de 20 mil contratos de 250 artistas, entre aqueles com mais shows realizados, conforme o Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP), ou com cachês mais altos.
Gostando do conteúdo? Nossas notícias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosSegundo o relatório, dos shows realizados em 2024, 2025 e primeiro trimestre de 2026, 100 bandas receberam, cada uma, pelo menos R$ 25 milhões de prefeituras e governos estaduais. Ao todo, o valor do top 100 ultrapassa os R$ 5 bilhões — uma centena de bandas ganhou, em pouco mais de dois anos, um valor superior ao orçamento do Ministério da Cultura para 2026, fixado em R$ 3,26 bilhões.
Pela análise geográfica da farra, o sertanejo liderou as contratações: o gênero foi responsável por 79% dos shows nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. O piseiro rivaliza o sertanejo no levantamento nacional, seguido de gêneros como brega e arrocha, forró romântico, ritmos baianos axé e pagodão.
Dos dez artistas que mais fizeram shows estão, sobretudo, divulgadores de bets. Sete deles, propagandistas ostensivos, ou seja, “embaixadores” – como são chamados os parceiros comerciais dessas casas de apostas. As bets ostentam suas marcas no telão, no palco, no boné do cantor e no nome do evento, além de comprarem elementos simbólicos da cultura popular. A Pixbet, por exemplo, saiu das comunidades do Rio de Janeiro para a camisa do Flamengo. De Mossoró a Maceió, a VaideBet banca alguns dos maiores festejos juninos do país.


Digitais da direita e do agronegócio
Muitos artistas e produtores do top 40 são fazendeiros e/ou têm outras atividades ligadas ao agronegócio; em particular, o circuito de vaquejadas. Duas coincidências estão por trás dos 2.006 municípios que receberam shows públicos desde 2024: 1.069 decretaram situação de emergência no período e 13 decretaram estado de calamidade pública. Prefeituras administradas por partidos de direita são as que mais contratam esses artistas. Partidos, como PSD, União Brasil e PP,. e pefeituras comandadas por partidos de Direita concentraram 77% das contratações de shows públicos em 2025.
Os pesquisadores do De Olho nos Ruralistas tiveram a ideia de mergulhar nesse mundo do showbiz quando o cantor goiano Zezé Di Camargo anunciou o rompimento de relações com o SBT após uma visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à emissora. Era dezembro de 2025. À época, ele recebera cerca de R$ 20 milhões em verbas públicas para shows.
Do grupo de líderes dos artistas que mais realizaram shows com dinheiro público em 2024, poucos declararam suas simpatias políticas abertamente. Os sertanejos foram a exceção. Quatro anos antes, entregaram uma carta ao então presidente Jair Bolsonaro. Assinavam o documento: Bruno & Marrone, Zé Neto e Cristiano, Matheus & Kauan, César Menotti & Fabiano.36 Todos eles no grupo top 40. O número 1 no ranking de shows públicos é o cantor Natã Lima Nascimento, o Natanzinho, jovem de 23 anos apadrinhado pela estrela Wesley Safadão, terceiro no ranking.
A lista organizada pelo De Olho nos Ruralistas tem outros bolsonaristas notórios, como Zezé Di Camargo, Leonardo e Eduardo Costa. Do outro lado do espectro político, apenas o pernambucano João Gomes declarou publicamente apoio a Lula, durante a campanha de 2022.
Apoie o #Colabora.
Queremos seguir apostando em grandes reportagens, mostrando o Brasil invisível, que se esconde atrás de suas mazelas. Contamos com você para seguir investindo em um jornalismo independente e de qualidade.
Últimas do #Colabora
Liana Melo
Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.








































