ODS 1
“Quanto mais você perde o som, mais ganha sons da cabeça” – no palco da peça ‘Surda’


Monólogo, escrito por roteirista que deixou de ouvir aos poucos e interpretado por atriz surda desde a infância, revela os impactos emocionais e profissionais da perda progressiva da audição


Um piano, uma máquina de lavar e por vezes vozes de um casal brigando. São sons que não estão no palco, e sim na cabeça de uma mulher que perde audição e, ao mesmo tempo, ganha um ruído interno que não alivia. É esse contraste coletivo que abre ‘Surda’, peça escrita por Júlia Spadaccini, dirigida por Débora Lamm e estrelada por Benedita Casé Zerbini, com interpretação em libras de Diana Dantas. A montagem – já com nova temporada garantida para agosto após sucesso das apresentações no Rio, encerradas no último domingo de junho – narra, em fragmentos, o processo paulatino da perda auditiva progressiva e os impactos na vida afetiva, familiar e profissional.
Júlia foi diagnosticada por volta dos 19 anos, com a notícia de que a perda avançaria até a surdez profunda. “Eu fiquei com esse fantasma de que eu vou estar surda”, lembra a autora, que não nasceu surda e viu diante de si um caminho sem volta. Esse caminho tem, na prática, uma régua: a deficiência auditiva medida em decibéis (dB) por meio do audiograma, exame que mapeia o menor volume que alguém percebe. A perda é leve entre 26 e 40 dB — ainda sendo possível ouvir palavras em volume normal a um metro, mas não o tique-taque de um relógio; a moderada de 41 a 60 dB; e torna-se severa ou profunda acima disso, quando sons muito altos, ou nenhum, passam despercebidos.
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A própria legislação brasileira usa esse corte: a deficiência auditiva é dita parcial até 41 decibéis de perda e total — surdez — a partir daí. Números de 2023 revelam que 5% da população apresenta alguma deficiência auditiva, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE; o que em dimensão significaria mais de 10 milhões de pessoas com deficiência e pouco mais de 2,7 com surdez profunda. É entre essa fronteira dos decibéis e dados, frios e técnicos, que a personagem faz uma travessia ao longo da peça.
A encenação só ganhou forma décadas depois do diagnóstico. Foi no momento de reclusão, na pandemia, que Júlia parou de trabalhar e pôde, segundo ela, “olhar mais pra essa questão da surdez, respirando mais”. Foi quando encontrou Benedita — encontro que descreve como mágico. “A gente foi entendendo que a gente vivia questões muito parecidas. Ela leu o texto e ficou muito emocionada, parece que eu estou me vendo aqui”. Benedita, que faz sua estreia nos palcos com Surda, vive a surdez desde a infância: “Eu sou uma surda oralizada, uso aparelho auditivo desde os três anos. Tenho uma surdez bilateral severa e profunda e lido com o capacitismo desde que me entendo por gente”, Para a atriz e produtora, a peça “abre um espaço importante para o diálogo sobre o capacitismo”, tratando de temas sérios “de forma leve e poética”.
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Veja o que já enviamosEsse cuidado com a palavra tem história. Até os anos 1980, era comum chamar pessoas com deficiência de “aleijadas” ou “inválidas”. Em 1981, por influência da ONU, passou a usar-se “pessoa deficiente”; entre 1986 e 1996, popularizou-se “portador de deficiência” — termo incorporado à Constituição de 1988, mas depois criticado por sugerir que a deficiência é algo que se porta e se pode deixar de lado. O termo consagrado hoje, “pessoa com deficiência”, veio em 2006, pela Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, e ganhou base legal no Brasil com o Estatuto da Pessoa com Deficiência, de 2015 — origem da sigla PCD. É a mesma lógica que move o relato de Benedita: a língua também constrói, ou desconstrói, barreiras atitudinais.
Para driblar essas barreiras e apresentar novos caminhos dentro da própria peça, suscitando mudanças no teatro em si, Júlia e Benedita pediram legendas em cena, além de libras — e tiveram o apoio integral da direção. “A Débora falou: não, a gente não vai ter condições de fazer se não tiver. Não adianta ter só Libras: os surdos que ouvem precisam de legenda”, relata Júlia. A distinção é real: surdos oralizados, sinalizantes e usuários de implante coclear vivem a condição de formas diferentes, e nenhum recurso único cobre essa diversidade. E é bonito olhar para o público diverso que lota a pequena arena e perceber o quanto a decisão fez e faz diferença.


‘Surda’ se insere num movimento ainda recente de protagonismo surdo em cena. Em 2025, “Nem toda história de amor acaba em morte” se tornou o primeiro longa nacional protagonizado por uma atriz surda, Gabriela Grigolom. Mundo afora, o marco remonta a Marlee Matlin, premiada com o Oscar por “Filhos do Silêncio” (1986); Millicent Simmonds, de “Um lugar silencioso” — “é uma grande honra ser parte da comunidade surda, mas também representá-la de maneira correta”, disse a atriz — e a britânica Rose Ayling-Ellis, surda de nascença, primeira vencedora surda do “Strictly Come Dancing” e congratulada com um Bafta (o Oscar britânico).
Benedita resume o que torna o enredo diferente desse imaginário automático de drama: “Quando a gente fala de ‘Surda’, você já imagina um dramalhão, aquela coisa do vitimismo. Mas também tem tantas alegrias, tantas descobertas, tem a coisa de você rir de você mesmo”. É, segundo ela, “uma peça que é meio uma aula também — de um jeito sem ser chato, sem ser maçante”.
No fim, talvez seja este o maior legado proposto no palco: a troca do silêncio que se teme pelo silêncio que se habita. Porque há em um instante, em algum lugar entre o aparelho auditivo e a plateia, o momento que a perda deixa de ser só perda e vira linguagem. Um piano que só ela escuta, uma sirene que é também poema, um corpo que aprendeu a traduzir o mundo em outra frequência. Quanto mais o som se vai, mais alto fala o que insiste em ficar.
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Edu Carvalho
Edu Carvalho é jornalista e apresentador, com passagens pela Globo, CNN e Revista Época. Ganhador do Prêmio Vladimir Herzog pelo #Colabora. É colunista no UOL Ecoa e no Maré de Notícias. Morador da Rocinha, cria do mundo







































