ODS 1
Da sociedade envelhecida à sociedade da longevidade


Viver mais é um privilégio e envelhecer é uma conquista; é preciso transformar os anos adicionais de vida em um ativo individual, familiar, econômico e social.


A transição demográfica foi a principal tendência da dinâmica demográfica brasileira no século XX. A queda da taxa de mortalidade foi uma grande conquista que viabilizou o aumento da expectativa de vida ao nascer, que estava abaixo de 30 anos em 1900 e passou para 69 anos em 2000.
Vidas longas importam porque expandem o potencial humano, permitindo que indivíduos acumulem conhecimento, que as famílias criem laços multigeracionais e que a sociedade se beneficie da sabedoria e da experiência produtiva de seus cidadãos por muito mais tempo. Viver mais importa porque transforma o tempo, o nosso recurso mais escasso, em uma oportunidade de desenvolvimento e bem-estar.
Leu essa? Como lidar com o acelerado envelhecimento populacional do Brasil?
A queda das taxas de mortalidade viabilizou a queda da natalidade. A taxa de fecundidade total estava acima de 6 filhos por mulher até a década de 1960, caiu para 2,3 filhos por mulher em 2000 e para 1,55 filho por mulher em 2022.
Essa redução do número de filhos por família importa porque reconfigura o papel da mulher na sociedade, permitindo maior escolaridade, maior autonomia e maior inserção no mercado de trabalho, ao mesmo tempo em que eleva o investimento familiar na educação das próximas gerações, viabilizando o processo de mobilidade social ascendente.
A transição demográfica provoca, de forma inexorável, uma transformação da estrutura etária, que ocorre no longo prazo e é responsável pela diminuição da base jovem da pirâmide e do progressivo aumento do topo idoso da distribuição etária da população.
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Veja o que já enviamosA mudança da estrutura etária importa porque ela gera uma janela de oportunidade demográfica, conhecida como “bônus demográfico”. Esse fenômeno temporário ocorre quando o ritmo de queda da fecundidade reduz a proporção de crianças na população antes que o contingente de idosos cresça significativamente. Como resultado, a chamada razão de dependência diminui, fazendo com que a proporção de pessoas em idade ativa (potenciais trabalhadores) atinja o seu nível máximo em relação aos dependentes (jovens e idosos).
Trata-se de uma oportunidade única para impulsionar o crescimento econômico, aumentar a poupança interna e ampliar os investimentos em produtividade, educação e infraestrutura, já que a pressão imediata sobre os gastos públicos com serviços básicos de saúde e creches é aliviada.
Portanto, o envelhecimento populacional será a principal característica da dinâmica populacional brasileira do século XXI. O país apresentará uma inversão da pirâmide etária nas próximas décadas. O envelhecimento importa porque abre duas novas janelas de oportunidade: o bônus da produtividade e o bônus da longevidade. O primeiro deles (da produtividade) surge da necessidade imperativa de compensar a redução quantitativa da força de trabalho por meio do ganho qualitativo. Em uma economia com menos jovens entrando no mercado, o crescimento econômico deixa de depender do volume de braços disponíveis e passa a exigir trabalhadores mais qualificados, inovação tecnológica, automação e maior eficiência por hora trabalhada.
Já o bônus da longevidade se materializa na consolidação da chamada “Economia Prateada”. Trata-se do potencial gerado por uma massa de idosos mais saudáveis, escolarizados e ativos do que as gerações anteriores. Longe de serem apenas dependentes, esses cidadãos continuam consumindo, empreendendo, prestando serviços consultivos e movimentando novos nichos de lazer, saúde e bem-estar, além de atuarem como pilares de estabilidade financeira e transmissão de patrimônio dentro de suas famílias.
A mudança da estrutura etária brasileira
As figuras abaixo apresentam a percentagem da população brasileira de 0-49 anos (figura da esquerda) e da população 50 anos e mais (figura da direita), por sexo, de 1950 a 2100, com base nos dados da Divisão de População da ONU. A inversão da pirâmide é evidente, mostrando a passagem de uma sociedade jovem para uma sociedade com alta proporção de pessoas maduras (50+).
A população brasileira era de 53,4 milhões de habitantes em 1950 (50,4% homens e 49,6% mulheres), passou para 174 milhões no ano 2000 (49,7% homens e 50,3% mulheres), chegou a 212,8 milhões em 2025 (49,2% homens e 50,8% mulheres), deve alcançar 217,5 milhões em 2050 (48,9% homens e 51,1% mulheres) e decrescer para 163,4 milhões de habitantes em 2100 (49,6% homens e 50,4% mulheres).
Em 1950, a população brasileira de 0-49 anos era de 48,6 milhões de pessoas (representando 91% da população total), cerca de 10 vezes mais do que os 4,8 milhões de pessoas com 50 anos e mais (representando somente 9% do total populacional). No ano 2000, a população de 0-49 anos passou para 147,7 milhões (84,9% do total) e as pessoas de 50+ eram de 26,3 milhões (15,1% do total). Em 2025, o grupo 0-49 anos era de 152,1 milhões (71,5%) e o grupo 50+ era de 60,7 milhões (28,5%).


As projeções para 2050 indicam uma população de 0-49 anos de 123,6 milhões (56,8%), assim como uma população de 50+ de 93,9 milhões (43,2%). Em 2077, pela primeira vez, o grupo da parte de baixo da pirâmide, de 0-49 anos, com 96,1 milhões de pessoas (49,95% do total) será superado pelo grupo 50+ com 96,3 milhões de pessoas (50,05%). Para 2100, as projeções indicam 77,9 milhões de pessoas de 0-49 anos (47,7%) e 84,9 milhões de pessoas de 50 anos e mais (52,3%).
Portanto, a população brasileira de 0-49 anos era 10 vezes maior do que a população de 50+ em 1950. Mas ao longo das décadas a relação entre os dois grupos foi se invertendo e, 127 anos depois, a parte de cima da pirâmide deve superar a parte de baixo. Desta forma, o grupo 50+ será maioria da população do Brasil no último quartel do século XXI.
A população de 60 anos e mais que representava apenas 5% da população total em 1950, passou para 8% no ano 2000, para 17% em 2025, deve atingir 30% em 2050 e chegar a 40% em 2100. Portanto, a proporção de idosos (60+) vai aumentar 8 vezes entre 1950 e 2100.
A mudança na estrutura etária não será apenas quantitativa, mas também qualitativa. Em termos educacionais, em 1950, a grande maioria dos idosos era analfabeta e a população brasileira tinha uma escolaridade média de menos de 2 anos de estudo. Mas, em 2025, a escolaridade média ultrapassou 10 anos e o percentual de idosos analfabetos diminuiu significativamente.


A Economia da Longevidade
Segundo o economista Andrew Scott, no livro The Longevity Imperative (2024), a transformação da estrutura etária nos obriga a deixar de focar no “envelhecimento” (biologia) e enfocar na “longevidade” (trajetória de vida). Cada ano suplementar de vida saudável pode gerar um grande valor nas economias nacionais e no âmbito internacional. Desta forma, o “bônus da longevidade” não é simplesmente sobre cuidar de idosos, mas sobre investir em saúde preventiva desde o nascimento. É preciso substituir a sociedade envelhecida pela sociedade da longevidade.
Para tanto, é necessária uma reestruturação do Sistema de Saúde, migrando de um modelo de tratamento de doenças para um modelo de manutenção da saúde. Scott defende uma medicina da gerosciência, onde o foco deve ser no combate aos processos biológicos do envelhecimento, e não apenas em doenças isoladas (como diabetes ou câncer) depois que elas surgem. O sistema público precisa tratar a saúde preventiva como infraestrutura econômica. Isso exige diagnósticos precoces via Inteligência Artificial (IA) e monitoramento contínuo para manter a funcionalidade do indivíduo por mais tempo.
No mercado de trabalho um dos principais desafios é combater o etarismo. O preconceito etário se expressa em uma cultura corporativa que prioriza a “energia jovem” em detrimento da “sabedoria experiente”. Para os 50+ serem o motor do PIB, são necessárias políticas de recalibragem de habilidades e flexibilidade de jornada, algo que a legislação e a cultura empresarial brasileira ainda engatinham em implementar.
É necessário abandonar o modelo “Educação-Trabalho-Aposentadoria”, permitindo pausas para estudo e descanso ao longo da vida. Incentivar modelos de mentoria onde o trabalhador sênior reduz a carga produtiva, mas aumenta a carga de transmissão de conhecimento, mantendo-se remunerado e ativo. Se a longevidade produtiva for estimulada, uma possível crise fiscal diminui porque a base de contribuintes aumenta, independentemente da idade.
A tese de Scott não é sobre viver para sempre, mas sobre garantir que a vida biológica e a vida social caminhem em sincronia. A primeira revolução da longevidade foi sobre não morrer cedo e a segunda revolução da longevidade é sobre viver bem e de forma produtiva por mais tempo. Uma “previdência dinâmica” deixa de ser apenas um seguro contra a velhice para se tornar um fundo de gestão da vida, deixando de olhar para o fim da jornada e passa a olhar para a sustentabilidade da trajetória toda.
O Envelhecimento Saudável, Ativo e Colaborativo (ESAC) requer ações articuladas em quatro níveis. No plano individual, o cuidado com a saúde e o bem-estar depende do engajamento pessoal, já que a prática regular de atividade física e a adoção de uma dieta adequada pressupõem iniciativa e responsabilidade pessoal e intransferível. No nível local e comunitário, as relações sociais com vizinhos e com a comunidade do entorno são fundamentais para o fortalecimento dos vínculos coletivos, a construção de redes de apoio e o senso de propósito de vida.
No âmbito da iniciativa privada, cabe às empresas combater práticas etaristas, valorizar a diversidade etária e promover ambientes de trabalho multigeracionais e inclusivos. Por fim, no nível do Estado, as políticas públicas devem atuar de forma integrada nas esferas federal, estadual e municipal, com ações que apoiem a população com 50 anos ou mais e promovam o aproveitamento do bônus da longevidade, estimulando o pleno uso do potencial econômico, social e produtivo das gerações maduras.
Viver mais é um privilégio e envelhecer é uma conquista. É preciso superar a ideia de uma sociedade envelhecida como um problema e enxergar as potencialidades de uma sociedade da longevidade, fortalecendo as relações intergeracionais e transformando os anos adicionais de vida em um ativo individual, familiar, econômico e social.
Referências:
ALVES, JED. As lições do Japão para lidar com o envelhecimento populacional, # Colabora, 28/10/2024
SCOTT, A. J. 2024. The Longevity Imperative: How to Build a Healthier and More Productive Society to Support Our Longer Lives. New York: Basic Books.
SCOTT, Andrew. PIOT, Peter. The Longevity Dividend, F&D, IMF, June 2025
https://www.imf.org/en/Publications/fandd/issues/2025/06/the-longevity-dividend-andrew-scott
SCOTT, A. J. The longevity economy, The Lancet Healthy Longevity, Volume 2, Issue 12, December 2021 https://www.thelancet.com/journals/lanhl/article/PIIS2666-7568(21)00250-6/fulltext
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José Eustáquio Diniz Alves
José Eustáquio Diniz Alves é sociólogo, mestre em economia, doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar/UFMG), pesquisador aposentado do IBGE, colaborador do Projeto #Colabora e autor do livro "ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século" (com a colaboração de F. Galiza), editado pela Escola de Negócios e Seguro, Rio de Janeiro, 2022.





































