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Policiais patrulham as ruas de Macapá após onde de ataques: com o blecaute e a crise na segurança, medo se espalhou pelo Amapá (Foto: Rudja Santos / Amazônia Real - 08/11/2020)
Amapá entre o apagão e o apagamento: segurança em crise
Onda de violência no blecaute, com assaltos e saques, desnorteou as forças policiais, também envolvidas com os protestos dos moradores
Quando as luzes se apagaram ao redor do Amapá, o medo foi um sentimento quase inevitável. Afinal, sem luz, a população fica sem referência, sem comunicação e, principalmente, sem segurança, As ruas, antes com grande circulação diária da população, ficaram três dias na escuridão completa. A consequência foi o aumento dos relatos de furtos, saques, invasões e assaltos, principalmente em bairros periféricos.
No dia 5 de novembro, no segundo dia de blecaute total, a prefeitura de Macapá decretou estado de calamidade pública na capital por 30 dias e, num contexto de pandemia, a sensação de desamparo se colocou em várias esferas. A força policial ficou defasada, precisando contemplar diversas situações da crise ao redor de todo o estado. A falta de eletricidade fez com que sistemas de segurança, como câmeras e semáforos, parassem de funcionar, aumentando a possibilidade desses crimes acontecerem.
Segundo informações da base de dados Fonte Segura, mantido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre os dias 3 a 19 de novembro de 2020 foram registrados 192 roubos, 172 furtos e 47 casos de lesão corporal no Amapá. Além disso, 16 crimes violentos letais foram contabilizados, com uma média de uma morte violenta por dia, e quatro por intervenção policial.
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“Alguns amigos meus que moravam em áreas periféricas passaram por situações muito caóticas. Com tudo escuro, as pessoas ficaram muito vulneráveis. Houve invasões de domicílios, assaltos, furtos… Muita gente teve medo de sair de casa. A cidade ficou completamente entregue”, relembra a designer Dayanne Farias, moradora da capital.
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Enquanto bairros centrais de Macapá e regiões próximas a hospitais tiveram acesso parcial à energia devido aos geradores, nas áreas mais afastadas o cenário foi diferente. Segundo a moradora, alguns municípios chegaram a ficar 22 dias no apagão completo, sem ao menos possuir o racionamento de energia.
A estudante Andreia Tavares, da Unifap, também lamenta a situação que os moradores do interior enfrentam diariamente e afirma que eles são os que mais sofrem. “Infelizmente, o Amapá continua sendo um estado muito pobre, mesmo com todas as riquezas naturais que tem. Aqui, as pessoas têm direito a praticamente nada”.
“Quem tinha dinheiro conseguiu passar a temporada do apagão fora do estado. Mas a maioria não podia, né? Era preciso ter grana pra ficar 10, 15, quase 20 dias longe daqui. A gente sofreu muito, a cidade inteira sofreu. Doía ver as pessoas passando por aquilo, sem ter o que fazer, só tentando aguentar. Era impossível não se compadecer”, afirma o comerciante Cláudio Bezerra, vendedor de artesanato.
O microempresário foi um dos poucos a não serem afetados pela falta de luz. Por morar numa zona próxima de hospitais e bancos, no centro de Macapá, o empresário ficou apenas um dia sem luz devido aos geradores locais. Mas, segundo o empresário, a falta de segurança pública foi extremamente difícil. “À noite a gente tinha que apagar as luzes, fechar a porta para não ser atacado pelas pessoas. Eles achavam que éramos ricos e, por isso, estávamos sendo privilegiados por alguém”, relembra.
Claúdio afirma que, diferente dos demais moradores, por ter energia, tentava ao máximo ajudar emprestando tomadas para que carregassem celulares e doava água aos que precisavam. Apesar da presença da criminalidade ao redor do estado, o senso de coletividade foi importante para os amapaenses enfrentarem a crise. Dayanne relembra um episódio que, para ela, foi um dos mais marcantes do período. “Durante o apagão, eu lembro que bateu um desespero enorme, principalmente no início. A gente via muitos relatos nas redes sociais de pessoas dizendo: ‘Eu tenho três filhos pequenos, estamos sem água, sem alimento’. Foi então que alguns coletivos daqui começaram a se mobilizar. Eu lembro de um, ligado à juventude e à política, que organizou uma campanha pedindo doações de cestas básicas, velas e outros itens para distribuir às famílias mais afetadas”.


Polícia entre onde de crimes e atos de protesto
Vendo as proporções de toda a situação, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) deflagrou a “Operação Blecaute” a fim de garantir segurança e mobilidade aos amapaenses. Com o início no dia 14 de novembro, a ação tentou restabelecer a ordem no Amapá, enviando um reforço de agentes do Sistema de Pronta Resposta Federal. Apesar do reforço, a sensação de segurança demorou a chegar para os moradores, que afirmavam que tudo o que se via nas ruas era o oposto: o medo persistia e as denúncias de assaltos, furtos e invasões aumentavam.
Segundo Ruan Linconl, do Movimento de Defesa do Consumidor do Amapá, depois de tantos anos de descaso do setor público e privado, os amapaenses, principalmente os mais vulneráveis economicamente, estão cansados de lutar pelos próprios direitos. “A última grande manifestação que aconteceu aqui foi durante o blecaute. As pessoas estão desanimadas, fracas para lutar. Até hoje tem gente lutando na justiça para recuperar prejuízos”, reflete. “O clima no estado já estava bem pesado por conta da pandemia e, com a situação do apagão, pareceu que abriu um buraco pro nosso povo. A gente sentiu o abandono, principalmente das pessoas que deviam nos amparar”.
De acordo com informações da Polícia Federal, entre os dias 6 a 12 de novembro de 2020, foram registrados mais de 70 atos contra o blecaute. Um dos protestos tomou proporções tão grandes que bloqueou a Zona Norte de Macapá por 8 horas. “Acredito que o que mais mudou de 2020 para cá é que, na minha visão, foi ver que nossos próprios representantes não se importam tanto assim conosco e que quem se importou mesmo foi o povo, nós fomos deixado às traças”, lamenta Andreia.


Dentre vários ferimentos aos direitos sociais, percebe-se que a segurança pública foi mais um dos que não foram devidamente contemplados para a sociedade amapaense. O blecaute expôs o quanto a desigualdade social potencializa a vulnerabilidade das populações mais pobres e periféricas, já que, enquanto parte da cidade contava ao menos com geradores e algum apoio das autoridades, parte da população ficou entregue à própria sorte, enfrentando o medo, a violência e a ausência de respostas.
“Quando vi essa postagem, mostrei para a minha mãe e decidimos nos juntar para ajudar. Mesmo no meio da pandemia, a gente acabou furando o isolamento para se encontrar e passar a noite à luz de velas montando várias cestas básicas. No dia seguinte, levamos tudo para o coletivo distribuir. Todo mundo se virava como podia. Quem tinha energia durante o rodízio congelava pacotes de gelo para ajudar quem precisava guardar insulina, porque tinha muita gente com diabetes em casa sem poder refrigerar o remédio. Era um pedindo ajuda ao outro. A população se ajudou muito, porque, se fosse depender só da gestão pública, a gente teria ficado numa situação ainda pior”, relembra.
A ação policial, na verdade, foi repressiva em alguns momentos. Revoltados com a situação da falta de luz, a população foi às ruas na noite do dia 6 de novembro para protestar, quando o apagão se arrastava para o terceiro dia. Pneus e materiais inflamáveis foram queimados em vias públicas para chamar a atenção das autoridades e da imprensa sobre o que estava acontecendo no estado. O resultado foi um confronto, com manifestantes sendo alvejados com balas de borracha e bombas de efeito moral. Para a agência Amazônia Real, a Polícia Militar na época alegou ter “reforçado o policiamento ostensivo em toda capital para proteger a população”.
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Clarice Candido
Formada em Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Clarice trabalhou nos jornais “O Dia” e “Meia Hora” e atua no setor de energia. Tem interesse em temas ligados a meio ambiente, mudanças climáticas, Amazônia, direitos humanos e transição energética. Ganhou o prêmio Expocom na categoria Reportagem Longform com “Entre o apagão e o apagamento”, republicada agora pelo #Colabora, em novo formato





































