ODS 1
Receba as colunas de Aydano André Motta no seu e-mail
Veja o que já enviamosPaulinho da Viola e um outro tempo possível
Aos 83 anos, cantor desfila repertório em show magistral, que faz refletir e sonhar com um mundo melhor
Cessem os aborrecimentos de todo dia, estanquem os dissabores, debelem o estresse, abortem as carrancas, brequem as querelas, silenciem os bate-bocas. Desapareçam apocalipse viário, destruição de matas, poluição de mares, rios, lagoas. Sumam fuzis, balas perdidas, corrupção policial, a politicalha, toda a violência em seus inúmeros formatos. Esvaneçam racismo, misoginia, aporofobia, os preconceitos todos. Porque existe um Rio de Janeiro gentil e sereno, belo e generoso, charmoso e poético, tolerante e virtuoso, elegante e encantador.
O Rio de Paulinho da Viola.
Leu essa? A eternidade dos gênios
Sempre haverá salvação para terra capaz de gerar ser humano tão divinamente iluminado. Sábado (18), ele desfilou o sorriso ameno, a fala pausada, o dedilhar impecável em viola e violão, o charme despojado e, sobretudo, a maravilha de suas canções no show “Quando o samba chama”. Acompanhado de banda do mesmo padrão de excelência, enfileirou músicas, lembrou histórias e celebrou totens da nossa música, para esculpir noite inesquecível.


Em 22 músicas (algumas delas acompanhado pela filha Beatriz Rabelo), Paulinho passeou por obras-primas de toda sua carreira, compondo repertório também biográfico, de muito samba e flertes com outros estilos brasileiros, como o choro – hoje, quinta, além de dia de São Jorge, é o Dia Nacional do gênero. A plateia que lotou a casa de espetáculos Qualistage conhecia quase todas, mas aplaudiu como se estivesse encantada pela primeira vez. Sensações que só gênios como o protagonista da noite conseguem proporcionar.
As canções ainda pavimentam reflexões sobre o Rio, o Brasil, o mundo, escolhas, idiossincrasias, tragédias, dores e delícias humanas. Em “Quando bate uma saudade”, lembra que “É tocado pelas cordas de uma viola/ É assim que um samba vem”. Emenda com o hit “Argumento”, que parece também sobre o gênero musical – “Olha que a rapaziada está sentindo a falta/ De um cavaco, de um pandeiro/ Ou de um tamborim” –, mas prega, na verdade, a tolerância: “Sem preconceito/ Ou mania de passado/ Sem querer ficar do lado/ De quem não quer navegar/ Faça como um velho marinheiro/ Que durante o nevoeiro/ Leva o barco devagar”.
Paulinho caprichou nas reverências a quem veio antes dele, e capinou o caminho. Lembrou Sergio Natureza para, numa parceria com ele, celebrar quem vale a pena: “Joga capoeira/ Nunca brigou com ninguém/ Xepa lá na feira/ Divide com quem não tem/ Faz tudo o que sente/ Nada do que tem é seu/ Vive do presente/ Acende a vela no breu”. Como carioca, sustenta intensa relação com o mar, que reaparece em “Timoneiro”, magistral composição com Hermínio Belo de Carvalho: “E quanto mais remo mais rezo/ Pra nunca mais se acabar/ Essa viagem que faz/ O mar em torno do mar/ Meu velho um dia falou/ Com seu jeito de avisar:/ Olha, o mar não tem cabelos/ Que a gente possa agarrar/ Não sou eu quem me navega/ Quem me navega é o mar”.
Mais do que qualquer outra, o artista se esmera nas homenagens a Clementina de Jesus, cantora que, com sua voz disruptiva, impediu o embranquecimento do samba, sonhado pela indústria fonográfica: “Galo cantou!/ Galo cantou às quatro da manhã/ Céu azulou na linha do mar/ Vou me embora desse mundo de ilusão/ Quem me vê sorrir não há de me ver chorar”. Depois dela, outra grande dama da MPB, Dona Ivone Lara, com “Enredo do meu samba”: “Desclassifiquei o amor de tantas alegrias/ Agora sei/ Desfilei sob aplausos da ilusão/ E hoje tenho esse samba de amor, por comissão/ Findo o Carnaval/ Das cinzas pude perceber/ Na apuração perdi você”.
Ao parar em Cartola, fala também do Rio de Janeiro que ficou lá fora, o da vida real. “A sorrir eu pretendo levar a vida/ Pois chorando eu vi a mocidade/ Perdida”. Em seguida, retorna à magia, ao desembarcar na Portela da qual é totem, para festejar Monarco, enredo da mais importante de todas as escolas de samba em 2027. “Na roda do samba abafavam/ Todos corriam pra ver/ Pra ver, se não me falha a memória/ No livro da nossa história tem conquistas a valer/ Juro que nem posso me lembrar/ Se for falar da Portela, hoje não vou terminar”.
Paulinho jamais reivindicaria, mas seu lugar no olimpo dos bambas está mais do que assegurado. Então, ele canta a trágica “Pecado Capital” – “Mas é preciso viver/ E viver não é brincadeira não/ Quando o jeito é se virar/ Cada um trata de si/ Irmão desconhece irmão/ E aí dinheiro na mão é vendaval/ Dinheiro na mão é solução/ E solidão” –, sobre a mesquinharia dos humanos. Emenda em “Coração leviano” – “Ah coração teu engano/ Foi esperar por um bem/ De um coração leviano/ Que nunca será de ninguém” – e chega à apoteose no clássico “Foi um rio que passou em minha vida”, momento do delírio completo dos abençoados por tamanha beleza.
São todas músicas com mais de três décadas de idade, o tempo exato que Paulinho da Viola não lança composições inéditas. Tampouco dá entrevistas, aparece em rede sociais, ou se envolve em controvérsias. Optou pela rotina caseira, discreta, entre a marcenaria e a fotografia, ofícios que também domina. Tudo certo, porque sua arte não envelhece – e olha que, aos 83, ele compartilha o tempo de estrada com Chico, Martinho, Gil, Milton, Benjor, Caetano, Nei Lopes, Edu Lobo, a MPB quase toda.
A longevidade dele (e dos outros) está entre os mais preciosos presentes de nosso tempo. Assim, quando o samba de Paulinho chama, vale muito a pena atender. Após ouvi-lo, emerge a certeza de que outro Rio, outro Brasil são possíveis.
Apoie o #Colabora.
Queremos seguir apostando em grandes reportagens, mostrando o Brasil invisível, que se esconde atrás de suas mazelas. Contamos com você para seguir investindo em um jornalismo independente e de qualidade.











































