Primeiro intérprete de Libras com Síndrome de Down, Gabriel Camargos desmonta o capacitismo em diferentes frentes

Foto colorida de Gabriel Camargos. Ele é um homem com trissomia 21, negro, com cabelo curto preto e usa óculos. Ele aparece de lado, vestindo um blazer cinza e fazendo sinais de Libras com as mãos. Ao fundo, cúpula do Senado Federal

Graduado no final de dezembro de 2025, Gabriel começou a se interessar pela Libras na juventude e já representou o Brasil na ONU

Por Micael Olegário | ODS 10
Publicada em 11 de junho de 2026 - 09:00  -  Atualizada em 11 de junho de 2026 - 09:54
Tempo de leitura: 7 min

Foto colorida de Gabriel Camargos. Ele é um homem com trissomia 21, negro, com cabelo curto preto e usa óculos. Ele aparece de lado, vestindo um blazer cinza e fazendo sinais de Libras com as mãos. Ao fundo, cúpula do Senado Federal
Gabriel Camargos sinaliza em Libras no plenário do Senado Federal, em sessão especial destinada a conscientizar a população quanto ao Dia Internacional da Síndrome de Down (Foto: Geraldo Magela/Agência Senado – 21/03/2024)

Enfrentar o capacitismo é uma tarefa que Gabriel Lourenço Silva Camargos, 31 anos, encara em diferentes dimensões, tanto no cotidiano quanto no trabalho. “Jamais imaginaria onde eu poderia chegar, e agora, estou pronto para trabalhar com a inclusão”, afirma. Em dezembro de 2025, Gabriel se tornou a primeira pessoa com trissomia 21 – condição genética também chamada de síndrome de down –  a se formar como intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais) no Brasil e, provavelmente, no mundo*.

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A formatura foi a última etapa de um processo de aprendizado que teve início ainda na pré-adolescência, quando ele tinha entre 10 e 11 anos. A partir da interação com colegas surdos, Gabriel passou a ter contato com a Libras e se interessar por aprender mais, como uma forma de se comunicar com os amigos da escola.

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Morador de Florestal, cidade da região metropolitana de Belo Horizonte (MG), Gabriel começou a trabalhar desde cedo e, por um tempo, precisou adiar o desejo de se graduar em Libras. Para ir ao trabalho, ele precisava pegar três ônibus e ficar 12 horas fora de casa. Até que ele decidiu fazer o curso de “Comunicação Assistiva e Tradução e Interpretação da Libras/Língua Portuguesa”, ofertado na modalidade EaD pela Unintese.

Em março deste ano, Gabriel Camargos foi um dos representantes brasileiros na 15ª Conferência do Dia Mundial da Síndrome de Down, realizada na sede da ONU (Organização das Nações Unidas), em Nova Iorque, nos Estados Unidos. “Foi incrível”, resume o tradutor e intérprete de Libras.

Apesar da carreira estar apenas no início, Gabriel também já atuou em uma audiência pública no Congresso Nacional, em 2024. A sessão era alusiva ao Dia Nacional da Língua Brasileira de Sinais e foi promovida pela Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência (CPD), da Câmara dos Deputados.

Foto colorida de Gabriel Camargos fazendo tradução em Libras, durante show noturno no Estádio Mineirão
Gabriel trabalhando como tradutor e intérprete de Libras durante evento no Estádio Mineirão (Foto: Reprodução / Instagram @gabrielcamargoslibras)

Capacitismo

A Libras é uma língua gestual-visual. Diferente do português e outras línguas orais, ela possui uma forma de construção de significativo e gramática particular, o que inclui diferentes elementos, como configuração de mãos, ponto de articulação – o local no corpo ou no espaço onde o sinal é executado, movimento das mãos, direção ou orientação da palma da mão, e expressão facial.

O trabalho de um tradutor e intérprete de Libras envolve, portanto, atenção constante e agilidade nos movimentos, como forma de garantir acessibilidade. No caso de Gabriel, o capacitismo – preconceito direcionado à pessoas com deficiência – faz com que muitas pessoas duvidem da capacidade dele, justamente por um estereótipo associado à trissomia 21 ou síndrome de down.

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Mãe de Gabriel, Beatriz Camargos conta um dos episódios em que isso ocorreu, quando outra intérprete  ficou espelhando os sinais para Gabriel, até perceber que ele conseguia sozinho. “Depois ela falou: olha, ele sabe, e eu disse: se ele não soubesse, não viria não”, lembra Beatriz.

Uma das alternativas buscadas pela família para evitar esse tipo de situação é montar uma equipe de intérpretes fixa para atuar com Gabriel, com o apoio da professora de Libras Eliana Marinho. “A gente vai construindo pontes, porque de muros o mundo já está cheio”, destaca Beatriz.

Foto colorida de Gabriel Camargos. Ele usa um terno cinza, com camiseta preta e está diante de um púlpito
Gabriel durante a 15ª Conferência Internacional da Síndrome de Down (T21), realizada em Nova Iorque, nos Estados Unidos (Foto: Divulgação)

Oportunizar

Além do trabalho como tradutor e intérprete, Gabriel também realiza palestras em que conta sua trajetória e sua atuação. “Vejo que posso ser uma voz para surdos e sempre falo nas minhas palestras: eu posso, eu consigo e eu conquisto. Quero mostrar para as pessoas que a gente é capaz”, ressalta ele.

Católico, Gabriel gosta muito de estar na igreja e com a família. Apesar disso, está ansioso por mais convites para palestras e para trabalhar. Ao final da entrevista para o #Colabora, um de seus pedidos foi para divulgar seus contatos para pessoas que precisem de serviços de tradução e interpretação de Libras. No Instagram, o arroba do seu perfil é @gabrielcamargoslibras.

Para Beatriz, oportunizar é a palavra-chave para romper de fato com o capacitismo e as exclusões de direitos que esse tipo de preconceito promove. Dar uma oportunidade neste caso, não é nenhuma caridade, porque Gabriel domina com maestria a Libras. 

*Não existem dados consolidados sobre tradutores e intérpretes de Libras com deficiência e/ou especificamente com trissomia 21.Nas buscas feitas pela reportagem do #Colabora também não foram encontrados registros de outras pessoas com T21 que tenham formação para atuar como tradutoras e intérpretes de Libras.

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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