Megacidades enfrentam desafios após urbanização acelerada no planeta

Movimento na centro de São Paulo: megacidades enfrentam desafios após urbanização acelerada; algumas vão ainda crescer e, outras, como a capital paulista, verão sua população diminuir até o fim deste século (Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil - 30/08/2022)
Movimento na centro de São Paulo: megacidades enfrentam desafios após urbanização acelerada; algumas vão ainda crescer e, outras, como a capital paulista, verão sua população diminuir até o fim deste século (Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil - 30/08/2022)
Movimento na centro de São Paulo: megacidades enfrentam desafios após urbanização acelerada; algumas vão ainda crescer e, outras, como a capital paulista, verão sua população diminuir até o fim deste século (Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil – 30/08/2022)

Até o fim do século, a população de algumas vai continuar crescendo; outras, como São Paulo, terão decrescimento populacional

Por José Eustáquio Diniz Alves | ODS 11ODS 12

Publicado em 27/07/2026 - 09h09 (Atualizado há 6 minutos)

Tempo de leitura: 12 min

A maior parte da população mundial vive hoje em áreas urbanas — um fenômeno recente na história da humanidade. A urbanização tornou-se um dos principais motores da “Grande Transformação” descrita por Karl Polanyi, na qual sociedades estruturadas em torno da agricultura, da tradição e das comunidades locais deram lugar às economias de mercado, à industrialização e à modernidade.

Embora as cidades existam há cerca de 5 mil anos, a humanidade permaneceu predominantemente rural durante quase toda a sua trajetória. Tudo mudou, porém, com as revoluções industrial e energética. Em grande medida, a história dos últimos dois séculos é a própria história da ascensão urbana. Ao concentrar trabalhadores, empresas, universidades, infraestrutura, capital e conhecimento, as cidades aceleraram transformações econômicas, sociais, políticas e culturais em uma velocidade sem precedentes, consolidando a urbanização como a forma dominante de organização da vida humana.

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O gráfico abaixo, do site Our World in Data, mostra que, em 1500,  a parcela da população vivendo em áreas urbanas era menos de 1% no Brasil e de 6% no mundo. O percentual continuou abaixo de 10% até 1800. Mas deu um salto nos últimos dois séculos. Em 1900, chegou a 23% no Brasil e 16% no mundo. Em 2025, a população urbana alcançou 89% no Brasil e 57% no mundo.

Parcela da população vivendo em áreas urbanizadas, Mundo e Brasil, 1500-2025 (Fonte: Our World in Data)
Parcela da população vivendo em áreas urbanizadas, Mundo e Brasil, 1500-2025 (Fonte: Our World in Data)

Em termos absolutos, o crescimento da urbanização foi extraordinário. No Brasil, a população urbana era de 19,5 milhões de pessoas em 1950 e passou para 187,7 milhões em 2025. Em 1950, o mundo tinha 2,5 bilhões de habitantes, sendo 1,78 bilhão de pessoas no meio rural e 720 milhões de pessoas nas áreas urbanas. Em 2025, a população mundial deu um salto para 8,2 bilhões de habitantes, sendo 3,47 bilhões no meio rural e 4,76 bilhões nas áreas urbanas. Em 2007-2008 ocorreu um marco histórico: pela primeira vez a população urbana mundial ultrapassou a população rural.

Pode-se dizer que a cidade funcionou como um “acelerador histórico” de diversas mudanças. A cidade rompeu com as estruturas tradicionais. Nas sociedades rurais predominavam: famílias extensas, forte controle comunitário, mobilidade espacial e social limitadas, baixa produtividade econômica e restrito  uso de tecnologias e técnicas produtivas de larga escala.

A urbanização alterou profundamente a dinâmica populacional. As cidades, especialmente depois da adoção do saneamento básico, favoreceram a queda da mortalidade e o aumento da expectativa de vida. Isto abriu espaço para a redução da fecundidade, a redução do tamanho das famílias, a expansão do sistema educacional, a ampliação e a diversificação do leque ocupacional e a geração de oportunidades para as mulheres no mercado de trabalho. Existe, portanto, uma forte sinergia entre a transição urbana, a transição demográfica e o desenvolvimento social.

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A transição urbana favoreceu a expansão da cidadania, com o fortalecimento dos sindicatos, dos partidos políticos, dos movimentos sociais, da imprensa, das universidades e da interação social. A proximidade física facilitou a organização coletiva e acelerou mudanças institucionais. A vida urbana aproximou pessoas de diferentes origens. Isso estimulou a circulação de ideias, a inovação artística, a secularização, o pluralismo religioso e a maior tolerância à diversidade. As cidades tornaram-se centros produtores e difusores  de conhecimento.

Porém, o crescimento exponencial da população e da economia tem provocado uma deterioração das condições ambientais do planeta, o que já está comprometendo o futuro do progresso civilizacional, diante do desequilíbrio climático e de uma natureza devastada. Diversos estudos mostram que a concentração urbana é menos danosa do que o espraiamento demográfico suburbano e rural.

Mas os desafios gerados pela urbanização descontrolada, especulação imobiliária, imobilidade urbana, segregação habitacional, demanda de serviços ambientais e poluição exigem soluções urgentes para evitar que as grandes cidades virem um barril de pólvora, que pode explodir detonando as condições de vida humana e não-humana do Planeta.

Megacidades em expansão e em retração

A urbanização mundial avançou nos últimos 200 anos aumentando o número de cidades pequenas, médias e grandes. O gráfico abaixo, também do site Our World in Data, mostra a evolução de 10 megacidades globais. Todas elas com mais de 10 milhões de habitantes. Os limites das cidades foram definidos utilizando uma abordagem internacional consistente, baseada em imagens de satélite e dados populacionais.

Entre 1950 e 2020, todas as megacidades apresentaram crescimento  populacional expressivo. Mas entre 2020 e 2100 haverá crescimento demográfico em algumas e decrescimento em outras. Tóquio (Japão) era a cidade mais populosa em 1950, com 12,6 milhões de habitantes, passou para 33,7 milhões em 2020 e deve diminuir para 24,1 milhões em 2100. Quinxassa (República Democrática do Congo) tinha apenas 213 mil habitantes em 1950, passou para 10,5 milhões em 2020 e deve continuar crescendo até 14,9 milhões em 2100.

Entre 2020 e 2100, além de Quinxassa, as megacidades que vão apresentar crescimento demográfico são Daca (Bangladesh) passando de 32,6 milhões para 55 milhões de habitantes, Jacarta (Indonésia), passando de 39,1 milhões para 49,7 milhões, Carachi (Paquistão) passando de 19,3 milhões para 43,7 milhões, Cairo (Egito) passando de 24 milhões para 36,7 milhões e Nova Délhi (Índia) passando de 29,1 milhões para 32 milhões de habitantes.

No mesmo período, além de Tóquio, as megacidades que vão apresentar decrescimento demográfico são as chinesas Xangai, diminuindo de 27,7 milhões de habitantes para 24,7 milhões, e Pequim, passando de 16,5 milhões para 11,8 milhões de habitantes – e a brasileira São Paulo, maior cidade do país desde a década de 1950, onde a população diminuirá de 18,8 milhões para 12,7 milhões

Número de habitantes nas maiores cidades do mundo, 1950-2100 (Fonte: Our World in Data)
Número de habitantes nas maiores cidades do mundo, 1950-2100 (Fonte: Our World in Data)

Pela primeira vez na história, haverá simultaneamente megacidades em rápida expansão e megacidades em retração demográfica. Portanto, a urbanização apresentará ritmos diferentes ao longo do século XXI. Os problemas serão distintos, embora ambos exijam planejamento de longo prazo.

Os principais desafios da megacidades em rápido crescimento são: déficit habitacional e expansão de assentamentos precários, aumento da informalidade econômica, congestionamentos e baixa mobilidade, pressão sobre água, saneamento e energia, poluição do ar e dos rios, impermeabilização do solo e maior risco de enchentes, aumento das ilhas de calor, perda de áreas verdes e de biodiversidade, maior vulnerabilidade às mudanças climáticas e dificuldades para ampliar escolas, hospitais e demais equipamentos públicos.

Em muitas dessas cidades, o crescimento da população ocorre mais rapidamente do que a capacidade institucional e financeira dos governos. Mas se estas cidades conseguirem capitalizar o primeiro bônus demográfico poderão garantir melhor qualidade de vida para os seus milhões de habitantes.

Os principais desafios do encolhimento das megacidades são: redução da proporção da população economicamente ativa, envelhecimento acelerado da população, aumento da razão de dependência demográfica, imóveis e edifícios desocupados, queda da demanda por novas moradias, dificuldade de manter a ocupação do transporte público, aumento do custo per capita da infraestrutura urbana, necessidade de adaptar a cidade à acessibilidade universal, escassez de trabalhadores em diversos setores e necessidade de revitalizar bairros que perdem população.

Nessas cidades, o problema deixa de ser construir mais e passa a ser administrar melhor uma infraestrutura já existente para uma população menor e mais envelhecida. Uma população menor reduz a pressão sobre a infraestrutura urbana, tornando possível recuperar áreas degradadas, revitalizar bairros antigos, transformar áreas industriais abandonadas em parques, universidades e centros culturais, aumentando as áreas verdes, com maior sustentabilidade ambiental. Com menor oferta de trabalhadores, cresce o incentivo para: automação, robótica, inteligência artificial, digitalização dos serviços e aumento da produtividade do trabalho.

O declínio populacional permite reduzir o espraiamento urbano e estimular uma ocupação mais eficiente do território: maior densidade em áreas centrais, melhor aproveitamento do transporte público, redução dos custos de manutenção da infraestrutura e menor dependência do automóvel. Essa mudança representa uma transição do paradigma da cidade do crescimento para o da cidade da qualidade.

Desta forma, enquanto as cidades do Sul Global enfrentam o desafio de acomodar dezenas de milhões de novos habitantes, diversas cidades do Leste Asiático, Europa e Américas precisarão reinventar-se para permanecer dinâmicas em um quadro de redução populacional.

A urbanização continuará sendo uma das principais forças transformadoras do século XXI, mas deixará de obedecer a um único padrão. Enquanto algumas megacidades precisarão aprender a crescer de forma sustentável, outras terão de aprender a encolher sem perder vitalidade econômica e qualidade de vida. O desafio comum será tornar as cidades mais resilientes, inclusivas e ambientalmente sustentáveis, conciliando desenvolvimento humano com os limites ecológicos do planeta.

Desse modo, o futuro da civilização dependerá menos do tamanho das cidades e mais da qualidade de sua governança, de seu planejamento urbano e de sua capacidade de harmonizar prosperidade econômica, justiça social e conservação ambiental.

Referências:

POLANYI, K. A grande transformação: as origens da nossa época. Tradução de Fanny Wrabel. 2. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2000.

Esteban Ortiz-Ospina, Veronika Samborska, Hannah Ritchie, and Max Roser (2024) – “Urbanization” Published online at OurWorldinData.org. Retrieved from: https://ourworldindata.org/urbanization

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José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves é sociólogo, mestre em economia, doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar/UFMG), pesquisador aposentado do IBGE, colaborador do Projeto #Colabora e autor do livro "ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século" (com a colaboração de F. Galiza), editado pela Escola de Negócios e Seguro, Rio de Janeiro, 2022.

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves é sociólogo, mestre em economia, doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar/UFMG), pesquisador aposentado do IBGE, colaborador do Projeto #Colabora e autor do livro "ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século" (com a colaboração de F. Galiza), editado pela Escola de Negócios e Seguro, Rio de Janeiro, 2022.

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