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#RioéRua: sem chororô, a Carioca e o Bar Luiz precisam resistir

Um pouco da história, e uma receita de sobrevivência de uma via com crise de identidade


O Bar Luiz não vai fechar e anda bem cheio no almoço (Foto Oscar Valporto)
O Bar Luiz não vai fechar e anda bem cheio no almoço (Foto Oscar Valporto)

Desde que voltei da Bahia, em 2016, a cada três meses aparece um boato nas redes sociais de que o Bar Luiz vai fechar. O rumor, sempre desmentido, é seguido invariavelmente por um chororô dos proprietários do restaurante e de outros estabelecimentos da Rua da Carioca sobre a crise, a alta dos aluguéis, a criminalidade, a desordem urbana do Centro e outras mazelas do Rio de Janeiro e da maior parte do Brasil. Esses constantes boatos me levaram a voltar ao Bar Luiz com alguma frequência para uma despedida dos chopes – o escuro talvez seja o melhor da cidade -, o que não deixa de ser um bom efeito colateral.

Na última edição desta novela, há duas semanas, a caminhada pela Carioca me levou à convicção que há, pelo menos, um pouco de exagero nas lamúrias, e que os comerciantes da rua acabaram contaminados pelo excesso de autopromoção: o exemplo maior é o repetido slogan de “a mais carioca das ruas”.  Seu Ouvidor e Dona Alfândega, certamente, contestariam esse título. A Rua do Ouvidor, aberta ainda no Século XVI, ganhou este nome em 1780 e já foi a mais importante da cidade – ainda hoje mereceria o título de a mais carioca. A Rua da Alfândega ganhou seu nome no começo do século XVIII – em 1716 – e já existia no século anterior: tornou-se o centro do comércio do Rio e entrou no século XXI como referência para moradores de todos os bairros: poderia, certamente, atribuir o tal título.

As lojas do lado par da Rua da Carioca: casario resiste (Foto Oscar Valporto)
As lojas do lado par da Rua da Carioca: casario resiste (Foto Oscar Valporto)

A Rua da Carioca, aberta na década final do Século XVII, era um caminho entre a Praça Tiradentes e Largo da Carioca, onde muitos buscavam água em seu chafariz. Virou Rua da Carioca, na aba do largo, pela primeira vez em 1848 – 170 anos em novembro. E só ganhou importância no final do século quando começaram a subir os sobrados e foram abertos estabelecimentos como o próprio Bar Luiz e a Guitarra de Prata, ambos inaugurados em 1887. Mas nem se chamava Carioca: por iniciativa da Câmara Municipal tinha sido batizada São Francisco de Assis, em 1882. Voltou a ser Carioca em 1898, mudou para Presidente Wilson 20 anos depois, e ficou Carioca em definitivo só em 1919 – vai completar 100 anos.

A diferença da rua para outras vias do Centro do Rio é que seus comerciantes têm um vilão de estimação: o Banco Opportunity, que comprou 18 imóveis do lado ímpar – com o casario mais antigo – e aumentou os aluguéis. No chororô em seguida aos boatos, o banco sempre está no centro das queixas como se também fosse o responsável pela crise econômica do país, a insegurança, a desordem urbana. O Opportunity comprou os imóveis da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, que, por sua vez, reclamava dos inquilinos, É triste ver que fecharam a Guitarra de Prata, a Padaria Nova Carioca e o Bar Flora, este último do lado par, sem culpa do vilão. Mas ainda é possível comprar, por exemplo, troféus para campeonatos de pelada ou de futebol de botão na Mariu’s Sport como eu fazia há quase meio século. E escolher entre a óbvia variedade do Rei das Facas ou comprar as mais tradicionais roupas para homem no Ponto Masculino, que também lá resistem há décadas.

Lojas fechadas na Rua da Carioca: colunista contou 22 antes do Bar Luiz (Foto Oscar Valporto)
Lojas fechadas na Rua da Carioca: colunista contou 22 antes do Bar Luiz (Foto Oscar Valporto)

Voltei à Rua da Carioca três vezes em maio, e estou com a certeza de que resistir é preciso e possível. Há, se acreditar em reportagens entre 2015 e 2017, 28 imóveis fechados por lá; na quarta, 16 de maio, contei 22 lojas fechadas – antes dos chopes no Bar Luiz, que, aliás, estava quase cheio na hora do almoço. De 2016 para cá, a Rua Carioca ganhou a Casa do Choro, estabelecida em casarão do começo do século passado – como a maioria do lado par. Prédio reformado com financiamento do BNDES e patrocínio da Petrobras pela Lei Rouanet: o imóvel de três andares guarda 16 mil partituras, dois mil discos de vinil, livros e fotos, tudo ligado ao chorinho. E tem auditório para shows que acontecem, religiosamente, três dias na semana – apesar da crise.  Metros adiante, o prédio do Cine Ideal, jóia arquitetônica de 1919, abriu, no fim de 2017, como a Maison Leffié, casa para eventos. E, logo ali, no mês passado, a Maison instalou um charmoso bistrô, com boa comida e preço acessível – apesar da crise. Fico imaginando como ficaria o Cine Iris – erguido em 1909 com sua arquitetura art-noveau semelhante ao Ideal – se ganhasse um financiamento para ser transformado em centro cultural com direito até a sala de memória da pornografia.

Cine Íris: um museu ao filme pornô? (Foto Oscar Valporto)
Cine Íris: um museu ao filme pornô? (Foto Oscar Valporto)

Na minha andarilha percepção, o maior problema desta rua carioca está na calçada – ou na falta delas, tão estreitas para a largura do asfalto que não cabem nem camelôs. Sim: desordem urbana é um problema do Centro do Rio; na Carioca, especificamente, faz parte do chororô. O inimigo está sobre rodas: são os carros e ônibus que circulam por aqueles 300 metros. Eles impedem que os bares – como o Café do Bom, Cachaça da Boa, mistura de boteco com sebo de livros em outro prédio preservado, de 1910 – ponham mesas do lado de fora; que as lojas de instrumentos (são oito) promovam eventos musicais na rua; que os comerciantes reunidos criem atividades variadas como fazem em outros pontos do próprio Centro e em boa parte da cidade. A Carioca precisa tomar conta da rua para enfrentar a crise sem lamúria e recuperar sua alma carioca. #RioéRua

Café do Bom, outra das atrações da Rua da Carioca (Foto Oscar Valporto)
Café do Bom, Cachaça da Boa, outra das atrações da Rua da Carioca (Foto Oscar Valporto)

Escrito por Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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