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Excluídas da revolução digital

Vítimas de preconceito, mulheres se unem em coletivos para lutar por mais espaço na área de tecnologia


Sob o peso do machismo, mulheres lutam para conquistar espaço no universo da tecnologia. Foto: IHO / Science Photo Library
Sob o peso do machismo, mulheres têm baixíssima representatividade no universo da tecnologia. Foto: IHO / Science Photo Library

Mulheres não se interessam por tecnologia; não têm interesse por disciplinas ligadas à lógica; aquelas que escolhem a área são masculinas e feias; por serem muito emocionais, não se dão bem na área de exatas; TI não combina com mulher; elas não se encaixam.

Acredite: em pleno 2018, quando a busca pela igualdade de gêneros se expande mais e mais, ainda há quem concorde com todas essas baboseiras. Pior: as meninas que porventura possam vir a se interessar por seguir carreiras ligadas ao universo da Tecnologia da Informação (TI) são apresentadas a tais “verdades” e, assim, desmotivadas.

A consequência é que as mulheres ainda são raríssimas no segmento da tecnologia, mesmo com toda a expansão do mercado nas últimas décadas e a busca por profissionais do ramo explodindo em todo o mundo, inclusive no Brasil. Os dados são assustadores: de acordo com o site Code.org, referência no setor, empregos na área de computação irão mais do que dobrar até 2020, alcançando 1,4 milhão de vagas. O problema é que não há profissionais qualificados para suprir essa demanda e a estimativa é que apenas 400 mil vagas sejam preenchidas.

A ONU está preocupada com a situação e, em 2017, por meio da ONU Mulheres, emitiu um alerta global. Segundo a instituição, as mulheres estão fora dos principais postos de trabalho gerados pela revolução digital

Um dos motivos para a falta de mão de obra é a baixíssima participação feminina no segmento. Segundo o  Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC), no Brasil apenas 15% dos alunos de cursos relacionados à computação são mulheres. As que conseguem entrar muitas vezes não completam o curso – segundo artigo da Harvard Business Review, 41% das mulheres que trabalham com tecnologia acabam deixando a área, em comparação com apenas 17% dos homens. Nas carreiras STEM (sigla em inglês para Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática), no Brasil, as mulheres representam apenas 33,1% dos graduados.

No Brasil, apenas 17% dos programadores são mulheres. Segundo a Unesco, a baixa participação é resultado de inúmeras barreiras impostas para as jovens que desejam adentrar o mercado. Resultado? Ficam apartadas das carreiras mais promissoras simplesmente por serem mulheres.

A ONU está preocupada com a situação e, em 2017, por meio da ONU Mulheres, emitiu um alerta global. Segundo a instituição, as mulheres estão fora dos principais postos de trabalho gerados pela revolução digital. De acordo com a entidade, em todo o mundo elas têm somente 18% dos títulos de graduação em Ciências da Computação e são, atualmente, apenas 25% da força de trabalho da indústria digital.

Yasmin Romi, estudante de engenharia da computação: militância pela inclusão cada vez maior de mulheres na área tecnológica. Foto: Divulgação
Yasmin Romi, estudante de engenharia da computação: militância pela inclusão de mulheres na área. Foto: Divulgação

Além da barreira que enfrentam no momento da escolha da profissão – dentro da própria família e da rede de amigos – as mulheres ainda precisam lidar com o machismo e o preconceito por parte de professores e colegas para se manter no mercado de TI e avançar.

Relatório da OECD (Organization for Economic Cooperation and Development, Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) intitulado “ABC da Igualdade de Gêneros na Educação: Aptidão, Comportamento e Confiança” desenhou um mapa das expectativas das famílias sobre carreiras a serem seguidas pelos filhos. No geral, os pais não conseguem identificar na informática uma carreira viável para suas filhas (ao contrário dos filhos).

Foi exatamente o que enfrentou Yasmin Romi, de 22 anos, quando anunciou para a família que iria prestar vestibular para Ciência da Computação.  “Apesar de ter ganho o computador de aniversário, nunca fui muito incentivada para a área da computação. “Durante o vestibular, fui desmotivada, pois meu pai e meu namorado na época não me viam naquela área e diziam que era uma área muito masculina. Não me vejo seguindo outra carreira, mas sei que, se eu tivesse sido levada pela opinião das pessoas à minha volta, nunca iria fazer o que  faço hoje”.

Yasmin está cursando o último ano da faculdade de Engenharia da Computação no Instituto Infnet. Amante dos computadores desde os 7 anos de idade, quando pediu (e ganhou!) seu primeiro micro, aos dez anos já tinha formação profissional em WebDesign e conhecimento em 11 linguagens de programação, como PHP e MySQL. A paixão é tamanha que, hoje, ela luta para incluir mais e mais mulheres no segmento. Este ano, junto com outros quatro rapazes, venceu a Maratona Maker Petrobras no evento Rio2C, na Cidade das Artes, no Rio. “Fui a única desenvolvedora do grupo e a única menina que ganhou entre os dois Hackathons que ocorriam no evento”, conta.

Em sua militância, Yasmin fundou o Clube de Robótica Infoboto e está idealizando o Coletivo Universitário Feminino Valerie Thomas (negra, inventora da tecnologia 3D), ao lado da colega Rayza Dutra, e organizando workshops de Arduino e Realidade Aumentada. Co-fundadora do Coletivo Universitário Valerie Thomas, Rayza Dutra também é co-fundadora do JSLadies BR, organizadora do JSLadies RJ e do Women Who Go RJ, LinuxChix RJ, PythOnRio, Women Techmakers RJ e Google Group Developers RJ (ambos programas independentes da Google).

Não para por aí, não! Rayza também é capitã e fundadora do Mozilla Campus Club Infnet, primeiro clube da universidade, além de vice-Presidente do Clube de Algoritmos Infnet. A ideia é promover uma inclusão cada vez maior. “Uma das minhas missões é ensinar a qualquer pessoa aquilo que sei. Todos os eventos que  faço têm como objetivo ser uma porta de entrada para quem não é de tecnologia e gostaria de ser, e de incluir qualquer pessoa no nosso universo”, diz Rayza.

Toda iniciativa no sentido de aproximar a nova geração de mulheres – que ainda não escolheram suas profissões – de carreiras mais técnicas é válida.  É importante as pessoas escolheram suas profissões com base em seus talentos, sem preconceitos

André Kischinevsky
Pró-reitor do Instituto Infnet

Rayza e Yasmin chamam atenção para a importância da conscientização das meninas quanto ao potencial das carreiras ligadas à tecnologia e para a necessidade de se falar sobre isso. Foi exatamente o que motivou o surgimento do movimento Programaria, um dos mais respeitados no país. O grupo, que ensina programação a mulheres, prega que, para uma menina, o desafio de aprender a programar começa antes mesmo de tentar. Falta divulgação de exemplos que as inspirem e sobram estereótipos que reforçam a ideia de que a tecnologia é um campo exclusivo para homens.

Diz o grupo que “a imagem de um programador é sempre masculina, branca e com ares de gênio. E é muito difícil se imaginar fazendo algo quando ninguém como você está fazendo”. De acordo com André Kischinevsky, pró-reitor do Instituto Infnet, toda iniciativa no sentido de aproximar a nova geração de mulheres – que ainda não escolheram suas profissões – de carreiras mais técnicas é válida.  “É importante as pessoas escolheram suas profissões com base em seus talentos, sem preconceitos. As meninas que gostam de lógica e matemática devem se sentir à vontade para escolherem a carreira de desenvolvedoras de software, e acredito que esse tipo de programa pode ajudar”, diz ele.

Há muitos fatores que levariam uma mulher a optar por uma área que não seja a de TI. No livro “Faça Tudo Acontecer – mulheres, trabalho e a vontade de liderar” a autora Sheryl Sandberg sai em busca de explicações para a baixa presença de mulheres na tecnologia.  Um dos exemplos usados por Sheryl: quando crianças, os meninos geralmente são incentivados a jogar videogame e a ter um contato maior com a tecnologia, enquanto as meninas são estimuladas a brincar de boneca e de cozinhar.

Eu já ouvi ‘você não é inteligente’, ‘isso é coisa de menino’ e por aí vai… São coisas que desmotivam muito. Ouvi de um professor da minha antiga universidade que eu deveria sair da sala pois ‘mulheres dão problema’. E os colegas de sala também não nos respeitam

Rayza Dutra
Estudante de engenharia da computação

Os dados confirmam a experiência que Rayza viveu na pele: de acordo com o Programaria, na escola 74% das meninas demonstram interesse nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, mas, quando chega a hora de escolher uma graduação, apenas 0,4% dessas meninas escolhem Ciência da Computação.

Outro cenário analisado é a criação de um estereótipo em relação às mulheres da área de TI, de que são “masculinizadas” ou “feias”, o que pode acabar desmotivando mais mulheres a querer fazer parte da área, com medo de serem diminuídas a este esteriótipo. 

“Eu já ouvi ‘você não é inteligente’, ‘isso é coisa de menino’ e por aí vai… São coisas que desmotivam muito. Ouvi de um professor da minha antiga universidade que eu deveria sair da sala pois ‘mulheres dão problema’. E os colegas de sala também não nos respeitam. São muitos casos e muitos motivos, o que nos resta a fazer é fortalecer as mulheres que estão na área e preparar o terreno para as que estão por vir”, afirma Rayza.

De acordo com o Programaria, há várias respostas para a pergunta “Por que o mundo da programação parece estar tão distante de nós, mulheres?”. Depois de muita discussão e reflexão, o grupo identificou padrões diferentes de problemas que as mulheres costumam enfrentar na relação com a programação. Entre eles, 1) falta de visão das possibilidades, 2) dificuldade de acompanhar tendências; 3) barreiras culturais; 4) falta de auto-confiança; 5) barreiras para aprendizagem; 5) falta de conhecimento técnico e 6) “só sei que nada sei”.

Jovens do movimento Programaria: unidas na luta contra os estereótipos. Foto: Divulgação
Jovens do movimento Programaria: aulas de programação e batalha contra os estereótipos. Foto: Divulgação

Dentro de “barreiras culturais”se encaixariam várias das aflições enfrentadas por Rayza e Yasmin, como a falta de incentivo, a crença e que “TI é coisa de homem ou de japonês”, de que “é coisa de nerd”e outras crenças cristalizadas com a ajuda do estereótipo desenvolvido durante muito tempo, inclusive pela indústria do entretenimento. Vide o caso da cultuada série “The Big Bang Theory”, sobre um grupo de jovens cientistas, incluindo físicos e desenvolvedores, no qual as mulheres são estereotipadas e não pertencentes à área da TI (Bernardete é microbiologista, Amy é neurobiologista, Penny é “modelo atriz”).

“Quando começaram a produzir filmes de ficção científica e surgiu a cultura nerd, a representatividade era sempre masculina. Desde propagandas incentivando meninos a comprarem joguinhos de console até os primeiros filmes de Star Wars, onde só apareciam homens Jedi ou Sith lutando, só se via a imagem masculina atrelada à tecnologia e acredito que o número extremamente baixo de meninas nas áreas de computação foi consequência disso”, diz Rayza.

Como fez para lidar com o machismo e o preconceito e perseverado mesmo em cenário tão adverso? Segundo Rayza, a criação de comunidades de mulheres em torno da TI ajuda, e muito. “Um dos motivos para eu não desistir da minha graduação foi participar de comunidades que promovem, de alguma forma, a diversidade na área, tanto o aumento de mulheres quanto o de pessoas trans, negras e LGBT”, diz ela.

Entre as comunidades, Rayza cita Programaria, FemmeIT, Codamos, Women’s Tech e o Women TechMakers, apoiado pela Google. “Além disso, temos praticamente uma comunidade feminina para cada linguagem de computação: PyLadies, JS Ladies, RailsGirls, Women Who Go, Django Girls, PHPWomen, JavaGirl, entre outras. Elas servem para promover um ambiente confortável para troca de dúvidas e evitar mansplaining ou algum tipo de preconceito com mulheres. Em muitas das comunidades, homens são livres para participar, contanto que respeitem os valores do grupo”, conta Rayza.


Escrito por Elis Monteiro

É consultora e professora de Marketing Digital da Fundação
Getulio Vargas (FGV), do Instituto Europeu de Design (IED) e da Universidade Veiga de Almeida (UVA)

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