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O gênio da informação

Nem tudo está perdido, ainda dá tempo de selecionar melhor suas fontes e leituras


Depois de milhões de linhas de texto e trilhões de fotos, o que sei é que açúcar engorda e exercício emagrece
Depois de milhões de linhas de texto e trilhões de fotos, o que sei é que açúcar engorda e exercício emagrece

Pizza engorda. Alface emagrece. Bolo de chocolate engorda muito. Comer frutas e verduras é bom para a saúde. Fast food faz mal. Se você fizer alguma atividade física melhora a forma. Se ficar sentado o dia todo vai ter problemas.

Você deve estar imaginando: Isso é óbvio, porque estou perdendo tempo lendo essa bobagem?

Pois é.

Jornais e revistas passam pelas minhas mãos há mais de trinta anos. Ao menos vinte por cento do que li eram matérias definitivas sobre alimentação e boa forma, dicas de dietas, revelações bombásticas sobre o efeito do açúcar, depoimentos inspiradores de pessoas que começaram a praticar algum esporte, longas reportagens sobre a dieta da moda. Foi essa informação que me permitiu concluir que a combinação de TV+pote de sorvete por alguma misteriosa razão engorda mais que academia+salada, um enigma que Einstein teria dificuldade em resolver. O noticiário também me fez um PhD em soluções mágicas: cortar os carboidratos e comer só proteína. O leitor se fartava de picanha e enfartava lindo e magro. Coma de tudo em pequenas porções. Ninguém se ligava no falto de que o problema era exatamente que a pessoa muito acima do peso não consegue lidar com pequenas porções.

E eu ali, folheando páginas e mais páginas.

Imaginem quinze minutos de leitura por dia ao longo de trinta anos. Nesse tempo podia ter aprendido alemão podia saber consertar o meu computador. Mas não, o que sei, depois de milhões de linhas de texto e trilhões de fotos antes/depois é que açúcar engorda e exercício emagrece.

Gênio.

Mas tem mais.

Também tem o tempo perdido lendo sobre relacionamentos.

Quantas matérias e reportagens sobre como encontrar a pessoa ideal? Faça isso, vista aquilo, o certo é assim, o errado é assado. Como manter o casamento. Como acabar com o casamento. Como superar o divórcio. Como ser feliz solteiro. Fez diferença na minha vida? Nenhuma. O tempo que perdi com informação rasteira, isso sim fez diferença. Quantos livros poderia ter lido? Quantos filmes? Poderia ser um especialista na obra de Shakespeare, poderia saber de memória cada fala dos filmes de Fellini, Bergman e Kurosawa. Isso sim me ajudaria nos relacionamentos. Mas o que aprendi é que perdoar é importante e que beleza não é tudo.

Gênio outra vez.

Tenho que mudar, selecionar melhor minhas fontes, minha leitura, enquanto ainda dá tempo.

Afinal não importa quantos passos você deu para trás, o importante é quantos passos agora você vai dar pra frente.

Acabei de ler isso no biscoito chinês.


Escrito por Leo Aversa

Leo Aversa fotografa profissionalmente desde 1988, tendo ganho alguns prêmios e perdido vários outros. É formado em jornalismo pela ECO/UFRJ mas não faz ideia de onde guardou o diploma. Sua especialidade em fotografia é o retrato, onde pode exercer seu particular talento como domador de leões e encantador de serpentes, mas também gosta de fotografar viagens, especialmente lugares exóticos e perigosos como Somália, Coréia do Norte e Beto Carrero World. É tricolor, hipocondríaco e pai do Martín.

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