Os países em desenvolvimento precisarão de US$ 305 bilhões de dólares (R$ 1,67 trilhão de reais) por ano até 2035 para conseguir se adaptar ao agravamento das mudanças climáticas, ou seja, 10 vezes mais do que recebem atualmente das nações mais ricas, de acordo com relatório da ONU publicado nesta quarta-feira (04/11). O documento aponta ainda que, com o aquecimento global prestes a ultrapassar 1,5°C, o financiamento para a adaptação fica muito aquém das necessidades, a implementação é limitada por barreiras institucionais, e as perdas e danos estão aumentando.
O Relatório sobre a Lacuna de Adaptação de 2026 do PNUMA — intitulado “Prontos? Não” — conclui que uma “adaptação ampliada, eficaz e bem financiada” será fundamental para reduzir riscos, fortalecer a resiliência e apoiar um desenvolvimento mais inclusivo. No entanto, os fluxos internacionais de financiamento público para a adaptação, destinados de países desenvolvidos para países em desenvolvimento, estão muito aquém das necessidades estimadas em US$ 305 bilhões anuais até 2035.
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Mesmo que a meta estabelecida na COP30 — de triplicar os fluxos internacionais de financiamento público para países em desenvolvimento até 2035 — seja alcançada, isso cobriria apenas de 20% a 29% do montante necessário para lidar com a intensificação dos impactos climáticos. “O mundo não está preparado para se adaptar às condições climáticas atuais, quanto mais ao que um ultrapassamento do limite de 1,5°C poderá acarretar”, afirmou Inger Andersen, diretora executiva do PNUMA na apresentação do relatório.
Andersen destacou os desafios à frente para os países enfrentarem a adaptação climática. “Na COP31 sobre o clima, na Turquia, e posteriormente, as nações precisam se concentrar em intensificar os esforços para concretizar a meta estabelecida na COP30 — um esforço coletivo global para triplicar o financiamento para a adaptação até 2035 —, tendo em mente que será necessário ir ainda mais longe para salvar vidas, evitar perdas e danos, e proteger as economias”, frisou.
A questão do financiamento, em particular o direcionado à adaptação, será novamente um dos temas mais delicados na reunião de cúpula do clima que começará na segunda-feira (09/11) na cidade turca de Antália, a COP31. Com base nos acordos da ONU, os países mais desenvolvidos, historicamente responsáveis pela maior parte das emissões de gases do efeito estufa, devem financiar os países em desenvolvimento para que estes se adaptem aos efeitos do aquecimento e façam a transição para fontes de energia limpa.

Financiamento climático
Os fluxos internacionais de financiamento público para adaptação, provenientes de países desenvolvidos para países em desenvolvimento, atingiram entre US$ 28,2 bilhões e US$ 31,7 bilhões em 2024 — um aumento de US$ 1 bilhão em relação ao ano anterior. Os fluxos destinados aos países menos desenvolvidos (PMDs) e aos pequenos Estados insulares em desenvolvimento (PEID) cresceram, em termos reais, entre 2019 e 2024; contudo, registraram queda em relação ao pico observado em 2022 — um cenário preocupante, dado que esses valores deveriam estar em trajetória de crescimento.
Entre as medidas de adaptação estão a construção de diques para enfrentar a elevação do nível do mar, a diversificação de cultivos para torná-los mais resistentes às secas, além da melhoria das moradias para reforçá-las diante de catástrofes naturais. “Para cada dólar que os países em desenvolvimento precisam para a adaptação, recebem apenas 10 centavos”, criticou o secretário-geral da ONU, António Guterres, em mensagem para o lançamento do relatório. “Sabemos quem corre maior risco. Sabemos o que funciona. O que falta é dinheiro e vontade política. A escolha é simples: investir hoje em adaptação ou pagar pelas catástrofes de amanhã”, acrescentou.
Com base em uma avaliação das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), dos Planos Nacionais de Adaptação (NAPs) e de estimativas obtidas por meio de modelos, o relatório aponta uma estimativa central de cerca de US$ 305 bilhões anuais em necessidades de adaptação para os países em desenvolvimento até 2035. Esse montante exclui, em grande parte, as necessidades específicas do setor privado, as quais poderiam quase dobrar esse valor.
Na COP30, a decisão do “Global Mutirão” (Esforço Coletivo Global) estabeleceu a meta de, no mínimo, triplicar o financiamento para adaptação até 2035. Dependendo se esse triplo é calculado com base nos fluxos atuais ou nos parâmetros do Pacto Climático de Glasgow, o financiamento internacional para adaptação chegaria a um patamar entre US$ 85 bilhões e US$ 120 bilhões por ano até 2035. Ajustado pela inflação, esse triplo supriria apenas de 20% a 29% das necessidades de financiamento para adaptação em 2035. Por outro lado, um cenário mais positivo indica que triplicar os fluxos destinados aos PMDs e aos PEID poderia atender entre 49% e 83% de suas necessidades.
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O relatório aponta algumas tendências positivas. Embora o crescimento permaneça muito abaixo do ritmo necessário para cumprir o Pacto Climático de Glasgow — que prevê dobrar o financiamento em relação aos níveis de 2019, atingindo US$ 40 bilhões até 2025 —, a meta ainda pode ser alcançada. É provável que os Bancos Multilaterais de Desenvolvimento (BMDs) tenham aumentado significativamente seu financiamento em 2025; contudo, o cumprimento da meta dependerá de os fluxos para adaptação climática provenientes de parceiros bilaterais de desenvolvimento não serem afetados pela redução da ajuda oficial ao desenvolvimento.
Os fluxos financeiros entre países em desenvolvimento também estão aumentando. As contribuições por meio de BMDs e da cooperação direta Sul-Sul subiram de US$ 3,8 bilhões em 2019 para US$ 9,6 bilhões em 2024. Paralelamente, os fluxos privados estão em crescimento — embora, em grande parte, atendam às necessidades de adaptação climática do próprio setor privado ou sejam custeados pelos próprios países em desenvolvimento; estima-se que esses recursos possam reduzir em apenas 15% a 20% a lacuna de financiamento para ações de adaptação de caráter mais público.
No entanto, o financiamento, por si só, é insuficiente. O progresso também depende de uma série de fatores institucionais que ajudam a transformar as prioridades de adaptação em medidas efetivamente implementadas. Os governos já estão adotando providências para fortalecer esses fatores, como a criação de leis-marco sobre mudanças climáticas, o desenvolvimento de plataformas para o intercâmbio de políticas, o aprimoramento da coordenação entre diferentes setores e esferas de governo, e a implementação de mecanismos específicos para mobilizar e gerenciar o financiamento climático.
Perdas e danos em ascensão
A ausência de medidas robustas de mitigação e adaptação faz com que as perdas e danos relacionados ao clima — que podem ocorrer mesmo diante de ações de adaptação — sejam substanciais. O relatório constatou que o financiamento destinado a perdas e danos é insuficiente frente às necessidades identificadas, ao passo que procedimentos complexos e uma capacidade limitada dificultam o acesso a esse apoio.
Por exemplo, a primeira rodada do Fundo para resposta a Perdas e Danos gerou solicitações no valor de US$ 2,8 bilhões, superando o montante inicial disponível de US$ 342 milhões. Isso evidencia uma demanda significativa não atendida; contudo, ainda não se conhece a dimensão global da lacuna de financiamento para perdas e danos.
O relatório aponta a necessidade clara de uma maior capacidade de avaliação, de apoio financeiro e técnico adequado e previsível, de procedimentos de acesso mais simples e de uma participação efetiva das comunidades afetadas na formulação de respostas a perdas e danos.
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