Ultrapassar aquecimento de 1,5°C terá impactos irreversíveis para áreas congeladas e oceanos

Foto colorida de gelo se quebrando e derretendo, com Sol ao fundo. Impacto do aquecimento global na criosfera
Foto colorida de gelo se quebrando e derretendo, com Sol ao fundo. Impacto do aquecimento global na criosfera
Derretimento de gelo aumenta acidificação e pode ameaçar ainda mais recifes de corais (Foto: James Kirkham/ICCI)

Relatório traz alerta sobre perda de gelo e elevação do nível do mar. Mesmo redução posterior das temperaturas não reverterá todos os danos

Por Micael Olegário | ODS 13, ODS 14

Publicado em 01/11/2026 - 21h30

Tempo de leitura: 8 min

O aumento da temperatura média global acima de 1,5°C em relação ao período pré-industrial terá consequências irreversíveis para a vida no planeta, apontam cientistas. Ultrapassar esse limite pode gerar perdas irreversíveis de gelo, acelerar a elevação do nível do mar e comprometer o equilíbrio dos oceanos por séculos.

A conclusão consta no relatório “Overshoot and the Cryosphere: Averting Global Meltdown”, divulgado neste domingo (1°/11) pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e pela Iniciativa Internacional sobre o Clima da Criosfera (ICCI, na sigla em inglês), com a participação de mais de 80 cientistas.

O documento alerta que mesmo uma redução posterior das temperaturas não seria suficiente para reverter todos os impactos sobre a criosfera, conjunto de áreas congeladas do planeta, como as regiões polares, geleiras e áreas de permafrost (solos permanentemente congelados). 

O relatório evidencia que a ação de parte da humanidade, principalmente países ricos e grandes empresas do Norte Global, coloca em risco a vida de diversas gerações de humanos e mais-que-humanos. As mais ameaçadas são as comunidades costeiras, primeiras a serem atingidas pela elevação do nível do mar.

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Os impactos previstos incluem desde a acidificação do oceano, com ameaça à milhares de espécies marinhas, prejuízos na agricultura e economia, até o aumento de desastres em regiões montanhosas, como o ocorrido na fronteira entre o Nepal e Tibete em agosto deste ano. 

“Se a gente descongelar toneladas de gelo que vão para os oceanos, mesmo que depois a temperatura volte ao ‘normal’, ninguém sabe como congelar de novo essa quantidade de gelo”, explica Thiago Monteiro, pesquisador da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e um dos autores de capítulo do relatório sobre alterações nos oceanos Ártico e Antártico

Limite já está sendo ultrapassado

Em 2024, o limite de 1,5°C de aquecimento, estabelecido no Acordo de Paris, foi ultrapassado pela primeira vez. Naquele ano, a temperatura média global ficou 1,6°C acima do período antes da Revolução Industrial. No ano passado, o aquecimento ficou em 1,47°C, terceiro maior nível da história.

Dados do Observatório Copernicus, da União Europeia, indicam que os últimos 11 anos foram os 11 mais quentes já registrados. Os últimos três anos (2023-2025) também apresentaram uma média superior a 1,5°C acima do nível pré-industrial (1850-1900).

A tendência é de que essa curva de aquecimento continue subindo, considerando o contexto atual de Super El Niño em 2026/2027. Dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM) também indicam aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. Em 2025, esse nível foi de 426,8 partes por milhão (ppm) – 153% maior que no século XVIII.

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Segundo o relatório do Pnuma, um limite “seguro” de aumento médio da temperatura está mais próximo de 1,0°C, considerando um intervalo de longo prazo. Para limitar os impactos, os cientistas defendem a redução urgente de emissões de gases de efeito estufa (GEE), com diminuição de pelo menos 5% ao ano, além de zerar as emissões líquidas zero até meados do século.

Foto colorida de iceberg de gelo que se desprendeu perto da Antártica
Áreas congeladas são essenciais para regular o clima no planeta; derretimento também ameaça comunidades costeiras (Foto: James Kirkham/ICCI)

Quanto mais quente, maior o problema

Uma das consequências mais drásticas do processo de aquecimento global é o derretimento das camadas de gelo polares que cobrem a Groenlândia e a Antártida. Segundo o relatório, o gelo nessas áreas está derretendo cerca de seis vezes mais rápido hoje do que na década de 1990.

As áreas congeladas exercem um papel chave na regulação térmica do planeta, porque refletem a energia do Sol de volta para o espaço. “Se a gente derreter essa superfície branca que reflete energia, o nosso planeta vai absorver essa energia e ficar ainda mais quente”, aponta Thiago Monteiro.

Portanto, o derretimento do gelo, causado pelo aquecimento global, pode fazer a temperatura média subir ainda mais. A perda de gelo também pode liberar gases de efeito estufa armazenados no solo, como no caso das áreas de permafrost. O resultado é a retroalimentação do caos climático.

A análise dos cientistas vinculados ao Pnuma considera diferentes cenários de aquecimento. Um aumento de 2,0°C pode gerar uma redução brutal do gelo marinho no Ártico nos meses de verão. Já temperaturas próximas a 3°C podem resultar em meses sem gelo a cada ano e em gelo marinho significativamente mais fino e menos extenso, mesmo no inverno.

Segundo os pesquisadores, quanto maior a temperatura atingida e mais longo o período acima desse limite, maiores serão os danos.

Oceanos e o impacto no Brasil

O Brasil já é um dos países que mais tem sofrido com as mudanças climáticas, seja com eventos extremos de chuva ou ondas de calor. Mesmo sem possuir áreas congeladas, o país também será impactado pelo derretimento de gelo, especialmente, em suas áreas costeiras.

“Quando tem ressaca em regiões muito próximas do mar, já temos um impacto muito grande para a infraestrutura, para o turismo e para a economia. Também para a agricultura, porque essas águas do mar, quando entram na superfície e vão para o solo e os lençois freáticos, impactam a produção agrícola”, descreve Thiago Monteiro.

As camadas de gelo também liberam água doce, o que modifica o equilíbrio do PH dos oceanos, aumentando o seu grau de acidez. Isso prejudica organismos marinhos como corais e moluscos, cadeias alimentares, atividades pesqueiras e, consequentemente, a segurança alimentar de comunidades que dependem do mar.

“Já perdemos uma quantidade enorme de área de recifes de corais por branqueamento, ou seja, em função do aquecimento das águas. Isso já é uma realidade”, afirma o pesquisador da UFBA.

As mudanças na circulação dos oceanos polares, como o enfraquecimento de grandes correntes oceânicas no Atlântico, por exemplo, podem afetar o clima de regiões tropicais. Uma das mudanças possíveis é na distribuição das chuvas no Brasil, acrescenta o cientista brasileiro. 

Thiago enfatiza que reduzir as emissões de gases de efeito estufa é a única alternativa viável no momento para diminuir esses impactos. No médio e longo prazo, o caminho passa por reter mais carbono no solo, por exemplo, com recuperação de áreas florestais. “Em áreas costeiras também, como regiões de manguezais que foram drasticamente reduzidas em várias regiões do planeta e, aqui no Brasil, principalmente, no Nordeste”.

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Repórter e coordenador de conteúdo e distribuição do #Colabora - Jornalismo Sustentável. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Natural de Caibaté (RS), possui experiência na cobertura das inundações de 2024 no Rio Grande do Sul e da COP30, em Belém (PA). Tem interesse por temas como crise climática, antropoceno, decolonialidade e acessibilidade.

Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Repórter e coordenador de conteúdo e distribuição do #Colabora - Jornalismo Sustentável. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Natural de Caibaté (RS), possui experiência na cobertura das inundações de 2024 no Rio Grande do Sul e da COP30, em Belém (PA). Tem interesse por temas como crise climática, antropoceno, decolonialidade e acessibilidade.

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