A cidade de Antália, na Turquia, prepara para a COP31: conferência da ONU enfrenta impasses tradicionais como combustíveis fósseis e financiamento (Foto: COP31)

De Belém a Antália, COP31 enfrenta impasses tradicionais: combustíveis fósseis e financiamento

Transição energética justa, financiamento climático, mitigação e adaptação serão os tópicos chaves da conferência da ONU: desafio será superar barreiras e acelerar a ação, num cenário global de guerra e super El Niño

Por Liana Melo | ODS 13

Publicado em 04/11/2026 - 18h10

Tempo de leitura: 11 min

País anfitrião da COP31, a Turquia é uma das principais lixeiras dos resíduos plásticos oriundos da União Europeia e do Reino Unido. O país quer lançar na conferência da ONU sobre mudança do clima a Plataforma de Istambul. O objetivo é reunir soluções já implementadas mundo afora para reduzir pela metade a geração do lixo plástico até 2035. A ideia foi gestada na Fundação Lixo Zero, uma entidade criada pela primeira-dama turca, Emine Erdogan, e vai ser usada como uma espécie de vitrine. O país ambiciosa se tornar a capital mundial do lixo zero.

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O presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva estará em Antália, cidade banhada pelo Mar Mediterrâneo, na costa Sul do país, onde começa nesta segunda-feira (9/11) a COP31, que vai até o dia 20, assombrada pelos mesmos fantasmas das últimas conferências do clima: os impasses sobre a redução do uso de combustíveis fósseis e sobre o financiamento das medidas necessárias e urgentes para adaptação e mitigação aos impactos da mudança no clima.

O Brasil entregará a presidência brasileira da conferência, exercida pelo embaixador André Corrêa do Lago, que ficou responsável pela condução política e a articulação de consensos entre os países membros da ONU, e pela diretora-executiva Ana Toni, que cuidou da implementação das ações e as frentes de trabalho. O Brasil defenderá a continuidade das agendas acertadas em Belém, onde ocorreu a COP30, no ano passado.

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Ao contrário de algumas edições anteriores da COP, as expectativas em relação a COP31 não giram em torno de um resultado decisivo fruto de negociações. Ao contrário. O objetivo será superar barreiras práticas e acelerar a ação, assim como monitorar se os países conseguirão sustentar os compromissos já assumidos por meio de políticas, financiamento e cooperação necessários para concretizá-los. O cenário global, no entanto, é adverso: guerras, o que vem provocando a alta dos preços de combustíveis e alimentos, e o super El Niño, que pode levar a uma situação gravíssima de insegurança alimentar.

O presidente Lula já confirmou que estará presente na cúpula dos líderes em Antália, entre os dias 11 e 12. Com o encontro marcado para acontecer durante a conferência, a organização da COP31 retoma assim uma tradição: em Belém, foi a primeira vez que os chefes de estado se reuniram dias antes do início do encontro da ONU.

Anúncio na COP30, em Belém, da copresidência de Turquia e Austrália para a COP31: mapas do caminho para fim dos combustíveis fósseis e para desmatamento zero na pavimentação da estrada para a próxima Conferência do Clima (Foto: Rafa Neddermeyer / COP30 - 22/11/2025)
Anúncio na COP30, em Belém, da copresidência de Turquia e Austrália para a COP31: mapas do caminho para fim dos combustíveis fósseis e para desmatamento zero na pavimentação da estrada para a próxima Conferência do Clima (Foto: Rafa Neddermeyer / COP30 – 22/11/2025)

Prestação de contas

Ao passar o bastão, o Brasil submeterá três documentos que começaram a ser desenhados em Belém. São dois mapas do caminho, já apresentados pela presidência da COP30: um sobre a transição para longe dos combustíveis fósseis, para o qual contribuíram pouco mais de 100 países, e o outro sobre florestas, que apresenta a proposta de acabar – e reverter – com o desmatamento até 2030. Nenhuma das duas propostas obteve consenso na COP30. O terceiro documento será um relatório do roteiro de Baku-Belém, onde será apresentada uma atualização do financiamento climático de US$ 1,3 trilhão por ano até 2035.

A programação de eventos do Pavilhão Brasil na COP31, na Turquia foi divulgada dias antes da realização do segundo turno das eleições presidenciais no Brasil. Ao todo, serão 23 pavilhões de países este ano. O espaço brasileiro reunirá representantes de governos, povos indígenas e comunidades tradicionais, setor privado, academia, organizações da sociedade civil e organismos internacionais e estará dividido em dois ambientes: o Auditório Belém receberá atividades dedicadas a temas relevantes para o Brasil, destacando experiências nacionais na implementação da agenda climática e sua contribuição para os compromissos globais e o Auditório Mutirão Global concentrará eventos relacionados à Agenda Global de Ação Climática, com foco em iniciativas alinhadas aos eixos definidos no Balanço Global e nos Planos de Aceleração de Soluções lançados durante a COP30.

Para Mirela Sandrini, diretora executiva do WRI Brasil, a COP31 é muito importante para o Brasil e o objetivo da entidade será achar saídas e reforçar a importância do multilateralismo. Ela listou três motivos para ressaltar a relevância da conferência: a transição justa, ampliar o financiamento climática e, por último, mas não menos importante, acelerar as soluções climáticas, na prática. O WRI Brasil vai apresentar estudos, dados e recomendações para orientar a tomada de decisão de atores públicos e privados, com base científica. “Teremos a chance de avançar na questão do mecanismo que foi criado para apoiar tanto as comunidades, quantos os trabalhadores que serão afetados pela transição de uma economia baseada em combustíveis fósseis para outra, de baixo carbono”.

Quanto ao financiamento, Sandrini comentou que o “roteiro Baku-Belém já apontou algum caminho para a mobilização de US$ 1,3 trilhão por ano até 2035 nesse sentido. Para o Brasil isso se traduz, de forma prática, em como e quanto teremos disponíveis tanto para a agenda de adaptação, quanto para a de redução de emissões”. Para ela, acelerar as soluções na vida real, significa pensar em “cidades resilientes, no mercado de carbono, na eletrificação dos transportes, na bioeconomia e no combate ao desmatamento.”

O ministro turco Murat Kurum, copresidente da COP31, entre Simon Stiell, executivo da UNFCCC, e o brasileiro André Corrêa do Lago, presidente da COP30, em encontro na ONU: transição energética, financiamento climático, mitigação e adaptação como eixos temáticos em Antália (Foto: UNFCCC)
O ministro turco Murat Kurum, copresidente da COP31, entre Simon Stiell, executivo da UNFCCC, e o brasileiro André Corrêa do Lago, presidente da COP30, em encontro na ONU: transição energética, financiamento climático, mitigação e adaptação como eixos temáticos em Antália (Foto: UNFCCC)

Eixos temáticos da COP31

É a primeira vez na história de uma conferência de clima da ONU que uma COP foi fruto de uma espécie de gestão tripartite juntando Brasil, Austrália e Turquia. Essa foi a alternativa encontrada para conciliar interesses díspares e resolver um impasse: o local da conferência. Caso não fosse definido em Belém, o encontro seria realizado em Bonn, na Alemanha, cidade-sede do secretariado de clima da ONU.

Com a gestão tripartite, a Turquia ficou responsável pela organização do encontro, cabendo a Austrália presidir a conferência e definir os temas-chaves da agenda climática. Os tópicos da negociação são definidos em reuniões preparatórias, conhecidas como pré-COPs. A primeira delas ocorre anualmente em Bonn, no meio do ano, e segunda foi em Fiji, país insular no Pacífico Sul, em outubro último. A maioria dos temas chega à COP previamente redigidos, mas podem chegar também travados.

O ministro turco Murat Kurum, presidente designado da COP31, aproveitou o encontro em Fiji para anunciar que Turquia e Austrália perseguirão o compromisso de manter vivo o limite de 1,5ºC para o aquecimento global, como estabelecido no Acordo de Paris. “Essa meta de 1,5ºC é uma questão de sobrevivência”, afirmou Kurum, titular  à imprensa internacional, à época da pré-COP em Fiji.

Em carta, a copresidência da conferência definiu quatro frentes de negociações – transição justa, financiamento climático, mitigação e adaptação – na agenda da COP31. Também anunciou a intenção de nomear antecipadamente duplas de ministros para conduzir consultas nesses quatro eixos temáticos.

Como o temo “lixo zero” não consta da pauta oficial das negociações da COP31, a presidência turca decidiu incluir o assunto na Agenda de Ação voluntária. O tema integra compromissos paralelos e voluntários com governos e o setor privado, mas não faz parte da lista de negociações da UNFCCC. Em 2025, a Turquia importou quase 650 mil toneladas métricas de resíduos plásticos proveniente da União Europeia e Reino Unido. Outra proposta voluntária lançada no final de outubro pela Turquia foi o Compromisso de Antália sobre Inteligência Artificial.

Ainda que a iniciativa contemple duas facetas da relação entre a IA e o clima, a diretora de Dados e IA do WRI, Evan Tachovsky, levantou preocupações quanto a ausência de mecanismos de responsabilização que orientem países e empresas de tecnologia. “O apoio a financiamento e infraestrutura para IA, visando fortalecer a ação climática — especialmente em países em desenvolvimento —, é digno de nota, desde que acompanhado de recursos financeiros reais. Contudo, o Compromisso não contempla compromissos para envolver as comunidades em decisões sobre centros de dados que as afetam, nem estabelece salvaguardas para lidar com preocupações relacionadas à qualidade da água e do ar”, disse.

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Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

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