Após uma forte queda de 13% em 2024, as emissões de gases de efeito estufa do Brasil caíram mais 6% em 2025, atingindo seu menor valor bruto desde 2018. Os dados são do Seeg, o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima, cuja 14a coleção foi lançada nesta quarta-feira (21/10). Com a queda, o Brasil ficou próximo de cumprir sua NDC, a meta estabelecida no Acordo de Paris para o ano de 2025.
As emissões brutas nacionais foram de 2,06 bilhões de toneladas de CO2 equivalente (GtCO2e) no ano passado, contra 2,19 GtCO2e em 2024. As emissões líquidas, descontando o crescimento de vegetação secundária e a remoção de carbono por áreas protegidas, foram de 1,41 bilhão de toneladas, uma queda de 9% e o menor valor desde 2012. O Seeg reporta preferencialmente as emissões brutas, que representam o que o país efetivamente lançou na atmosfera, mas também calcula as emissões líquidas, forma como o governo prefere reportar os esforços nacionais de mitigação.
Leu essa? Emissões de metano da agropecuária sobem no Brasil; ambientalistas propõem ações para redução
Mais uma vez, a redução nas emissões foi puxada pela forte desaceleração do desmatamento, principalmente na Amazônia e no Cerrado. Pelo segundo ano consecutivo, houve queda da devastação em todos os biomas. A queda em relação a 2024 no setor de mudança de uso da terra, que abarca sobretudo o desmatamento, é de 15% nas emissões brutas, de 957 MtCO2e (milhões de toneladas de gás carbônico 1 equivalente) para 814 MtCO2e, e de 48% nas emissões líquidas (de 311 MtCO2e para 162 MtCO2e).
A queda nas emissões líquidas por mudanças de uso da terra no governo Lula 3 foi de 81% em relação a 2022, último ano do governo Bolsonaro (de 860 milhões de toneladas de CO2e para 162 milhões). Essa redução será ainda maior em 2026, quando o Brasil registrou a menor taxa de desmatamento da história tanto na Amazônia quanto no Cerrado. Nas emissões brutas a queda foi menor, mas ainda assim significativa, de 46%: de 1.505 MtCO2e em 2022 para 814 MtCO2e em 2025.
Receba um resumo com nossas notícias e colunas. É de graça!
Veja o que já enviamosA redução das taxas de desmatamento reduz a desproporção entre uso da terra e os outros setores, mas também mostra a importância de cortar emissões em agropecuária e energia para avançar no cumprimento das metas climáticas do país. “Nos últimos quatro anos, o Brasil correu atrás do prejuízo e cortou em um quarto as suas emissões brutas. É um feito digno de nota, dado que nos 13 anos anteriores, desde que publicou sua Política Nacional do Clima em 2009, o país viu suas emissões crescerem em dois terços”, afirmou David Tsai, do Iema (Instituto de Energia e Meio Ambiente), coordenador do Seeg.
Em quase todos os outros setores as emissões se mantiveram praticamente estáveis em relação ao ano anterior: as de agropecuária não variaram (queda de 0,1%), permanecendo em 626 milhões de toneladas de CO2e em 2025; em energia, alta de 1,2% (de 422 MtCO2e em 2024 para 427 MtCO2e em 2025); em processos industriais e uso de produtos, também virtualmente nenhuma mudança (0,2% de alta, permanecendo em 94 MtCO2e). A exceção foi o setor de resíduos, que registrou alta de 3,6% (de 92 MtCO2e em 2024 para 96 MtCO2e no ano passado). “O fato de essa queda ocorrer tão depressa após anos de forte subida do desmatamento mostra o sucesso do país em criar e aplicar políticas de comando e controle. No entanto, preocupa que nosso desempenho climático ainda dependa tanto de um só setor, o de uso da terra. É imprescindível avançar nos outros setores para que as próximas metas, de 2030 e 2035, sejam cumpridas”, acrescentou Tsai.
No total das emissões brutas do país, as mudanças de uso da terra ainda são o fator mais expressivo, respondendo por 39% do total de 2025; em seguida vêm agropecuária, com 30%, energia, com 21%, e processos industriais e resíduos com 5% cada. Em 2024 a “pizza” das emissões nacionais se dividia em 44% para mudança de uso da terra, 29% para agropecuária, 19% para energia e 4% para processos industriais e resíduos.
Mesmo com a queda, a agropecuária segue sendo a atividade econômica mais emissora do Brasil, com 70% das emissões brutas, considerando as diretas do setor e as indiretas do desmatamento. Somente a pecuária, incluindo a conversão de vegetação nativa para pasto, emitiu 721 milhões de toneladas de CO2 equivalente em 2025. Se fosse um país, o boi brasileiro seria o 11o maior emissor do planeta, à frente da Austrália.
Meta climática mais próxima
Os números de 2025 fizeram o Brasil ficar a 85 milhões de toneladas (6%) de cumprir a meta climática estabelecida para 2025. Na sua primeira NDC, estabelecida em 2015 e revisada em 2023, o país se comprometeu a limitar suas emissões líquidas de gases de efeito estufa a 1,32 bilhão de toneladas de CO2 equivalente. Não fosse a disparada do desmatamento entre 2019 e 2022, a meta provavelmente teria sido cumprida e até mesmo ultrapassada em 2025.
A meta provavelmente será alcançada e superada em 2026, ano de queda recorde de desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Cálculos preliminares do Seeg indicam que, neste ano, a emissão líquida do setor foi negativa pela primeira vez, atingindo -24 milhões de toneladas de CO2 equivalente. A soma dos outros setores, considerando uma tendência linear dos últimos cinco anos, seria de 1,25 GtCO2e, o que levaria a emissão total no ano a 1,23 GtCO2e. O Brasil praticamente cumpriria em 2026 a meta de 2030, que é de 1,20 GtCO2e.
A queda no desmatamento também torna as emissões per capita do Brasil mais parecidas com a média mundial, de 6,3 toneladas por ano. Os brasileiros emitiram 9,6 toneladas brutas por pessoa em 2025. Excluído o desmatamento, a média do país seria 5,8 toneladas per capita.

Diesel puxa alta na energia
No setor de energia, a alta de 1,2% nas emissões em 2025 foi causada sobretudo pelo aumento do consumo de diesel no setor de transportes. “As emissões dos transportes seguem batendo recorde histórico. Tudo que importa no setor aumentou”, afirma Ingrid Graces, do Iema, organização responsável pelo cálculo das emissões de energia e processos industriais no Seeg.
O consumo de diesel de petróleo cresceu 3% em 2025, e o de gasolina A (sem mistura com etanol), em 4%, e o de gasolina C também 4%. O álcool também teve 4% de aumento no consumo, mas o crescimento total da frota compensou a elevação no biocombustível. No total, o setor de transportes, principal usuário de combustíveis fósseis, no Brasil, emitiu 228 MtCO2e, divididas quase meio a meio entre transporte de carga (123 MtCO2e) e de passageiros (105 MtCO2e). Este havia caído no ano passado e voltou a subir – o Seeg ainda não mostra em 2025 o impacto do forte aumento da venda de carros elétricos no país desde o ano passado.
Na geração de eletricidade, houve um aumento de 6% nas emissões de 2025 em relação a 2024. Pela primeira vez, a geração solar ultrapassou o conjunto das fontes fósseis, mas isso não impediu o acionamento de termelétricas a gás. Ao mesmo tempo, em alguns momentos do ano, parte da geração solar e eólica precisou ser cortada por excesso de oferta ou por limitações de transmissão e segurança operacional do Sistema Interligado Nacional.
O chamado curtailment evidencia os desafios de integrar a crescente participação dessas fontes: pode haver excedentes renováveis em determinados horários e regiões e necessidade de geração fóssil em outros. “Quando olhamos para essa matriz brasileira e suas emissões, três características nos saltam aos olhos por serem tanto oportunidades quanto desafios: garantir que o sistema elétrico nacional esteja preparado para utilizar ainda mais as fontes variáveis de energia, eólica e solar; expandir a frota de veículos elétricos sem deixar de atrair passageiros para o transporte coletivo; e utilizar biocombustíveis de forma estratégica para diminuir nossa dependência de diesel fóssil e gasolina automotiva, que, inclusive, precisam ser, em parte, importados”, afirma Felipe Barcellos e Silva, do Iema.
Redução de emissões em todos os biomas
Em 2025, as ações de comando e controle do governo produziram reduções do desmatamento e da conversão de vegetação nativa em todos os biomas. Como resultado, as emissões por mudança de uso da terra caíram 20% na Amazônia, 5% no Cerrado e na Mata Atlântica, 21% no Pampa, 18% na Caatinga e 45% no Pantanal. Juntas, as emissões da Amazônia e do Cerrado responderam por 63% de todo o carbono lançado na atmosfera pela destruição dos nossos biomas.
A maior queda foi na emissão líquida: em 2022, último ano do governo Bolsonaro, ela era de 859 MtCO2e, e passou a 162 MtCO2e no ano passado – 81% de redução. As emissões brutas caíram 46%, de 1,505 GtCO2e em 2022 para 814 GtCO2e no ano passado. Até mesmo nos estados do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), a principal fronteira agrícola do país, no Cerrado, o desmatamento e as emissões caíram. “A redução das emissões observada nos últimos três anos no setor de mudança do uso da terra reflete os resultados positivos das políticas de controle do desmatamento no Brasil. Essa é a principal mudança recente no perfil de emissões do país e a que mais contribui, atualmente, para o cumprimento das metas estabelecidas em sua NDC”, afirmou Bárbara Zimbres, pesquisadora do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), organização responsável pelos dados de uso da terra do Seeg.
Ela também nota que, em 2025, um ano sem El Niño, as emissões por queimadas não relacionadas ao desmatamento (que o Seeg calcula e reporta em separado, porque não fazem parte da metodologia do Inventário Nacional de Emissões) tiveram uma queda importante em relação ao recorde de 2024. “No ano retrasado elas praticamente dobravam a emissão líquida; em 2025 o fogo representou apenas 42% dela.”

Menos emissões, mais carne
As emissões brutas da agropecuária brasileira somaram 626,3 MtCO₂e em 2025, praticamente estáveis em relação aos 626,7 milhões registrados em 2024. A redução de 0,1% entre 2024 e 2025 foi a menor variação anual desde 1970. Isso ocorreu devido ao aumento das emissões da atividade agrícola e à redução das emissões da pecuária. Enquanto as emissões da pecuária recuaram 1,68%, totalizando 494,1 MtCO₂e, as da agricultura cresceram 6,45%, alcançando 132,1 MtCO₂e. A fermentação entérica (o “arroto” do boi) emitiu 396,8 MtCO₂e, queda de 1,8% em relação ao ano de 2024 (404,1 MtCO₂e).
Já o subsetor de solos manejados, resultante das emissões do manejo dos solos agrícolas, uso de fertilizantes nitrogenados, calagem, uso dos dejetos animais e decomposição dos resíduos agrícolas, emitiu 188,6 MtCO₂e, um aumento de 3% em relação a 2024 (183,2 MtCO₂e).
A fonte mais emissora continua sendo o gado de corte, com emissão de 410,7 MtCO₂e, cerca de 65,6% das emissões do setor. A redução dessa fonte resultou do recorde de abate de bovinos e de produção de carcaças, com 42,94 milhões de animais abatidos e produção de 11,1 milhões de toneladas, aumento de 8,2% e 7,2%, respectivamente.
Com o maior abate, o rebanho bovino teve o seu segundo ano consecutivo de queda, totalizando 234,2 milhões de animais, cerca de 1,7% menor. “A redução das emissões da pecuária foi compensada pelo aumento das emissões da agricultura, acompanhadas pela maior produção do setor. Isso demonstra como é possível conciliar cada vez mais a redução das emissões com maior produção e produtividade. É uma oportunidade que o setor possui de continuar o aumento da produção baseado em uma melhor eficiência e sem desmatamento, contribuindo com a redução das emissões”, afirma Gabriel Quintana, coordenador de Ciência do Clima do Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola), organização responsável pelo cálculo das emissões da agropecuária no SEEG.
Setor de resíduos com maior aumento
O setor de resíduos responde por menos de 5% das emissões nacionais, mas é o que tem aumentado mais as emissões proporcionalmente na série histórica do Seeg. Isso se deve ao fato de as emissões desse setor serem muito intimamente relacionadas ao aumento da população. Em 2025, o setor foi responsável pela emissão de 95,7 MtCO2e, o que representou um aumento de 3,6% em relação ao ano anterior.
O encaminhamento de resíduos sólidos para aterros sanitários, aterros controlados e lixões é o principal responsável pelas emissões (65% do total), seguido pelo tratamento de efluentes domésticos (26%). “Observamos que historicamente tivemos avanços relevantes, como o aumento da quantidade de resíduos que são encaminhados para aterros sanitários (atualmente estamos com cerca de 75% de disposição final ambientalmente adequada) e também uma diminuição na quantidade de lixões, mas ainda temos muito que avançar”. disse a engenheira ambiental Iris Coluna, do ICLEI, organização que calcula as emissões do setor no Seeg.
A reciclagem continua sendo um desafio. “Em 2025, somente 88 municípios reportaram suas unidades de compostagem e menos de 3% dos resíduos brasileiros foram recuperados por meio de reciclagem. Enquanto continuarmos gerando grandes quantidade de resíduos e termos baixas taxas de valorização, as emissões no setor seguirão crescendo”, alertou a pesquisadora.
Apoie o #Colabora!
Faça parte da campanha “10 anos, 101 apoiadores” e ajude a fortalecer nosso jornalismo independente e de qualidade. Com apenas R$ 20 por mês (menos de R$ 0,70 por dia), você já contribui para manter histórias e reportagens que fazem a diferença, como esta.











Comentários