Durante os anos mais sombrios da ditadura militar, o Jornal do Brasil ficou célebre por estampar boletins meteorológicos que não correspondiam às condições climáticas em sua primeira página, anunciando “tempo sufocante” ou “tempestades com ventos do Sul” como um código sutil para avisar aos leitores que o país vivia sob a tesoura da censura prévia.
Meio século depois, as nuvens voltam a se formar sobre o horizonte democrático, mas a tempestade atual mudou de natureza: a asfixia ao jornalismo hoje não vem de censores fardados ocupando as redações, mas da ação coordenada do bolsonarismo em aliança com a arquitetura algorítmica das big techs. Trata-se de uma ameaça dupla e sem precedentes, onde o cultivo da hostilidade política se cruza com o poder das plataformas digitais para degradar o debate público e estrangular o jornalismo.
O recurso a metáforas e subterfúgios para contornar o arbítrio é uma marca secular da imprensa livre diante do autoritarismo. No período entreguerras, durante a República de Weimar, na Alemanha, a influente revista alemã Die Weltbühne, editada pelo jornalista Carl von Ossietzky, utilizava parábolas históricas, fábulas e alusões à Roma Antiga ou à Idade Média para criticar a escalada do militarismo e do nazismo sem ser sumariamente apreendida, recorrendo a uma estratégia conhecida como a “linguagem de Esopo”, grego a quem se atribui a paternidade da fábula como gênero literário.
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Preso em 1933 pelo regime de Hitler e enviado a um campo de concentração, Carl von Ossietzky foi contemplado com o prêmio Nobel da Paz em 1935, mas nunca pode recebê-lo em função de seu passaporte ter sido negado. Apesar de a Constituição de Weimar ter assegurado a liberdade de expressão, decretos de emergência permitiam que o governo e o Judiciário apreendessem edições de jornais e revistas sob a alegação de “revelação de segredos militares”, expondo as brechas que facilitaram o cerco à imprensa nos anos 1930 até a tomada total do poder pelos nazistas em 1933.
Note-se que os dois episódios de censura aqui lembrados são do século XX, quando a liberdade de imprensa já estava assegurada por leis há mais de duzentos anos. Na Inglaterra, o grande marco da liberdade de expressão foi o Parlamento ter deixado caducar, em 1695, o Licensing Act — a lei que exigia autorização prévia da Coroa para imprimir qualquer publicação. O resultado foi uma febre editorial que deu origem ao Daily Courant, primeiro jornal diário britânico, e ao The Times.
Do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos incluíram essa segurança jurídica à imprensa ao aprovarem, em 1791, a Primeira Emenda à Constituição, que veta ao Congresso o direito de fazer leis cerceando a liberdade de palavra ou de imprensa. Essa blindagem serviu de combustível para a revolução da penny press na década de 1830, simbolizada pelos jornais vendidos ao preço de um centavo. Em dez anos, os jornais diários americanos saltaram de 65 para 138, caindo no gosto popular ao incorporar a cobertura do cotidiano para além da política e da economia e inaugurando o jornalismo de informação, que até hoje serve como paradigma para a imprensa.
O contexto brasileiro
No Brasil, a liberdade de imprensa sofreu reveses desde 1808. Com a chegada da Família Real e a criação da Impressão Régia, as tipografias foram liberadas, mas sob o crivo prévio da Mesa do Desembargo do Paço — onde censores cortavam trechos por razões caricatas, proibindo até menções à palavra “revolução” em livros de astronomia que tratavam do movimento dos planetas.
Embora a Constituição Imperial de 1824 tenha consagrado que “todos podem comunicar os seus pensamentos por palavras, escriptos, e publicá-los pela Imprensa, sem dependencia de censura”, e a Constituição Republicana de 1891 tenha reafirmado que “nenhuma lei poderá estabelecer cerceamento à liberdade de imprensa”, na prática a imprensa viveu períodos de incertezas e a segurança jurídica ficou restrita ao papel.
Nos anos 1930, Getúlio Vargas institucionalizou a repressão com o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), que ocupava redações para ditar manchetes. O ápice desse estrangulamento ocorreu na ditadura, sob o AI-5, e a Lei de Imprensa de 1967, quando os censores também ocuparam as redações.
A virada definitiva parecia ter sido selada com a Constituição de 1988, que vedou “toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística”. No entanto, o entulho autoritário provou ser resistente. Mesmo após a promulgação da Carta Cidadã, a famigerada Lei de Imprensa de 1967 continuou sendo aplicada por juízes de primeira instância por mais duas décadas para fundamentar decisões que censuravam e puniam jornais. Esse anacronismo só foi superado em abril de 2009, quando o Supremo Tribunal Federal declarou que a Lei de Imprensa era totalmente incompatível com a ordem democrática.
As leis que garantem a liberdade de imprensa, entretanto, não bastam para assegurar o livre exercício do jornalismo na contemporaneidade. A vitalidade de uma democracia depende de um espaço público alimentado por informações verificadas e pelo contraditório. Como aponta Dominique Wolton em Informar não é comunicar, o jornalismo cumpre o seu papel de contrapoder em duas frentes indissociáveis: ao resistir às pressões e aos desmandos do poder e ao recusar a submissão passiva ao gosto do público.
No entanto, nem sempre tais preceitos foram observados. Defender o jornalismo não nos impede de olhar com honestidade para as contradições da própria imprensa. Ao longo das últimas décadas, a mídia hegemônica acumulou graves desvios no exercício dessa liberdade: apoiou o golpe civil-militar de 1964, minimizou a força popular do movimento pelas Diretas Já, manipulou abertamente a edição do debate presidencial de 1989 para favorecer Fernando Collor e, em passado recente, atuou acriticamente como papagaio de fontes jurídicas parciais e questionáveis durante a Operação Lava Jato.
O método do bolsonarismo
Longe de apagar os deslizes do passado, a defesa do jornalismo hoje responde à necessidade premente de blindar a verdade factual. A artilharia da extrema-direita não ataca os veículos para torná-los mais éticos, mas para inviabilizar o escrutínio dos fatos e legitimar a mentira sistemática. A ameaça contemporânea do bolsonarismo e das big techs já não precisa de censores fardados nas redações. Ela aposta na hostilização sistemática e no sufocamento algorítmico para destruir a livre circulação de ideias. Ela se assenta na descredibilização sistemática da imprensa promovida pelo bolsonarismo e no método de hostilizar e intimidar repórteres que fazem perguntas incômodas.
Os números provam o impacto devastador dessa estratégia: relatório da Federação Nacional dos Jornalistas revela que o Brasil bateu recordes de violência contra comunicadores durante a gestão de Jair Bolsonaro, contabilizando 1.442 agressões a jornalistas e ataques à imprensa nos quatro anos de mandato, com o próprio ex-presidente sendo o agressor verbal direto em boa parte dos episódios.
A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) registrou 557 violações à liberdade de imprensa só no ano eleitoral de 2022, mostrando que mais de 40% dos ataques partiram da família Bolsonaro ou do discurso de seus aliados. O próprio senador Flávio Bolsonaro coleciona episódios de hostilidade, ironias, xingamentos e exposição de profissionais nas redes sociais para insuflar o linchamento digital.
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Veja o que já enviamosEssa engrenagem de ataque ganha tração porque encontra respaldo nas big techs. Enquanto um veículo de imprensa responde perante a Justiça pelos seus erros, as multinacionais de tecnologia operam sob um regime de quase total irresponsabilidade pelos conteúdos nocivos que impulsionam e monetizam — chegando a descumprir ordens e a sofrer sucessivas multas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por impulsionamento ilícito de propaganda eleitoral e disseminação de desinformação. Essa falta de equanimidade favorece abertamente a extrema-direita.
A Ctrl+Z, organização que tem por objetivo investigar e expor abusos e mover ações judiciais contra as big techs, mapeou a bancada que defendeu os interesses das plataformas na última legislatura, revelando que é composta majoritariamente por parlamentares do PL e do Novo.
A colunista Monica Bergamo, da Folha de S.Paulo, revelou que a Meta AI (a inteligência artificial da Meta disponível no WhatsApp) estava criando cartazes e materiais de propaganda eleitoral para o senador Flávio Bolsonaro (PL), enquanto se recusava a gerar conteúdos semelhantes para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Mesmo após ser questionada e emitir uma nota afirmando que havia proibido a geração de imagens de candidatos, a IA continuou oferecendo alternativas para burlar o próprio sistema no caso de Flávio. Além da falta de isonomia, a ação fere a legislação eleitoral vigente no país. A resolução 23.755/2026 do Tribunal Superior Eleitoral proíbe “emitir opiniões, indicar preferência eleitoral, recomendar voto ou realizar qualquer forma de favorecimento ou desfavorecimento político-eleitoral, de maneira direta ou indireta, inclusive por meio de respostas automatizadas”.

Radicalismo dos algoritmos
O ecossistema algorítmico turbina o radicalismo de direita, ao estimular sentimentos de ódio e paixão, que garantem um maior engajamento. Como examinam Tiago Negrão Andrade e Maria Cristina Gobbi no artigo Algoritmos do ódio: radicalização política, afetos digitais e a nova propaganda eleitoral, as campanhas extremistas utilizam a microsegmentação algorítmica para transformar a política em um dispositivo de captura emocional, substituindo o debate democrático por dinâmicas de engajamento baseadas no ódio e no ressentimento.
À mesma conclusão chegaram Jonas Ferreira de Castro Neto e Guilherme Defina no artigo Radicalização da extrema-direita na era dos dados, dos algoritmos e das plataformas digitais (2026): a plataformização da vida social criou as condições estruturais ideais para a mobilização afetiva e a normalização do extremismo, conceituado como ‘fascismo digital’. Os autores ressaltam que a proliferação do radicalismo é uma consequência direta do próprio modelo de negócios das redes. Organizadas em torno da economia da atenção, elas dependem da retenção constante dos usuários para monetizar dados e anúncios, priorizando algoritmicamente conteúdos que despertam raiva, indignação e conflito para gerar engajamento.
Assim, o extremismo torna-se o combustível mais lucrativo da arquitetura digital. Um estudo da organização Sleeping Giants Brasil sobre o alcance de vídeos no Instagram identificou um desempenho anormal nos materiais do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), cuja mediana de visualizações atingiu 166% do total de seus seguidores, com vídeos alcançando até 33 vezes mais engajamento do que o desempenho médio de grandes perfis mundiais com o mesmo porte de audiência.
Trata-se de uma simbiose explícita: o PL atua como blindagem parlamentar dos interesses bilionários das big techs, enquanto as corporações garantem a infraestrutura algorítmica opaca que privilegia a extrema-direita e degrada o debate público.
O alcance desse poder de pressão ficou claro no episódio em que o Google utilizou a própria página inicial do seu buscador para veicular um link opinativo atacando o PL das fake news (2630), usando seu monopólio para coagir o Legislativo e manipular a opinião pública. Ao cruzar a incitação ao ódio contra jornalistas com a blindagem parlamentar às big techs, o bolsonarismo promove um tipo de sufocamento que a Constituição de 1988 buscou erradicar.
Não há equanimidade democrática quando quem investiga e apura fatos é submetido à intimidação e a regras jurídicas rígidas, enquanto corporações e grupos políticos operam sem responsabilização nas redes.
Se o Brasil do século XX aprendeu a ler as previsões de “tempo ruim” nas capas dos jornais para resistir à ditadura, o desafio urgente do presente é decodificar as novas tempestades que vêm das telas e da extrema-direita. Blindar o jornalismo e enquadrar a arquitetura predatória das plataformas digitais não é apenas uma pauta corporativa da imprensa: é uma condição de sobrevivência para a própria democracia.
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