Acho chique viramos cópia?

Entre trends e inteligência artificial, algoritmos transformam política em estética e tiro pode sair pela culatra da democracia

Por Júlia Pessôa | ODS 12

Publicado em 22/09/2026 - 09h03 (Atualizado há 3 minutos)

Tempo de leitura: 7 min

Qualquer pessoa que tenha passado tempo demais na internet nas últimas semanas provavelmente já se encheu com a profusão de corta-ventos florescentes e cabelos volumosos, perguntando à IA “como eu seria nos anos 80”.(Detalhe: a maioria esmagadora, pelo menos nos meus contatos, sabia exatamente como seria nos anos 80 porque ESTAVA LÁ!). Algum tempo atrás, a overdose foi do bendito “acho chique”. Acho chique ler, acho chique tomar café sozinha, acho chique ir embora cedo, acho chique ir embora no fim, acho chique não responder mensagem, acho chique responder mensagem. Estamos mobilizando uma das tecnologias mais sofisticadas da história para descobrir como seríamos numa época em que já éramos.

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Não acho que o problema em si seja quem faz a trend, até porque trends são também socialização, pertencimento, aquela bobagem coletiva que sempre existiu e agora acontece em escala industrial. O que me interessa é outra coisa que tenho reparado: os algoritmos estão homogeneizando a linguagem e transformando nossa expressão em meme. Descrever quem a gente é por meio de uma trend como “acho chique” funciona porque é uma categoria reconhecível, fácil de reproduzir e, sobretudo, fácil para as plataformas distribuírem. Em vez de descrevermos quem somos, passamos a escolher entre formatos disponíveis para dizer e ilustrar quem somos ou poderíamos ser. O problema de uma linguagem fácil e reproduzível é que todo mundo pode entrar na dança.

Algoritmos transformam política em estética com trends e inteligência artificial (Ilustração: Júlia Pessôa com IA)
Algoritmos transformam política em estética com trends e inteligência artificial (Ilustração: Júlia Pessôa com IA)

As “tradwives”, aquelas mulheres que performam um ideal de “esposa tradicional”, são um bom exemplo de como isso pode deixar de ser apenas irritante e ficar politicamente preocupante. Não há nada de reacionário em fazer pão, querer ficar em casa, cuidar dos filhos ou usar vestido floral. O problema é quando relações profundamente políticas passam a ser apenas estéticas. É resumir dependência financeira, submissão feminina, “lugar de mulher é na cozinha” e outros conservadorismos a uma luz bonita, cozinha impecável, crianças penteadas e uma massa crescendo ao fundo. Não existe uma linha reta que vá do pão artesanal ao fascismo, evidentemente, mas existe algo importante na capacidade das plataformas de transformar ideologia em lifestyle.

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Porque, se tudo pode virar estética, também coisas perigosíssimas podem ficar bonitas. É nesse sentido que o “se tudo é chique, nada é chique” deixa de ser só uma piada. Autoritarismo, misoginia e até fascismo podem circular menos como conjuntos de ideias com história e consequências e mais como identidade, nostalgia, humor, pertencimento. Não porque uma trend vá transformar alguém em fascista, mas porque a estetização vazia retira das ideias parte do conflito que permitiria reconhecê-las como políticas e banalizar tudo como “brincadeira de internet”.

E isso me parece especialmente perigoso num ano eleitoral como 2026, porque o terror de 2018 ainda está fresco demais na nossa memória. Não faz nem uma década que vimos Jair Bolsonaro chegar à Presidência numa eleição em que as redes sociais tiveram um papel decisivo na circulação de desinformação, ataques a adversários e conteúdos feitos para mobilizar medo, raiva e pertencimento. Por isso, quando a campanha do filho de Bolsonaro chega às plataformas, não estamos falando só de memes.

Enquanto descobrimos cada vez mais detalhes da relação com Daniel Vorcaro e a família Bolsonaro em um esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e o escambau, Flávio deu o pontapé inicial de sua campanha com um vídeo produzido por inteligência artificial em que ele aparece musculoso, de sunga branca e faixa presidencial, num cenário inspirado em GTA VI, “brincando” que a IA o teria “prejudicado”. Pode parecer só uma idiotice de internet, mas quando política, desinformação, “humor”, masculinidade, e inteligência artificial passam a circular na mesma embalagem, fica cada vez mais difícil perceber onde termina a piada e começa um projeto de poder. E a ideia deles é justamente essa. Já vimos o que deu essa brincadeira – de muito mau gosto, por sinal – em 2018. Estamos pagando por isso até hoje; 700 mil pagaram com as próprias vidas.

Por isso é que eu acho muito pouco chique essas patacoadas como “acho chique”. Não a expressão, ou a trend por si só, mas a transformação de quase tudo em categoria reproduzível e vendável: nossas roupas, nossas relações, nossas identidades, nossos afetos e, cada vez mais, nossas ideias políticas. Eu continuo achando chique um monte de coisas, inclusive as mais absolutas besteiras. Mas estou começando a achar chiquérrimo aquilo que dá um pouco mais de trabalho para o algoritmo: uma pessoa contraditória, uma opinião com ressalva, uma ideia que não cabe num template.

Quanto aos anos 80, eu particularmente economizei alguns bons litros de água. Tenho muitas fotos de marias-chiquinhas para me mostrar como eu era.

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Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

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