Toda menina merece um vestido novo

Meninas de Moçambique com vestidos do Dress a Girl: ONG de voluntárias confecciona roupas para crianças pobres ao redor do mundo (Foto: Dress a Girl / Divulgação)
Meninas de Moçambique com vestidos do Dress a Girl: ONG de voluntárias confecciona roupas para crianças pobres ao redor do mundo (Foto: Dress a Girl / Divulgação)
Meninas de Moçambique com vestidos do Dress a Girl: ONG de voluntárias confecciona roupas para crianças pobres ao redor do mundo (Foto: Dress a Girl / Divulgação)

ONG Dress a Girl veste de dignidade infâncias marcadas pela extrema pobreza ao redor do mundo; no Brasil, são mais de 20 mil peças doadas

Por Caroline Moura | ODS 1ODS 10

Publicado em 24/09/2026 - 09h27 (Atualizado há 23 minutos)

Tempo de leitura: 23 min

Propósito não tem idade, não exige reconhecimento e nem recompensa. Nas tardes da 2ª segunda-feira de cada mês, uma missão reúne senhoras do Rio de Janeiro em meio a tecidos, máquinas de costura, cheiro de café e um amor inexplicável por meninas que elas nem sequer viram. A Organização Não-Governamental Dress a Girl Around the World se dedica a produzir vestidos para pequenas garotas em situação de vulnerabilidade ao redor do mundo. A doação da roupa nova vai muito além do valor material, as voluntárias vestem essas crianças de proteção e dignidade. “Porque toda menina merece um vestido novo!”, afirma Lucinesia Mendonça, líder do Dress RJ, uma das mulheres que encontraram propósito no amor ao próximo.

Apesar da ONG ser laica, a iniciativa começou ao final de um encontro religioso cristão quando Marcele Coimbra, fundadora do projeto no Brasil, decidiu, empolgada, mostrar aos amigos o vestidinho que havia recebido. Era uma roupa infantil simples, mas o que a tornava especial era o caminho que percorreu até chegar às suas mãos e o propósito. “Esse vestido veio da China”, contou. Essa era uma roupa da ONG fabricada a mão por voluntárias chinesas para ser doada ao Brasil. Nesse momento, o Dress a Girl, fundado em 2006 nos Estados Unidos, por Rachel Eggum, havia chegado em seu 88° país.

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A notícia se espalhou, e, desde então, esse grupo, mais as amigas, os vizinhos e todos os que abraçaram a causa começaram a costurar vestidos novos para meninas carentes ao redor do mundo. “As pessoas tinham essa disposição”, comenta a atual líder, que já estava presente naquela primeira reunião no Brasil, no dia 10 de dezembro de 2016 – são 10 anos desde o primeiro vestido.

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Nem todas que aceitaram a missão sabiam costurar. Lucinesia conta que, no começo, uma professora de costura frequentava o grupo para ensiná-las. Até então, falta de habilidade nunca foi impedimento para que o projeto funcionasse, explicou a líder ao contar o caso da participante Rita. “Não sabia dar um ponto, mas gostou da essência do projeto: dar dignidade a uma criança que está em uma área que não tem recurso e os pais são tão carentes como ela”.

Crianças em situação de vulnerabilidade muitas vezes não têm direito ao novo. Recebem roupas e brinquedos de doação, que tiveram outros donos até chegarem a elas. “A criança carente não tem a alegria de ganhar de Natal ou de aniversário”, diz Lucinesia. A ONG busca mostrar a garotas com uma infância acostumada com o velho que elas são dignas do novo e do que é feito especialmente para elas.

Já está provado que essa etiqueta que vem no vestido protege as crianças

Lucinesia Mendonça
Voluntária e líder do Dress a Girl RJ

A produção começou a todo vapor com os encontros que passaram a ser recorrentes. Em janeiro de 2017, as tardes de costuras se iniciaram na casa de Marcele, na Barra da Tijuca. A antiga líder do projeto propôs uma meta ambiciosa: 100 vestidos até março. “Nós ficamos doidas, porque a gente não sabia nem fazer uma faixa”, lembra Lucinesia.

Mas dito e feito, as roupas foram confeccionadas e a distribuição começou em Mossoró, no Rio Grande do Norte. “Aí fomos para o Norte, para o Sul, para o Nordeste”, conta Lucinesia. Só no primeiro ano do projeto, foram confeccionados 1204 vestidos. A ONG já entregou roupas para crianças carentes em Guajirú (CE), Pixoré (RN), Queimados (RJ), em orfanatos, e em sete populações ribeirinhas da Amazônia.

O braço do Dress a Girl no Rio abraçou o próprio país. Isso porque, segundo dados do IBGE de 2024, no Brasil, 40,8% das crianças com até 12 anos vivem em situação de pobreza, o que equivale a 15,4 milhões. O recorte considera famílias com renda per capita de até meio salário mínimo, insuficiente para garantir acesso à saúde, alimentação, educação e moradia, quanto mais à vestimenta. Em parceria com instituições que cuidam de outras necessidades básicas dessas crianças, o Dress a Girl já entregou 20.500 peças somente pelo Brasil.

A voluntária Maria Luiza na costura: Fiquei apaixonada pelo projeto. É um orgulho participar" (Foto: Caroline Moura)
A voluntária Maria Luiza na costura: Fiquei apaixonada pelo projeto. É um orgulho participar” (Foto: Caroline Moura)

Do Rio de Janeiro para o resto do Brasil

O projeto já levou vestidos para todos os estados. Deu suporte às vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina e também levou doações, através de igrejas de denominação evantélica, em locais mais carentes do Piauí, da Bahia e de Pernambuco. “Muitas instituições que cuidam de crianças carentes fazem solicitação de peças”, explica a atual líder. “Já aconteceu da Marcele ligar dizendo que precisa de tantos vestidos para não sei quando e a gente trabalhar até de madrugada para fazer.”, conta a voluntária Sandra Fernandes.

O Jardim Gramacho, bairro de Duque de Caxias, foi local de forte atuação da ONG: conhecido por ter abrigado o maior lixão da América Latina, cenário de extrema pobreza no Rio de Janeiro, o aterro sanitário de Gramacho foi área de trabalho de catadores e até mesmo parquinho para crianças que tiveram que crescer em meio ao lixo. A voluntária Iraneide Monteiro esteve na primeira ida do Dress a Girl à comunidade. “Foi muito gratificante! Aquilo parecia uma festa. Foi uma experiência espetacular”. Elas presenciaram meninas acostumadas com coisas velhas e rejeitadas finalmente receberem algo novo. “Você sente que está fazendo alguma coisa que aquelas crianças nunca viram. E quando a gente colocava os vestidinhos nelas, elas ficavam maravilhadas.”

A voluntária Sandra Fernandes também conta o mesmo sobre a reação das crianças de Jardim Gramacho. “A felicidade daquela criança foi enorme, parece que ela nem acreditava. Falavam assim: ‘É meu? Posso levar para casa?’” A organização também realiza distribuição em outros locais do Rio, como o Centro de Refugiados da América do Sul, em Botafogo. “Teve creche que nós entregamos ali em Jacarepaguá”, conta Lígia Baiense, membra da ONG.

Iraneide, Maria Luiza, Roberta, Azimar, Lucinesia e Lígia, voluntárias do Dress a Gril: trabalho com propósito (Foto: Caroline Moura)
Iraneide, Maria Luiza, Roberta, Azimar, Lucinesia e Lígia, voluntárias do Dress a Gril: trabalho com propósito (Foto: Caroline Moura)

Além do território brasileiro, das mãos dessas senhoras saíram presentes para meninas ao redor do mundo. “O mesmo sorriso que a gente vê nas crianças da África, a gente vê nas crianças de Jardim Gramacho”. O Dress a Girl já encheu malas de vestidos e bonecas com destino a Moçambique, Congo e Burundi, países do continente africano.

Uma das missionárias que carregou esses presentes foi Hemelly Rios, publicitária, de 22 anos. Ela foi informada do projeto quando já estava com a viagem agendada junto à Igreja Batista Atitude. “Fui comunicada de que tinha roupa para levar de doação e fui procurar saber quem fazia e eram essas senhoras.” Hemelly conta como foi o momento de entregar os presentes para as crianças em Moçambique. “Só conseguia pensar que conhecia as mãos que estavam fazendo e o quão longe elas tinham chegado, mesmo sem sair do lugar”, relata. A missionária gravava a reação das crianças para mandar às voluntárias do Rio de Janeiro e animá-la. “O esforço valeu a pena, foi cumprida a missão de vocês”.

As meninas e os meninos de Moçambique receberam do Dress a Girl vestidos, bermudas e bonecas costuradas. “As crianças gostaram muito, ficaram muito felizes, principalmente porque é tudo muito colorido e chama a atenção”, acrescenta Hemelly. Segundo ela, a entrega de brinquedos de verdade dignifica uma infância marcada pela pobreza extrema. “Muitas brincam com garrafas, lixo, pedaços de madeira, então a boneca chegando foi algo que pôde dar muito mais espaço à imaginação delas. Brinquedos são educativos.”.

Ao chegar em um desses lugares, é fácil reconhecer a criança vestida pelo projeto Dress a Girl. Isso porque, independentemente de onde são produzidos, todos os vestidos da ONG tem o mesmo modelo e contam com uma etiqueta com o nome da organização. “É do padrão e da essência do projeto, vem lá dos Estados Unidos”, relata Lucinesia. A padronização das roupas mundialmente tem propósito, pois garante, além de dignidade, segurança contra a violência infantil. “Já está provado que essa etiqueta que vem no vestido protege as crianças”, diz Lucinesia.

A voluntária Iraneide costura vestido para o Dress a Girl: "Você sente que está fazendo alguma coisa que aquelas crianças nunca viram" (Foto: Caroline Moura)
A voluntária Iraneide costura vestido para o Dress a Girl: “Você sente que está fazendo alguma coisa que aquelas crianças nunca viram” (Foto: Caroline Moura)

Roupas para meninas e meninos

Foi na África, um local muito marcado pelo abuso contra crianças carentes, muitas vezes sem denúncia, que começaram a perceber o efeito dessas etiquetas. O poder de proteção vem do fato de as pessoas reconhecerem que essas meninas são assistidas. “A criança que eles viam que a roupa tinha etiqueta, eles sabiam que alguma fundação cuidava delas, e não abusavam dessas crianças”, explica a voluntária Sandra Fernandes, que fez parte da inauguração do Dress RJ. “O lugar onde tem a instituição fica marcado como aquele lugar que quer o bem das crianças.”

O vestido Dress a Girl é costurado no mesmo formato desde o início. O padrão têm a forma quadrada, com bolsos na frente, sem golas e com uma faixa regulável para amarrar na altura do pescoço. A explicação: “Ele era feito de fronha ou de camisas. Então, quanto mais reto fosse, mais prático. Porque o objetivo era gastar menos e fazer o mais popular possível”, conta a atual líder. Dessa forma, os vestidos são mais fáceis de serem produzidos, não exigem tanta habilidade nem alto custo, já que o material vem de doações. Além disso, a padronização confere identidade de resgatadas e acolhidas às crianças presenteadas.

Esse projeto desperta em nós um coração doador

Maria Luiza Rodrigues
Voluntária do Dress a Girl

Hoje, a organização não veste apenas meninas. “Quando a ONG chegava nos lugares as meninas ganhavam vestidinho e os meninos nada”, lembra Lucinesia. A produção de bermudas começou em Portugal e agora o Dress RJ também confecciona bermudas para presentear os meninos em situação de vulnerabilidade.

Como o tecido para costurar shorts é diferente, e a ONG teve mais dificuldade para consegui-lo, a voluntária Maria Luiza Rodrigues pensou: “Meu Deus, como a gente vai fazer?”. Mas de repente em meio a incerteza o telefone tocou: Era uma amiga que tinha uma fábrica e falou: “Estou com umas doações aqui e não sei o que fazer”. Eu disse: ‘Eu sei o que fazer!’. Eram 300 shorts!”.

Com isso, o Dress produziu e distribuiu milhares de bermudas. “A gente pede a Deus, deixa o tempo passar e vai acontecendo. Tinha azul, tinha branco, eram várias cores. Essa surpresa é o que faz a gente ter esperança e ver como Deus vê nossa necessidade”, declara Maria Luiza. Alzimara Lima é a voluntária que costura as bermudinhas mais elogiadas pelo grupo. “A palavra é milagre”, diz com modéstia. É com histórias assim que o projeto consegue as doações de materiais.

“Nesse projeto tudo é doado, tecido, linha, enfeite”, afirma Ligia. Graças à oferta de materiais cada peça é produzida e chega a esses meninos e meninas carentes. A líder Lucinesia explicou como a dinâmica funciona de doação à distribuição. O projeto está sempre aberto para receber doações de materiais. Para produção, geralmente, fundações, como orfanatos, abrigos e até mesmo outras ONGS, entram em contato e pedem roupas sem cobrarem quantidade. Assim, as voluntárias do Dress começam a costurar cada peça e, depois, vão pessoalmente distribuir ou enviam para que tal organização realize a entrega.

Lígia Bahiense com vestido feito pelas voluntárias: "Nesse projeto tudo é doado, tecido, linha, enfeite" (Foto: Caroline Moura)
Lígia Bahiense com vestido feito pelas voluntárias: “Nesse projeto tudo é doado, tecido, linha, enfeite” (Foto: Caroline Moura)

Mais dificuldades para doações

Em 15 de junho de 2023, o Dress a Girl RJ recebeu uma doação feita pelo I Simpósio de Logística Reversa de Fardamento, evento promovido pelas Forças Armadas Brasileiras para debater o destino sustentável de fardas que foram descartadas ainda com valor têxtil. A voluntária Lígia Baiense conta que foi para São Paulo junto com a embaixadora da ONG Ana Beatriz Barbirato: “Não pagamos nada, foi tudo doação deles”. No dia, elas apresentaram a ONG. “A gente mostrou a nossa produção e eles nem acreditaram, porque eu não tinha máquina de overlock.” E os tecidos dos uniformes da aeronáutica foram muito bem reaproveitados. “Nós fizemos muitas mochilinhas pras crianças de tecido camuflado. Ficou muito bonito”, diz a líder.

Sobre a situação das doações atualmente, Lucinesia afirmou: “Não está fácil não”. Mas as participantes do projeto estão sempre dispostas a ofertar o que podem. “Eu não tenho vergonha de pedir doação, mas às vezes quando eu vou na loja Caçula eu me empolgo e faço uma compra grande”. A doação interna nunca falta, até porque a entrega delas não é apenas financeira. “Minha doação é o meu tempo e a minha iniciativa, e tem dado certo”, diz.

Os encontros semanais em casas aconteciam toda segunda e a ONG chegou a reunir 40 pessoas para trabalharem nos vestidos, mas, em 2020, “a pandemia suspendeu isso”, lembra Alzimara Lima. Apesar do período difícil, o Dress permaneceu. O perigo sanitário e todo o caos mundial apenas revelou novas necessidades nos locais de maior vulnerabilidade social e a organização se adaptou a isso. “A gente fazia máscaras”, conta Ligia. Essa produção era enviada para locais desfavorecidos a fim de ajudar a população a se prevenir da Covid-19. “Eu não sou estilista, não sou modelista, mas a gente bolou uma máscara. E colocamos elástico para caber em todo mundo”.

Já teve gente que chegou lá pela primeira vez sem nunca ter pego numa máquina e saiu com um vestido pronto

Iraneide Monteiro
Voluntária do Dress a Girl

Maria Luiza Rodrigues testemunhou mais uma história impactante, dessa vez, sobre a provisão de recursos para confecção durante a epidemia. “Eu estava fazendo as máscaras, mas faltava elástico. E eu falava para Deus que não tinha como comprar, porque nenhum lugar tinha. De repente, o telefone toca e uma amiga liga pra mim: ‘Você tá naquele projeto?’ Eu digo que estou sim. ‘É que eu quero doar algumas coisas, fechei minha loja e eu quero dar alguns tecidos’. Perguntei ‘Você tem elástico?’. Aí ela: “menina, tenho um montão, se quiser pegar, pega. E pega os tecidos também”.

Maria Luiza tem até hoje tecidos dados pela amiga. “Eu e Lucinesia fomos lá buscar no Engenho de Dentro e trouxemos o carro lotado. Aí que entra Deus, Ele faz esse mover pelas pessoas! Porque eu não liguei para ela perguntando, só falei para Deus que precisava fazer máscaras para distribuir, e toda sexta-feira à noite buscavam na minha casa para entregar. Jesus é bom”, afirma.

O projeto social muda o voluntário. Essas mulheres gastam seu tempo e dinheiro costurando para crianças desconhecidas, mas recebem no trabalho algo muito mais duradouro que qualquer vestido: propósito. A ONG é uma oportunidade de viver a terceira idade dedicando-se a algo maior. “Falo do sentimento que sinto lá”, diz Ligia. E em uma sala com muitas máquinas de costura, faladeira e café da tarde, elas fizeram novas amigas e não deixaram essa época da vida ser tomada por um sentimento de vazio.

O Dress a Girl a vestiu de habilidade, amizades novas, fé e amor ao próximo. “Esse projeto desperta em nós um coração doador”, conta Maria Luiza. “Quando a gente chega na loja e pensa em comprar um tecido para a gente, pensamos nas crianças. E vou te falar, não faz diferença na conta. Eu não sei como é que é, mas Deus faz uma conta maravilhosa e multiplica outras coisas”.

Roberta, Sandra e Lucinesia com vestidos da Dress a Girl: toda menina merece um vestido novo (Foto: Caroline Moura)
Roberta, Sandra e Lucinesia com vestidos da Dress a Girl: toda menina merece um vestido novo (Foto: Caroline Moura)

Muitos caminhos levam ao Dress

Hoje, muitas das voluntárias são mulheres aposentadas que buscam se manter ativas em trabalhos que carregam propósito, nos quais se alegram. “Você começa a falar sobre o projeto e as pessoas se interessam”, conta Maria Luiza. Foi dessa forma, ouvindo sobre o projeto, que muitas delas encontraram a missão da qual hoje participam. Lígia Baiense, por exemplo, conheceu o Dress através da indicação de uma pastora e amiga. “Eu trabalhava numa empresa há 10 anos e queria sair, porque não estava aguentando mais trabalhar, já estava com quase 60 anos. Fiz um tempo de terapia e percebi que queria me doar a alguma coisa. Cheguei meio sem graça, porque não sabia costurar e queria primeiro ver o ambiente. Mas vi que tinha gente que sabia e outros que não, mas todo mundo estava ali com boa vontade” .

O Dress a Girl, de fato, abraça todos os níveis de habilidade. As participantes vão desde aprendizes até costureiras de ponta, basta estar disponível para o serviço. Azimar Lima estudou quatro anos na Escola Profissional Feminina em Natal. “Lá eu aprendi a cortar, desenhar, traçar”, conta. Ela já trabalhou profissionalmente com confecção de roupas e, hoje, atua voluntariamente no projeto.

As mulheres que sabem costurar ensinam as integrantes que chegam ainda sem dominar a costura. Sempre que um vestido fica pronto elas tocam o sininho. “Já teve gente que chegou lá pela primeira vez sem nunca ter pego numa máquina e saiu com um vestido pronto”, conta Iraneide Monteiro.

Eu queria um propósito maior; foi quando ela falou do Dress. Falo para a gente divulgar o Dress, porque falar do Dress é falar de Jesus.

Roberta Moura
Voluntária do Dress a Girl

Esse foi o caso da voluntária Roberta Moura, que, em sua primeira tarde de costura, tocou o sininho. “Quando eu comecei a trabalhar em home office, me sentia muito angustiada, muito presa dentro de casa. Ao mesmo tempo que é bom, porque eu estou com meus filhos, faço comida em casa e tal, – é diferente do meu dia a dia anterior. A cabeça da gente é meio doida; comecei a pensar que estou desacelerando, daqui a pouco eu vou me aposentar. Aí bate um panicozinho. O que vai ser da minha vida se eu parar de trabalhar, vou ficar inútil?”

A partir desses questionamentos, Roberta começou a conversar com a amiga Sandra. “Eu queria um propósito maior; foi quando ela falou do Dress. Falo para a gente divulgar o Dress, porque falar do Dress é falar de Jesus. A Sandra ali estava pregando para mim. Foi um propósito mesmo, falei: ‘Caramba, como assim falo que se eu parar de trabalhar numa empresa vou fazer nada, se eu posso fazer isso?’ Sou péssima de trabalho manual, cheguei com uma máquina de brinquedo”, lembra.

Apesar disso, a “caçulinha” Roberta foi bastante encorajada pelas outras mulheres. “Ela não acreditava. Aí ela foi, se empolgou e comprou uma máquina nova”, contou a amiga Sandra Fernandes. Elas se disponibilizam para ensinar, mas também há como colaborar em outras funções. “Pode dobrar, cortar, desmanchar, etiquetar, passar”, diz Lucinesia. E já teve voluntária que não costurava. “Ela fazia setor de qualidade, ficava sentada cortando todos os fiozinhos, fazia limpeza”, lembra.

Sandra conheceu o Dress em 2016, quando uma reunião do projeto aconteceu no seu condomínio. “Só que eu trabalhava muito. Então, o que eu fazia: comprava os tecidos, levava para Curitiba, minha mãe fazia lá e eu trazia para cá e entregava.” Até de longe, a mãe de Sandra conseguia contribuir na vida das crianças carentes.

Já Maria Luiza Rodrigues soube do Dress a Girl por meio da atual líder. “Sempre gostei de trabalho voluntário, fui criada dessa maneira, fazendo sempre alguma coisa para algumas pessoas. A Lucinesia me falou sobre o Dress e eu perguntei qual era o propósito? Ela me explicou e fiquei apaixonada pelo projeto. É um orgulho participar”. Ela deixa um recado para as pessoas aposentadas ou que estão em busca de uma missão: “Te dou um conselho: aquele que está em casa sem fazer nada pensando o que fazer, venha fazer alguma coisa com a gente!”

O Dress a Girl é uma ONG que apoia iniciativas, por isso já está em 88 países. Crianças carentes do mundo inteiro são abençoadas recebendo roupas novas feitas com cuidado pelo voluntariado. Para abrir um grupo basta se colocar disponível. “Se chegar uma pessoa de outro lugar querendo abrir, a gente disponibiliza um manual, que vem com todos os modelos de vestidos”, diz. Aqui no Brasil existe o projeto também em Fortaleza.

Para se voluntariar no Dress a Girl Rio de Janeiro, é só entrar em contato pelo usuário do Instragam @dressrj_ e frequentar os encontros. As tardes de costura são anunciadas pela rede social e acontecem toda segunda segunda-feira do mês, às 14 horas, no Salão Kids da Igreja Batista Atitude. (Rua Silvio da Rocha Pollis, 751 – Barra da Tijuca). Nesse momento, a ONG já está produzindo roupas para enviar a mais crianças de Moçambique. Propósito não tem idade certa nem recompensa, mas tem o poder de transformar vidas e fazer com que uma simples roupa vista de amor os pequeninos.

*Reportagem realizada para o Jornal Laboratório da ECO/UFRJ sob orientação da professora Cristiane Costa

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Caroline Moura

Caroline Moura é jornalista em formação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Cristã e natural do Rio Janeiro, tem interesse em seguir carreira na área do jornalismo político, mas, ao longo da formação explora diferentes editorias, dentro da Rádio e Telejornal da UFRJ

Caroline Moura

Caroline Moura é jornalista em formação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Cristã e natural do Rio Janeiro, tem interesse em seguir carreira na área do jornalismo político, mas, ao longo da formação explora diferentes editorias, dentro da Rádio e Telejornal da UFRJ

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