ODS 1
Anitta e a coragem de cantar seu Orixá num Brasil intolerante




A cantora Anitta no palco com sua turnê Equilibrivm: coragem de cantar seu orixá num Brasil que ainda pune quem é de terreiro (Foto: Divulgação)
Com show de quase três horas na sua Equilibrivm Tour, cantora leva ao palco espiritualidade e ancestralidade num país que ainda pune quem é de terreiro
Tem um tipo de coragem que não faz barulho de espada, mas de atabaque. É a coragem de subir num palco, diante de milhões de pessoas, e dizer, sem pedir desculpas: ‘’eu sou disso’’. Foi isso que Anitta fez ao longo do primeiro semestre de 2026, e foi isso que ela repetiu na noite de 29/8, quando encerrou em Salvador a Equilibrivm Tour — turnê que levou ao país o disco que ela abriu para falar de espiritualidade, ancestralidade e saúde mental, com referências explícitas aos orixás do candomblé, a pontos de umbanda e a elementos das tradições indígenas.


Não é pouca coisa. Estamos falando da artista brasileira mais assistida do mundo colocando o terreiro no centro do palco principal, num show de quase três horas dividido em três atos, com cerca de 35 músicas. Segundo relatos de quem acompanhou os shows, o público chorava e cantava junto do início ao fim, se emocionava de um jeito que a própria cantora disse nunca ter visto antes em sua carreira.
Anitta é praticante de candomblé e colocar a fé de matriz africana no centro de uma obra que alcança milhões de pessoas é, como bem resumiu a pesquisadora de religiões afro-brasileiras Cláudia Alexandre em entrevista ao Metrópoles, ‘’um gesto de potência política’’. Mas a pesquisadora também faz uma ponderação importante quando lembra de que expor o sagrado em escala de massa exige cuidado para que a dimensão comercial não esvazie o que há de mais profundo nessas tradições.
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Veja o que já enviamosE aqui chegamos num ponto que a própria Anitta expôs publicamente a dificuldade de bancar esse projeto. Em plena turnê, ela fez um desabafo emocionado agradecendo à Natura, dizendo que a marca havia sido a única a acreditar de fato naquele momento artístico, seguida da L’Oréal Paris logo depois. O desabafo diz algo maior do que a lista de logomarcas, versa sobre como um projeto declaradamente espiritual, de matriz afro-brasileira, ainda hoje é tratado por parte do mercado publicitário como aposta arriscada, e não como ativo cultural óbvio.
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A própria cantora deu um jeito de amenizar, dizendo que talvez fosse menos preconceito e mais o receio natural que qualquer projeto novo desperta. Pode ser, e nós sabemos o medo do ’’novo’’. Mas o fato de duas gigantes terem topado entrar de cabeça nesse terreiro tem um peso simbólico que vai além do patrocínio em si. Quando marcas desse tamanho decidem que podem, sim, associar seu nome a um projeto atravessado por orixás e ancestralidade negra, sinalizam ao resto do mercado que esse território deixou de ser tabu comercial.


Essa coragem, da artista e das marcas, não acontece no vácuo. Ela acontece num país onde ser de candomblé ou de umbanda ainda pode significar viver sob ameaça. Os números do Disque 100, canal de denúncias do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, são claros: de janeiro de 2025 a janeiro de 2026 foram registradas 2.774 denúncias de intolerância religiosa no Brasil, mantendo a tendência de alta observada desde 2024, quando o país já havia contabilizado 2.472 casos, salto representativo de 67% em relação ao ano anterior.
E entre as religiões identificadas nessas denúncias, as de matriz africana lideram disparado, com a umbanda somando 228 registros, o candomblé 161, e há ainda 47 ocorrências que envolvem as duas tradições juntas, e de outras 40 ligadas a religiosidades afro-brasileiras não específicas. É preciso deixar claro que nenhuma outra fé identificada chega perto desses números.


O que talvez torne 2026 um marco de verdade não é só a ousadia individual de Anitta. No início do ano, o Carnaval do Rio e de São Paulo trouxe para a avenida um conjunto expressivo de enredos dedicados à ancestralidade negra e às religiões afro-brasileiras. No Rio, a Beija-Flor, vice-campeã carioca, contou a história do Bembé do Mercado, celebração afro-religiosa de Santo Amaro da Purificação; e, na Paulicéia, Mocidade Alegre, Império de Casa Verde e Mocidade Unida da Mooca levaram Oxum, Iemanjá e outras entidades para o Sambódromo do Anhembi. Some-se a isso o crescimento de trabalhos de sambistas e compositores dedicados a resgatar os afrossambas e a estética religiosa afro-brasileira na música popular.
Talvez o verdadeiro legado de Equilibrivm não caiba nos números de bilheteria nem nas parcerias fechadas. Caiba, sim, no que a própria Anitta descreveu como um risco que valeu a pena, sendo esse o de arriscar um álbum sem certeza de que as pessoas fossem gostar, movida por algo que ela mesma disse carregar no coração. Num Brasil que ainda pune quem professa fé de terreiro, ter coragem de cantar seu orixá no maior palco possível não é só uma escolha artística. É, antes de tudo, um jeito de ser brasileiro por inteiro.
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